Você também compara o que come com o que os outros comem?

Eu como, tu comes, ela come, nós comemos. E comparamos!

Eu vou dividir algo com vocês muito pessoal e que me tirou o prazer à mesa por um bom tempo. Algo que muitas de nós fazemos de forma tão automática, que nem sequer nos damos conta - comparar o que comemos com o que outras pessoas ao nosso redor estão comendo. Será que sou a única?

Quando eu era mais nova, eu nem ligava muito para isso, mas ao começar a fazer dietas, adquiri um hábito que me custou anos de encanação. Eu passei a reparar o que as minhas amigas, familiares e colegas de trabalho colocavam no prato, e usava isto como parâmetro para avaliar o que eu estava comendo. Isso foi bem antes do advento do Instagram, food bloggers, foodies, e toda essa movimentação ao redor da comida.

No começo, eu achava completamente normal estar interessada no que os outros comiam ou deixavam de comer. Mas depois de um tempo, o meu inocente interesse começou a se transformar em avaliações e julgamentos sem fundamento algum. Eu avaliava o que os outros comiam, como comiam e quando comiam, e estendia a avaliação ao meu próprio prato: será que eu estava comendo demais? Será que os outros estavam comendo demais? Ou de menos?

Parecia que todo mundo estava comendo tão pouco!

Eu ainda me lembro de voltar para a casa depois de um jantar na casa de uma amiga me sentindo uma porca. Como é que eu conseguia comer tanto e ela tão pouco? Durante o jantar, eu havia enchido o meu prato de delícias e estava amando tudo aquilo, sem saber que a minha alegria estaria prestes a acabar. Depois de uma garfada, a minha amiga acomodou elegantemente os tallheres ao lado do prato, e reclamou estar satisfeita. Eu, que já estava planejando repetir o prato, até perdi a coragem de comer, mesmo ainda com o estômago metade preenchido e metade gritando por mais.

No caminho de volta para casa, ao invés de repensar o que havíamos conversado no jantar, eu fui me criticando por ter comido demais, por não ter sido educada em deixar um pouco de comida no prato (nem que fosse para fazer charme), por ser gorda, grande e gulosa. Eu estava com fome e continuei comendo até limpar o prato, e depois veio a sobremesa, e depois ainda tomei chá para acalmar a metade do estômago entristecida por não ter recebido a devida atenção.

Ela comia pouco e era magra. Eu comia muito e era gorda. Simples assim. O mundo parecia cruel e meu estômago desregulado.

Meses mais tarde, conversando com esta mesma amiga, falei das dificuldades que eu estava enfrentando ao tentar mudar os meus hábitos alimentares, falei da minha compulsão e da relação que eu tinha com o meu corpo - era o começo da minha jornada rumo a uma vida sem encanações. Foi quando eu descobri que eu não era a única: ela também achava que comia demais, ela também ficava comparando o que ela comia com o que os outros comiam, e ela também se sentia enorme por conta disso. Ela contou que comia escondido do marido antes da hora do jantar, para que conseguisse comer menos do que ele comia sem passar fome antes de ir para cama.

Ao ouvir a versão dela da história, ao invés de ficar aliviada, eu fiquei preocupada em saber que eu não era a única . Afinal, quantas de nós deixamos de comer para diminuir a culpa que sentimos em ter fome? Quantas de nós comemos escondidas temendo a represália alheia?

Com toda a minha curiosidade sobre o assunto, comecei a perguntar a todos amigos e conhecidos se eles também comparavam o que comiam com o que outras pessoas estavam comendo. Eu queria saber, mesmo partindo do meu universo limitado, se isso era comum, se era coisa de brasileiro, se era coisa de mulher ou se era coisa da minha cabeça.

Na minha pesquisa informal, eu descobri que comparar o que você come com o que os outros comem não é coisa da minha cabeça e, com certeza, não é privilégio dos brasileiros - todas as minhas amigas e conhecidas gringas também o fazem. Mas o mais curioso foi não ter encontrado nenhum homem que o fizesse. Será que a comparação alimentar seria coisa de mulher? Já que precisamos tanto de dados estatísticos, fica aí a dica para a próxima pesquisa científica. Eu estou curiosa para saber os resultados.

Mas enquanto a pesquisa não é feita e divulgada, há muito que podemos discutir por aqui. Se você também se frustra comparando a sua comida com a dos demais, no próximo post eu vou dar dicas de como se livrar deste mal. Até lá!

 

Ser gorda e a relação entre mãe e filha

A relação entre mãe e filha tem muito a dizer sobre a nossa relação com a comida

Eu cresci em uma família onde comida estava ao redor de todo e qualquer acontecimento. Era com comida que a gente celebrava e era com comida que a gente se amava. Era com comida que a gente chorava e era com comida que a gente se frustrava.

Com mamãe cozinhando divinamente, a união da família era certa. Era ela quem colocava todas as peças do quebra-cabeça familiar juntos à mesa, e todas as diferenças eram dissolvidas em um prato de frango ensopado. O cheio do coentro borbulhando no caldo cor de caramelo de mamãe ainda me lembra o amor.

