Como é crescer gorda

Para quem foi ou para quem convive com crianças gordinhas

Eu cresci lidando com excesso de peso, mas demorou um tempo até que eu me desse conta de que eu era maior do que as minhas amiguinhas. Na verdade, foi meu irmão o primeiro a deixar claro que o meu tamanho era inadequado e só então eu passei a me olhar no espelho de outra forma.                

Meu irmão era daquele tipo social e estiloso, sucesso entre as meninas do bairro e conhecido em todas as esquinas. Eu sentia o maior orgulho em tê-lo como irmão mais velho porque ele era simplesmente o máximo.

Aos 3 anos

Aos 3 anos

Enquanto a minha irmã repetia continuamente que eu era o suficiente, ele deixava claro a todos que eu era grande demais. Ele dizia: "ela precisa emagrecer, agora ela ainda é uma gordinha engraçadinha, mas quando crescer ninguém mais vai achá-la engraçadinha". Ele repetia isso a minha mãe como se eu não estivesse presente no momento. Mas eu estava ali, ao lado dele, testemunhando os seus comentários sobre a minha pequena pessoa gorda que um dia cresceria e seria uma grande pessoa gorda.

Em todos os acontecimentos que o meu irmāo estava presente, a minha gordura era relembrada. Ele comentava sobre o meu peso em encontros familiares, em festas com amigos e até com a namorada. Bastava ele me ver para se incomodar com o meu formato. Como ele não dormia muito em casa, cada vez que nos encontrávamos eu me esforçava para parecer o mais magra possível - o que nunca dava certo.

aos 5 anos

aos 5 anos

Ainda me lembro quando ele planejou comemorar o aniversário em grande estilo, com uma festa cheia de adolescentes estilosos, cerveja, luzes e música. Eu achei aquilo a coisa mais divertida que poderia acontecer. Eu queria crescer e ser assim como meu irmão, cheia de amigos e com a vida cheia de diversão.

Naquela festa eu pude participar como a irmãzinha mais nova. Ali eu provei cerveja pela primeira vez fingindo ter adorado, o que surpreendeu a todos  e me fez sentir o máximo. Eu dancei na pista sem pensar se o meu corpo era ideal ou não para fazê-lo e todos adoraram. Eu era o orgulho do meu irmão e estava me sentindo a estrela da festa. A certa altura da noite, meu irmão achou engraçado fazer comentários sobre meu excesso de peso, o que resultou em risadas dos seus amigos e um sorriso amarelo de incompreensão no meu rosto. Eu sabia que eu era gorda, mas aos 8 anos eu não entendia porque isso era um problema.

aos 9 anos

aos 9 anos

Crianças gordas sabem que são gordas e, mesmo que elas ainda não saibam, vai chegar o momento em que o mundo irá conscientizá-las disso.

O peso de uma criança é o reflexo do estilo de vida dos pais, salvo raras exceções.

Dizer a uma criança que ela precisa fechar a boca e emagrecer é depositar nela a responsabilidade que seria de um adulto, e este é um peso bem maior do que o peso que ela já está carregando.

Eu acredito que educar sobre alimentação é uma ótima maneira de tornar os pequenos mais conscientes sobre a natureza e o funcionamento do seu corpo, mas não precisamos amedrontá-los sobre comidas que engordam ou que não são saudáveis. É possível prevenir e até reverter um quadro de obesidade na infância se forem feitas adaptações na alimentação e no estilo de vida da família inteira, sem necessariamente ter que colocar a responsabilidade na criança.

Eu cresci gorda, e nenhum lembrete do meu irmão fez com que eu emagrecesse na infância. Eu só sentia vergonha e raiva. Raiva dele e raiva de mim. Tudo o que eu queria era ser aceita, assim como qualquer criança.

Quando uma criança é desaprovada por algo que ela tenha feito, pode ter certeza que ela irá se esforçar para fazer diferente da próxima vez. Mas quando ela é desaprovada por ser como ela é, o único resultado é um sentimento de inferioridade e inadequação que a gente pode carregar para sempre. 

