Vício em comer (parte 2)

Continuando a conversa...

No post anterior, eu comecei explicando as semelhanças entre a compulsão alimentar e a dependência química, baseadas em um estudo canadense que sugere que o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) comece a ser considerado um transtorno de dependência. Neste post, eu vou continuar explorando com os argumentos relevantes encontrados no estudo.

Crédito: las - initially

Eu sofri muito tempo com episódios de compulsão alimentar, e se tem uma coisa que eu posso dizer quando a compulsão surge, é que parece que a comida vira droga mesmo. A vontade surge tão repentina e tão poderosa, que você não tem muito tempo para negociar consigo mesma se vale a pena ou não atacar o armário; quando você se dá conta, o pacote já está vazio. E daí vem aquele alívio momentâneo, e minutos depois o peso: no estômago e na consciência. É por saber exatamente como isso acontece, que eu fiquei surpresa com a assertividade de algumas comparações do estudo, como estas:

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Quem tem ou já teve compulsão sabe o quanto parece impossível dizer não à comida quando o impulso aparece. É como se você não tivesse controle algum sobre o alimento.

Uma característica comum a todos os tipos de vícios, é que a pessoa continua fazendo uso da substância mesmo que isto resulte em prejuízo à sua saúde, segurança, relações sociais ou estabilidade financeira. Com o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) não é muito diferente. Quem sofre de compulsão relata que não consegue se controlar, mesmo sabendo das consequências negativas dos seus atos, como ganho de peso, diabetes e hipertensão. O compulsivo sente culpa e angústia quando questionado sobre os seus hábitos alimentares, mas se sente incapaz de parar quando a compulsão aparece.

Crédito: TALMADGEBOYD

Crédito: TALMADGEBOYD

Alguns estudos feitos em animais demonstraram que uma dieta rica em açúcar resulta em aumento do consumo de alimentos ao longo do tempo. Mesmo que essa evidência não seja direta, acaba sendo de grande importância para o entendimento da compulsão, já que os alimentos consumidos são tipicamente com alto teor de açúcar.

A evidência mais direta da tolerância de humanos a determinados alimentos são relatórios clínicos de pacientes com TCAP que registram um aumento significativo no consumo de alimentos à medida que o transtorno se torna mais grave. A tolerância pode ser melhor entendida assim: comer em excesso nos leva a comer ainda mais alimentos. O mesma característica de tolerância é vista nas pessoas viciadas em diferentes tipos de drogas ou álcool. Com o passar do tempo, elas consomem cada vez mais para conseguir obter a sensação desejada.

Outro ponto importante, é que muito dos pacientes analisados disseram ter excesso de peso mesmo antes de terem compulsão, o que leva a crer que as dietas de alto teor calórico também podem contribuir para a compulsão alimentar, já que o corpo fica resistente ao estímulo.

Crédito: Ralph Daily

Crédito: Ralph Daily

É bem comum ouvirmos pessoas afirmando que são viciadas em açúcar. É claro que isto é dito normalmente em tom de brincadeira, mas já pensou se isso fosse realmente verdade?

Bem, para verificar isso, alguns pesquisadores mantiveram ratos com uma solução diária de 25% de glicose para testar como eles reagiriam à remoção do açúcar da dieta, e os resultados foram alarmantes. Ao retirar a glicose, os ratinhos mostraram agressão, ansiedade, queda na temperatura do corpo e tremor - os mesmos sintomas associados à abstinência de drogas, como a heroína.

Os sintomas da abstinência de açúcar em humanos são retratados apenas em observações clínicas, livros e sites na internet como: dores de cabeça, irritabilidade e sintomas de gripe. No entanto, é importante ressaltar que a abstinência em humanos ainda não tem comprovação científica.

Crédito: Kimono Loco

Crédito: Kimono Loco

A compulsão alimentar, assim como a dependência química, são marcadas por períodos de melhora e recaída. Tanto o comedor compulsivo quanto o viciado, tentam diversas vezes mudar seus hábitos, mas não conseguem por que a vontade pelo alimento ou pela droga é incontrolável. Muitas vezes, a ânsia de comer é desencadeada após um pequeno deslize na dieta - vai comer um pedacinho e acaba comendo a coisa toda. É como um ex-alcoólatra que volta ao vício após um gole de cerveja. O estudo cita que o efeito sanfona seria um exemplo prático de como as tentativas de melhora podem ser malsucedidas - o comedor compulsivo passa períodos engordando e emagrecendo.

 

Crédito: hthrd

Crédito: hthrd

Quando eu li sobre o efeito sanfona, me identifiquei completamente. A minha vida se resumia, literalmente, em "estar engordando" ou "estar emagrecendo". Eu acreditava que a próxima dieta iria resolver meu problema e eu seria magra de vez, mas o plano nunca dava certo. Eu chegava a emagrecer, mas depois de alguns escorregões na dieta, jogava tudo para cima e voltava a comer sem limites. Se você ainda não viu, dê uma olhada nas minhas confissões para entender como a minha mente funcionava.

No próximo post tem a conclusão sobre o vício em comida e a minha opinião como ex-comedora compulsiva. Perdeu o primeiro? Não tem problema, dá uma olhada aqui.