Foi de mamãe que recebi o primeiro alimento, o primeiro carinho, o primeiro afago. Foi ela quem secou minhas lágrimas e me ensinou muito do que eu hoje sei. Foi ela quem trabalhou duro para assegurar que a minha vida fosse a mais confortável possível e foi com ela que eu descobri as maravilhas da cozinha.

Para nós, mulheres, o papel da mãe nas nossas vidas é muito mais determinante do que acreditamos. A mãe é o nosso primeiro modelo de mulher, é a nossa introdução ao mundo feminino. O trabalho dela é ser a nossa fortaleza, nos protegendo e garantindo que creçamos em um mundo seguro e confiável. Trabalho duro, eu sei, mas é isso o que se espera de uma mãe ideal.

Bem, o que esquecemos muitas vezes é que a "mãe ideal" é um conceito tão irreal quanto a "mulher ideal" ou o "corpo ideal". Aliás, todo conceito que envolve a palavra “ideal” deveria ser considerado uma farsa, um conjunto rígido de idéias que nos aprisionam e nos distanciam de sermos quem realmente somos. E com as mães não é diferente; antes de serem mães, elas são humanas, são mulheres e são errantes. Mas nós ainda queremos acreditar que mãe é um ser à parte, uma categoria diferente de ser humano que adquiriu de maneira misteriosa aspectos divinos ao nos dar à luz.

Crédito: Julie Nicholls

A realidade é que elas também tiveram que enfrentar as dificuldades que ainda enfrentamos em ser mulher. Há grande chance de que elas também tiveram que andar com cuidado, falar com cuidado e se portar com cuidado para que fossem aceitas. Elas tiveram sonhos que se realizaram ou não, elas se decepcionaram, abriram mão de algumas coisas e conquistaram outras, e foram mães.

A vida não parou quando essas mulheres se tornaram mães, elas tiveram que continuar sendo esposas, companheiras, empregadas ou empregadoras, filhas, irmãs, colegas e vizinhas. Ser mãe foi apenas um dos muitos papéis que elas exerceram, e não houve nenhum manual pronto entregue na maternidade explicando como nos criar. Elas tentaram da melhor maneira que puderam, com todas as ferramentas que tinham e, meio que acertando e errando, aqui estamos.

O resultado do erro e acerto é que muitas relações entre mães e filhas podem ser um tanto conflitantes, envolvendo culpa, dependência, inveja ou aversão. O comer compulsivo ou o excesso de peso podem ser uma resposta à opressão que sentimos vivendo em uma cultura sexista, como eu já havia escrito aqui, ou uma maneira de dizer não às investidas masculinas, como explicado aqui, mas muitas vezes a causa está na relação complexa existente entre mães e filhas.

Crédito: Monica Blatton

O meu objetivo aqui não é procurar culpado para a nossa relação muitas vezes conturbada com a comida, longe disso! O meu objetivo é relatar que o fato de você temer a comida ou a balança tem pouco a ver com a dieta, e muito mais a ver com a maneira como você se relaciona com as pessoas, com o mundo e com você mesma. E a relação com a sua mãe é parte fundamental desta equação.

Talvez a sua mãe tenha sido uma criança e uma adolescente feliz, com abertura para expressar o que ela pensava e sentia. Talvez ela tenha sido ouvida, entendida e estimulada a atingir o potencial máximo dela como ser humano e como mulher, mas talvez não.

Não podemos esquecer que as nossas mães também são mulheres assim como nós. Mulheres que seguiram ou seguem dietas, que tentam ou já tentaram transformar o corpo de alguma maneira, que olham no espelho e têm dificuldade de aceitar o envelhecimento, que leem revistas e livros buscando ser melhores: melhor mãe, melhor mulher, melhor profissional, melhor amante, melhor cozinheira. Elas também foram e ainda são bombardeadas com especialistas as dizendo o que fazer, como fazer e quando fazer. E tudo ao redor só enfatiza o quanto elas são inadequadas.

Crédito: Joana Carvalho

Se você está se perguntando porque eu não estou citando os pais aqui, eu explico: como ainda vivemos em uma sociedade patriarcal, você provavelmente foi alimentada pela sua mãe e não pelo seu pai. Foi dela que você recebeu o primeiro alimento, e foi com ela que você aprendeu a comer. Foi olhando os hábitos alimentares dela que você foi desenvolvendo os seus. De uma maneira ou de outra, a sua mãe influenciou a forma como você vê o alimento hoje.

A psicanalista e escritora Susie Olbach, autora do livro “Gordura é uma questão feminista” descreve:

“A compulsão alimentar se torna um meio de expressar os dois lados do conflito. Ao comer em excesso, a filha pode estar tentando rejeitar o papel da mãe e, ao mesmo tempo, estar lhe censurando pela criação deficiente que recebeu; ou ela pode estar tentando manter um sentimento de identidade com a mãe”.

