Toda guerra deixa marcas

Até aquelas que lutamos diariamente contra nós mesmas

Eu voltei!!!

Depois de uma longa lua de mel na Croácia, eu finalmente estou de volta e me esforçando ao máximo para me acostumar à vida normal longe daquele paraíso azul. Só para esclarecer, eu não acabei de me casar. Na verdade, o meu casamento foi em 2012, mas adiei a lua de mel para 2014 porque todo ano acontecia algo mais importante do que a minha tão merecida viagem. Ela chegou e foi maravilhosa e foi azul. Tão fantástica que me fez duvidar da nacionalidade de Deus, seria ele brasileiro mesmo?

Cheguei e a primeira coisa que fiz foi começar a responder emails, mensagens e comentários que vocês deixam por aqui e que dão mais sentido ao meu dia. Obrigada a cada uma de vocês por isso. Mas um comentário em particular me fez pensar muito na Croácia. A leitora me perguntava como é que seria possível aceitar as marcas do corpo que surgem não porque a vida te deu, mas porque a compulsão alimentar mudou o seu corpo.

Todas ou quase todas as marcas que temos ou que vemos são indesejadas. Com exceção da pinta sexy da Marilyn Monroe ou da Cindy Crawford, são poucas as pessoas que valorizam sardas, pintas, manchas, estrias, vazinhos, celulite ou varizes. E há uma razão bem racional para isso: muitas dessas marcas são resultado de algo que deu “errado” no nosso corpo. E o erro vai desde circulação sanguínea deficiente, excesso de exposição solar, excesso de tecido adiposo, até rompimento das fibras elásticas da pele e excesso de peso. Eu não sei para você, mas para mim todas essas alterações no corpo soam um tanto negativas, isso sem contar com o fator estético.

Não podemos esquecer também que para cada marca no nosso corpo há um tratamento disponível no mercado. Não há uma marquinha sequer que não possa ser tratada. Bem, isso também soa bem negativo para mim. Se há tratamento para algo é porque algo não é bom, certo?

As marcas deixadas pelo consumo desenfreado de alimentos e por emagrecimentos seguidos de engordas são marcas deixadas pela vida como qualquer outra marca, mas por alguma razão aceitamos mais facilmente uma cicatriz de um acidente horrível do que as estrias dos últimos 20 quilos engordados. Acreditamos que os seios flácidos da amamentação têm mais direito de existir do que os seios flácidos de um emagrecimento bem sucedido. Envergonhamo-nos de qualquer prova do nosso excesso, do nosso descontrole, e fazemos de tudo para não reconhecer a existência destas marcas.

A nossa lua de mel foi de carro. Atravessamos a Holanda, a Alemanha, a Austria e a Eslovênia até chegarmos na Croácia. Dirigindo de norte a sul do país não é difícil ver as marcas deixadas pelos longos anos de guerra. A última ocorreu quando a Croácia declarou independência da Iugoslávia em 1991. Daquele ano até 1995, o país foi atacado pelo temido exército iugoslavo e até hoje sofre com as marcas deixadas pela guerra. Os telhados destruídos, os prédios abandonados e os furos nas casas são a prova de um passado que todos querem esquecer. A prova de que decisões erradas foram feitas.

Hoje, muitos turistas vão à Croácia para saber mais sobre a guerra, mas os croatas não gostam de falar sobre isso, o que é totalmente compreensível, eles focam nas belezas naturais e nas riquezas históricas. Aos poucos, o país está se recuperando, mas muitas marcas ficarão visíveis. A Croácia sempre vai ser o país que fez parte de uma das guerras mais violentas da Europa, e não há nada que ela possa fazer para apagar isso da história. Ela reconhece a guerra e as marcas deixadas, mas decidiu seguir adiante focando na beleza que ainda existe, nas conquistas do passado e nas perpectivas de um futuro promissor.

As nossas marcas também devem ser reconhecidas. Você pode se arrepender por tê-las, você pode até odiá-las por um tempo, mas elas não irão embora independente do quanto forem rejeitadas. Ao rejeitarmos as nossas marcas, só estamos dando mais importância a elas, deixando que elas nos impeçam de ver a beleza que ainda existe, as nossas conquistas do passado e as perspectivas de um futuro promissor.

Na Croácia, ao lado dos furos de metralhadora nas paredes, há flores enfeitando as janelas das casas que teimam em ser belas. E o lençóis brancos estendidos no varal, esvoaçantes à brisa do mar Adriático deixam claro que o país é muito mais do que marcas. E assim também somos nós.