O problema com a moda dos crespos ou cacheados

Eu tenho duas amigas latinas que domam as madeixas com escova e chapinha semanalmente. Com o maior carinho elas me dão dicas de tratamentos e escovas progressivas para domar as minhas madeixas como se eu andasse por aí com o cabelo implorando por solução.

Ter cabelo crespo ou cacheado é também ter que se convencer todos os dias de que o seu cabelo é bonito do jeito que é. Você acorda, olha para o espelho, pega uma mecha de cabelo e estica a ponta para verificar o comprimento, mas basta soltar a mecha para que ele volte imperioso ao formato original. Você então respira fundo e tenta ver todos os aspectos positivos de ter um cabelo que cada dia está de um jeito.

Cabelo crespo e cacheado

Gostar do próprio cabelo é uma parte muito importante na aceitação da nossa identidade, mas fica difícil gostar de algo que é visto pela massa como feio e indesejado. No entanto, estou começando a ver aos poucos crespas e cacheadas caminhando pelas ruas orgulhosas do seu volume e frizz. Parece que finalmente o cabelo natural está na moda.

O problema é que toda vez que leio que o cacho está na moda, me dá uma mistura de alegria e dissabor. Eu acho um pouco estranho falar que uma determinada textura está na moda porque a moda é passageira, mas o nosso cabelo não.

Que essa moda seja eterna.

Comer “besteira” em público

Esta semana eu li uma coluna no jornal que me deixou intrigada. A jornalista descrevia como ficou desconcertada ao testemunhar uma mulher sentada no trem comendo uma barra inteira de chocolate. Na coluna, ela contou em detalhes como 180 gramas de chocolate haviam sido devorados em meia hora sem o menor constrangimento. O choque foi tamanho que ela decidiu escrever sobre isso. Ela não conseguia entender como alguém era capaz de colocar tanto açúcar no próprio corpo mesmo sabendo que ele é um tipo de veneno.

Bem, eu consigo.

A jornalista no caso não consume açúcar refinado, o que é uma escolha dela. Mas o fato de alguém comer uma barra grande de chocolate não deveria fazer dela uma pessoa ruim ou descuidada com a própria saúde. 

Se açúcar é veneno eu não sei, e ainda não há indícios suficientes comprovando isso. E se for veneno, qual seria a dose precisa então? Porque até água faz mal se ingerida exageradamente. Na verdade a discussão aqui não é se o alimento é saudável ou não; nós sabemos que ingerir muito açúcar não faz bem a ninguém, mas será que consumir alimentos considerados não saudáveis em público vai começar a ser visto como o cigarro é?

A fome que o estresse dá

Ontem fui tomar um cafezinho depois do trabalho com uma amiga sueca e o assunto não podia ser outro... Mulher, comida, dieta, mais comida e aquela nossa culpa de cada dia por ter comido demais. Ela, assim como eu, está passando por momentos de decisões importantes e foi inevitável não tocar na fome que dá quando o estresse aparece.

Eu sei que tem muita gente por aí que perde a fome quando está estressado, mas esse não é o caso da minha amiga, muito menos o meu.

Com o friozinho do outono começando a aparecer misturado aos dias estressantes, a minha vontade é de voltar para casa depois do trabalho comendo um pote de doce de leite no trem. Ao chegar em casa, tudo o que eu quero é tomar um copo encorpado de chocolate quente mergulhado em marshmallow e coberto com chantilly. Quem sabe até um hamburguer caseiro com batata frita e maionese verde para o jantar e, para finalizar, algumas fatias de pudim de sobremesa.

Quando o estresse bate, eu quero comer. E talvez você sinta a mesma vontade.

Comer é uma solução quase instantânea para se sentir bem e esquecer qualquer agrura, mas aquele bem-estar vai embora na mesma velocidade que surge. Nos primeiros instantes você aproveita e se delicia, mas depois é difícil lidar bem com a quantidade exagerada de comida. Não é apenas culpa ou arrependimento que bate, você se sente fraca e incapaz de se controlar. Ah, o estresse!

E a comida que era solução acaba virando problema. Você começa o dia com um problema e acaba indo para a cama com dois.

É por isso que quando o estresse bate o melhor é deixar ele bater; deixar ele existir para te mostrar que há algo que precisa ser feito ou que há algo que precisa ser aceito. Até encontrar uma resposta, lembre-se que o desconforto do estresse é menor do que o desconforto do estresse somado à culpa.

 

Seja quem você quiser e se orgulhe disso

Aos 15 anos fui parar pela primeira vez na diretoria.

Com as pernas trêmulas andei pelo corredor até chegar na salinha mal decorada da direção.

Eu não fazia a mínima ideia do que havia feito de errado, mas fui caminhando e formulando possíveis respostas ao problema que eu estava prestes a enfrentar.

A diretora estava sentada com a minha redação na mão. Um pedaço de papel de bordas impressas em rosa bebê em que eu expunha os meus pensamentos sobre as diferenças entre ser menina e menino. Em poucas linhas era possível encontrar alguns nomes do reino animal, como vaca, galinha e piranha, onde eu explicava como eram chamadas as meninas que não se comportavam.

Ela tinha me chamado para perguntar de onde o texto havia sido copiado. Falou que eu não teria como escrever aquilo sozinha e que a minha redação estava mais para uma crônica da revista Capricho. Ao ouvir tal absurdo, as minha bochechas começaram a queimar de raiva e de alegria. Quer dizer então que a qualidade do meu texto era tão alta assim? Mas peraí, quer dizer também que uma menina de 15 anos não é capaz de ver por si mesma que as expectativas para ela como mulher são outras?

Quando vi este vídeo pensei naquele texto que escrevi aos 15 anos. Naquela época eu já havia entendido que uma mulher tinha que parecer atraente para o homem, mas jamais deveria sucumbir aos encantos dele. Ela deveria ser um objeto belo de admiração que não podia ser tocado. Um sonho inatingível às fantasias masculinas.

Hoje, mais de 15 anos depois da minha conversa com a diretora, eu vejo que pouca coisa mudou. Enquanto tivermos regras tão rígidas de como uma mulher deve ser ou deve lidar com o próprio corpo estamos confinadas a viver sem liberdade.

Nós mulheres somos quem somos. E somos diferentes umas das outras. Exatamente como deve ser.

"Seja quem você quiser e se orgulhe disso"

Como é tratar um transtorno alimentar

Tudo sobre o meu tratamento na Holanda

No vídeo anterior eu contei um pouco de como foi descobrir que eu tinha bulimia. E agora, como prometido, aqui vão os detalhes do meu tratamento na Holanda. Depois de conversar com algumas leitoras eu percebi que tratamentos variam bastante. O que falo neste vídeo é sobre uma das muitas possibilidades de cura.

Eu me tratei no centro Centrum Eetstoornissen Ursula e lá eles combinam diversos tipos de terapia dependendo de cada caso. Tem casos em que o cliente (aqui eles não chamam de paciente!) fica hospedado no centro até ter condições de continuar o tratamento morando em casa, há pessoas que seguem um tratamento intensivo de quatro dias por semana, tem quem vá duas vezes na semana ou até uma vez por mês para manutenção. No meu caso, eu participava de uma sessão semanal.

No próximo vídeo eu vou contar exatamente o que eu comia durante o tratamento.