Mulheres e Comida em tela

As obras da Lee Price

Quando eu comecei a escrever sobre a relação entre mulheres e comida eu sabia que não estaria sozinha nesta jornada. Aí do outro lado da tela com certeza haveria alguém passando pelo mesmo que eu passei e quem sabe até sentindo o que eu senti. Eu sabia que não era a única que já havia mantido uma vida secreta com a comida; um segredo guardado entre as paredes do meu quarto, da cozinha e até do banheiro; uma parte de mim que eu fingia não existir e que continuou crescendo até o dia em que eu decidi lutar de volta.

Obra:  Asleep

Quando você se vê nessa situação, qualquer palavra de alguém que já tenha passado pela mesma experiência é um conforto enorme. E foi por isso que eu decidi dividir o que acontecia comigo. Expressar o que sentimos é uma maneira de nos fortalecer e de ajudar outras pessoas a também se fortalecerem, é uma forma de quebrar o ciclo de silêncio, vergonha e julgamento que nos cerca.

obra:  Sunday

obra: Sunday

Há pouco tempo eu descobri as pinturas realistas da artista nova-iorquina Lee Price, e percebi que há muitas maneiras de expressar os nossos segredos alimentares. Ela pinta com um talento impressionante a interação entre a mulher e a comida em espaços privados, quando estamos longe de julgamentos e qualquer forma de controle.

Através de suas pinturas, Lee Price revela com propriedade o segredo que muitas mulheres carregam e que fazem questão de esconder. Nós não queremos revelar que almoçamos frango com salada na presença de outras pessoas para mais tarde comer sem nenhum tipo de regra quando estamos sozinhas.

   OBRA:   JELLY DOUGHNUTS

Muitas vezes não queremos passar muito tempo pensando ou refletindo sobre a maneira como nos alimentamos, mas a arte de Lee Price faz qualquer um parar.

Foi partindo da sua própria experiência que ela começou a se retratar comendo compulsivamente em lugares considerados incomuns. A cama, o chão do banheiro e a banheira mostram a intimidade da relação com o alimento. Uma relação que acalma e afaga, mas também envergonha e desmoraliza.

Obra:  Refuge

Impossível olhar para as pinturas e não relembrar as vezes que eu sentei no banheiro para comer bombons escondida dos meus familiares. Havia todo um cuidado para que ninguém ouvisse o bombom sendo desembrulhado e um cuidado ainda maior para esconder as provas do que eu havia comido. As embalagens eram camufladas em papel higiênico e ficavam no cesto de lixo sem dar nenhuma pista do que havia acontecido.

Obra:  Ice Cream II

Eu fiquei impressionada com a capacidade da artista de traduzir esse comportamento em obras de artes de uma maneira tão verdadeira. Ela não apenas expõe o ato de comer compulsivamente, como também toca em questões que me sensibilizam demais por terem feito parte da minha história.

Obra:  Snack

Obra: Snack

Em uma entrevista, Lee Price explicou que os autoretratos são feitos como se ela estivesse se observando enquanto come. “É o sujeito que olha para si mesmo, observando-se durante o comportamento compulsivo, completamente ciente do que está fazendo, mas incapaz de parar.”.

Exatamente. É exatamente isso o que acontece. Por mais que eu sentisse que estava em algum tipo de transe durante a comilança, uma parte de mim se mantinha consciente para me observar com descrédito e desgosto. E essa era a parte que me relembrava minutos mais tarde do fracasso que eu era em ter comido mais do que devia.

Aquela vergonha, a sensação de descontrole, mas principalmente a maneira desgostosa que nos observamos enquanto estamos comendo é impressa nas pinturas a óleo de uma forma que eu jamais havia visto.

obra:  Full

obra: Full

A solidão, o sentimento de liberdade que sentimos, o aconchego da privacidade, a paz momentânea e a rebeldia contra um mundo que nos obriga a ser de determinada forma podem ser sentidos vibrando nas obras.

O trabalho de Lee Price é para intrigar, para levantar discussões e para confortar quem passa por isso. Um verdadeiro banquete para encher os olhos de estômagos que nunca se saciam.