Vício em comer (parte 3)

Concluindo a nossa conversa sobre a compulsão alimentar

Eu sei que a ciência é apenas um dos muitos conhecimentos que existem na sociedade, e que não devemos considerar tudo o que é publicado como sendo a pura verdade, mas não consigo esconder meu entusiasmo ao encontrar estudiosos tentando explicar o que acontece com o nosso cérebro quando escolhemos o chocolate ao álcool.

Apesar de o dilema não estar resolvido, já é possível encontrar algumas informações sobre a compulsão alimentar, seus porquês e tratamentos. Atualmente, muitos especialistas concordam que o efeito viciante dos alimentos saborosos e das drogas são regulados pelos mesmos mecanismos de recompensa e aumento de dopamina no cérebro - o neurotransmissor da dependência relacionado à sensação de bem-estar.

Crédito: Eric Hossinger

A impulsividade é um traço de personalidade que diminui a nossa capacidade de inibir um comportamento que terá consequências desvantajosas. Quem tem compulsão é mais impulsivo na hora de recorrer a alimentos para obter a sensação desejada, mesmo sabendo que se arrependerá mais tarde. A impulsividade é um risco para o consumo excessivo de alimentos, principalmente por vivermos um um ambiente onde temos acesso fácil a uma variedade enorme de delícias. O ambiente só contribui para estes impulsos.

Comedores compulsivos  e viciados tendem a buscar recompensa imediata nas suas ações, mesmo que o resultado seja danoso no futuro. Todos nós temos a capacidade de escolher como vamos agir baseados na memória emocional das consequências que obtivemos com as mesmas ações no passado. Em outras palavras, nós conseguimos fazer um cálculo probabilístico de como uma determinada ação vai nos afetar no futuro, positiva ou negativamente. Para quem come compulsivamente ou para quem é dependente químico, é como se esse mecanismo de tomada de decisão estivesse desligado.

Crédito: chichacha

Todos os comportamentos viciantes são, normalmente, uma busca pela sensação de prazer e bem-estar. No caso dos comedores compulsivos, a recompensa está no gosto agradável do alimento, no sentimento de excitação causado pelo aumento da glicose no sangue, na sensação de relaxamento e na melhora do humor.

O estudo afirma que um tratamento eficaz deveria envolver a busca por fontes alternativas de recompensa e divertimento, já que a grande maioria dos pacientes com compulsão relata a comida como sendo a única fonte de prazer em suas vidas. Olha aí a ciência comprovando o que eu havia escrito aqui!

Por outro lado, as emoções negativas também são responsáveis pela compulsão alimentar ou uso de substâncias, uma vez que alimentos e drogas têm o poder de suprimir ou nos distrair de sentimento ruins. Para superar a compulsão seria necessário aprender a tolerar o sofrimento emocional, sem agir sobre eles.

Crédito: Bhargavi Jannu

Crédito: Bhargavi Jannu

Quando eu li este artigo, já conhecia muito bem o que é se sentir viciada em comer, mas não tinha encontrado até então um estudo tão completo como este. Por mais chocante que pareça, a compulsão alimentar tem sim muitas similaridades com a dependência química, mas eu não acredito que ela deva ser tratada como qualquer outro vício.  

No tratamento da dependência, o paciente é proibido de fazer uso da substância viciante. Já na compulsão alimentar, o paciente tem que continuar fazendo uso da “droga” para o resto da vida (não dá para simplesmente parar de comer). Pedir para um compulsivo comer apenas um quadradinho de chocolate quando a compulsão bater, é a mesma coisa de pedir para um alcoólatra tomar apenas uma taça de vinho todo dia durante o jantar.

O estudo até levanta a possibilidade de um tratamento que proíba o consumo dos alimentos que despertam a compulsão alimentar, mas eu tenho as minhas ressalvas em relação a isto. Em primeiro lugar, cada pessoa é única no momento da compulsão e as suas escolhas também são únicas. A compulsão pode acontecer com um alimento específico ou com qualquer alimento que esteja disponível na hora, o que complicaria bastante a aplicação de tal tratamento. Imagina proibir o consumo para quem tem compulsão com alimentos básicos como arroz e feijão?

O estudo mesmo afirma que o comer compulsivo seria único na área das dependências, uma vez que possui característica de dependência química e vícios comportamentais - o vício não está apenas na comida, mas também no ato de comer. Por um lado, alimentos muito saborosos são ativadores de dopamina, que atua nos mecanismos de recompensa no cérebro, assim como outras drogas viciantes. Por outro lado, o ato de comer em si também é uma atividade gratificante, comparada com outros vícios comportamentais como jogar ou fazer compras.

Sinto que a ciência está avançando na busca por mais informações e alternativas de tratamento para a compulsão alimentar, mas o desafio também é entender por que algumas pessoas são mais vulneráveis a abusar de drogas ou jogar compulsivamente, enquanto outras tendem a cometer excessos alimentares. O que já se sabe é que a resposta, em grande parte, está em fatores sociais e culturais, como sexo, idade e situação socioeconômica. E se você ainda estava em dúvida, nós mulheres somos sim as maiores vítimas do vício em comida.

Você pode encontrar o primeiro post da série aqui e o segundo post aqui.