Vai malandra, você tem bumbum você pode

Como assim eu ainda não havia assistido ao novo clipe da Anitta? Mesmo estando isolada aqui na Holanda, o Spotify me levou de volta ao Brasil malandro quando adicionou o hit da Anitta às minhas sugestões do dia. Só então me dei conta da repercussão do “Vai Malandra”.

A batida da música é contagiante e fiquei feliz de ver um artista brasileiro representado no cenário mundial independente de gostos musicais. Foi só quando parei para assistir ao clipe e prestar atenção na letra que o batidão mudou.

A Anitta tem celulite

O clipe é um exemplo do empoderamento feminino através das nádegas, essa maneira distorcida de colocar a mulher no papel central como se ter poder fosse andar rodeada de homens enlouquecidos pelo seu bumbum, com ou sem celulite.

É a velha narrativa da mulher sendo o objeto admirado pelo homem, o sujeito admirador. E a ideia falsa de que a mulher tem poder ao ter homens atraídos por ela.

Ao assistir ao clipe não pude evitar de relembrar o começo da minha adolescência, com 13 ou 14 anos, quando eu me trancava no quarto, ligava o som e dançava axé me imaginando em situações em que eu era a mais admirada da festa. Na minha imaginação eu tinha o corpo da Carla Perez, usava aqueles shortinhos e tops provocantes e dançava enquanto todos me olhavam. Aquele sonho acordado era a representação que eu tinha do que era ser uma mulher poderosa.

Ainda hoje, 20 anos mais tarde, continuamos com a mesma referência do poder feminino da bunda.

Vai malandra e a celulite da Anitta

É claro que achei lindo ver a celulite da Anitta sem retoque, é claro que achei lindo ter uma mulher gorda sendo representada, e travestis, e negros, e uma parcela da realidade da favela que é onde o funk nasceu.

Eu poderia falar aqui sobre apropriação cultural, sobre o “enegrecimento” da cantora, o uso do diretor Terry Richardson com várias acusações de abuso sexual, mas vou me ater a um ponto. Estamos sim evoluindo, mas o que incomoda é a ironia de ver como empoderamento mulheres hipersexualizadas na mídia de um lado, enquanto de outro lado essas mesmas mulheres são censuradas ao expressar sua sexualidade na vida real. Onde está o poder então?

Enquanto estamos aqui preocupados com a celulite da Anitta, olha o que o mundo está cantando:

 

“Vai malandra
Me mostre algo
Gata brasileira, você sabe que te quero
Bunda grande, dá pra equilibrar um copo em cima
Olha pro meu zíper, vem botar essa bunda aqui
Tô hipnotizado pelo jeito que você se mexe
Não posso negar que quero te ver pelada
Anitta, gata, estou tentando dar uns tapas
Eu posso dar isso para você, será que você aguenta?”

 

A favela é mais do que funk e bunda. A Anitta é mais do que celulite. E nós somos mais do que corpos.

Vai malandra, você pode.