Vício em comer (parte 1)

Estudos mostram que o comer compulsivo tem características semelhantes à dependência química. Será?

Há pouco tempo, eu encontrei um estudo canadense muito interessante que propõe a inclusão do comer compulsivo como um transtorno de dependência, devido à sua semelhança com a dependência química. O artigo em questão trata-se de um compilado de todos os estudos publicados até então sobre os aspectos viciantes da comida.

Quando digo comer compulsivo não estou me referindo aos episódios isolados de compulsão, mas ao Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), reconhecido recentemente como um transtorno alimentar pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).

Crédito: Jonas Tana

Crédito: Jonas Tana

O TCAP é caracterizado por episódios compulsivos de alimentação que não são normalmente movidos por fome e nem seguidos por quaisquer comportamentos compensatórios como purgação (vômito), jejum ou exercício excessivo, como no caso da Bulimia Nervosa. Se você quiser saber mais, eu já havia escrito um post sobre a compulsão alimentar aqui, que explica o que é a compulsão como episódio e como transtorno alimentar.

Apesar de muitos discordarem que a compulsão por comida seja um vício, eu confesso que fiquei intrigada com tantas similaridades apresentadas no estudo e, por isso, resolvi dividir aqui com você. Já vou deixar claro que, atualmente, a compulsão enquanto transtorno alimentar não é tratada oficialmente como dependência química. Apenas algumas organizações, como os Comedores Compulsivos Anônimos, por exemplo, consideram a compulsão como um vício.

O estudo é interessante porque está baseado nas características clínicas e nos mecanismos biológicos que a compulsão e a dependência química têm em comum, como a perda de controle, sintomas de abstinência, impulsividade, dentre outros.

Vício em açúcar

A verdade é que estamos comendo cada vez mais, tanto em quantidade, quanto em calorias. Nós somos capazes de passar o dia inteiro mastigando, sem ao menos nos darmos conta disso, graças à grande oferta de produtos industrializados ricos em açúcares e gorduras.  Esses produtos são deliciosos, irresistíveis e especialmente desenvolvidos para agradar qualquer paladar. Eles melhoram o humor, liberando neuropeptídeos no nosso cérebro, que são substâncias químicas responsáveis pelo processo de dependência.

Crédito: Leo Hidalgo

Crédito: Leo Hidalgo

Os biólogos evolucionários acreditam que a nossa fixação com açúcar e gordura é resultado da evolução do ser humano, e que esta preferência por alimentos altamente calóricos foi crucial para a nossa sobrevivência em períodos em que o alimento era escasso. A notícia ruim é que até hoje estamos programados para apreciar essas gostosuras.

Os especialistas estão agora confiantes em afirmar que os nutrientes que compõem muitos produtos industrializados são viciantes por causa da concentração elevada de gorduras e açúcares .

Vício em comer

Mesmo partindo da ideia de que comer em excesso seja viciante, seria errado e simplista considerar todos os casos de comilança como resultado de vício em comida. Para a maioria das pessoas, comer muito acontece normalmente, sem grandes consequências. É o caso de quem come grandes porções, fica beliscando o dia inteiro, ou enfia o pé na jaca de vez em quando. O artigo trata especificamente do aspecto viciante do alimento para o comedor compulsivo.

Crédito: Tracy Benjamin

Crédito: Tracy Benjamin

Apesar da forte relação que há entre o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) e a obesidade, os estudiosos não reivindicam que a obesidade e o vício sejam a mesma coisa, o que eu concordo plenamente. Eles citam que os obesos com TCAP fazem parte de um subtipo específico de obesidade que é propenso à compulsão devido ao prazer obtido no alimento, e que essa predisposição em comer para se sentir bem é facilmente explorada com o excesso e o fácil acesso à comidas doces e gordurosas. E lá vamos nós com o comer emocional novamente que, infelizmente, não atinge apenas quem tem um transtorno alimentar. Comida e emoções: um eterno dilema para muitas de nós.

Infelizmente, os estudos na área ainda são escassos e sabe-se muito pouco sobre a compulsão alimentar e os transtornos alimentares em geral. Os profissionais de saúde ainda estão tentando dar nomes e categorizar sintomas, mas há muito o que ser descoberto. São poucos os livros, artigos ou sites que tratam do aspecto emocional do alimento, mas tudo o que eu for encontrando, vou dividir aqui com você, além da minha própria visão e experiência.

Dê uma olhada na parte 2 e parte 3 para entender a relação entre a compulsão alimentar e a dependência química.