Crédito: Amanda Olson

Quando a minha mãe relata o convívio que ela tinha com a minha avó, eu consigo visualizá-las na cozinha conversando enquanto cozinhavam, e cozinhando enquanto conversavam. E foi com toda essa paixão e entusiasmo na cozinha, que mamãe me educou. As minhas recordações da infância remetem aos domingos passados ao lado do fogão, preparando doces e salgados, descobrindo novas receitas, saboreando, comentando sobre o cheiro e as texturas, e nos amando.

Era assim que comunicávamos, e isso vai estar sempre guardado em mim. Hoje, consciente disso, consigo disassociar a comida do sentimento, e olhar com carinho para o meu passado, sabendo que

Comer e amar são verbos diferentes e devem ser conjugados separadamente.

 

O que comer no café da manhã?

Se você também está perdida no meio de tanta informação, vem comigo!

Houve um tempo em que tomar café da manhã era uma tarefa simples: eu acordava, buscava pão na padaria, esquentava o leite, coava o café e a minha refeição já estava pronta. Era pão, manteiga, café com leite e, de vez em quando, frutas. Bem simples, bem básico e todo o dia a mesma coisa. Naquela época, eu nem sequer sabia o que era um carboidrato.

Até que eu resolvi perder uns quilinhos, e a nutricionista me recomendou substituir o leite comum pelo leite desnatado, e manteiga pela margarina light. Melhor ainda seria substituir a margarina por requeijão light ou queijo branco. O café deveria ser adoçado com adoçante, e eu sempre deveria consumir uma fruta, de preferência mamão. De repente, o meu café com leite ficou aguado, eu já não tinha mais a cremosidade da manteiga e o mamão, fora de época, só ajudava a amargar a minha experiência. Ainda bem que eu podia contar com o pão quentinho para derreter a margarina light insossa.

Eu ainda não sabia, mas em pouco tempo o meu pãozinho ganharia fama de vilão por conter muito sódio e poucas fibras e, assim, o último vestígio de um café da manhã tradicional paulista estaria banido completamente da minha alimentação. Estava aberta a temporada dos pães de forma industrializados integrais, sete grãos, nove grãos, light, e, acredite se quiser, zero! E o meu café da manhã perdeu completamente o gosto. Ficou aguado, sem a crocância do pão, sem sabores marcantes, sem gordura e sem sentido.

O leite, que não tinha mais gosto de leite, e o pão, que não tinha mais cheiro de pão, continuaram preenchendo o meu estômago todas as manhãs, até que eu li que cereais integrais eram ainda mais saudáveis que pão de forma. Não tive dúvidas e corri comprar os flocos de milho integrais no supermercado. Depois divulgaram a granola, e ainda teve a ração humana estampado a capa das revistas de dieta como o novo milagre alimentício.

Quando tudo parecia tranquilo, surgiram grupos defendendo que o leite de vaca não é saudável para humanos, e que deveríamos parar de consumí-lo. Lá se foi o meu leite aguado pelo ralo abaixo e, no lugar dele, enchi o armário de leite de soja. Quando estudos revelaram que o consumo de leite de soja poderia alterar o funcionamento da tireóide, comecei a me sentir um pouco perdida, sem opções. E daí surgiu o suco verde para me salvar da confusão.

Sentar à mesa já não era mais necessário com o suco verde, eu havia substituído comer uma refeição por tomar uma refeição - o que era bem estranho - mas o que é que a gente não faz pela saúde, não é mesmo? O problema é que depois de uma hora eu já estava de estômago roncando novamente. Eu não podia acreditar que a minha “refeição principal” do dia tinha sido reduzida a um copo!

Eu havia desaprendido a me alimentar, estava perdida, exausta de tanto procurar e ler sobre alimentação saudável e, sem me dar conta, o Google virou a minha mãe me dizendo o que e quando eu deveria comer. Isto tinha que parar. Eu estava dando ouvidos a todo mundo, mas esquecendo de ouvir o meu próprio corpo.

Crédito: aussiegall

Depois da campanha contra a cafeína, agora parece que o café voltou a ser saudável, e lembra do suco verde? Esquece. Se for feito com algumas frutas muito doce, como banana ou manga, vira uma bomba de carboidrato, segundo especialistas. Parece que agora bom mesmo é tomar café com óleo de coco, comer ovos, carnes, castanhas, e até alguns tipos de legumes e frutas, mas não todas! Tem também a opção de comer uma quantidade ilimitada de alimentos crus no café da manhã, pode até ser uma dúzia de bananas. Hum, parece promissor! Mas tem que ser apenas alimentos crus o dia inteirinho. Bem, com excessão de não precisar mais limpar o fogão, não vi maiores vantagens nessa dieta. E depois te tanto procurar alternativas, eu finalmente encontrei a resposta

Quer saber o que eu aprendi com tantas tentativas, leituras, visitas a profissionais e com a internet? Muita, mas muita coisa. E todo o conhecimento foi muito válido. Eu aprendi sobre macro e micronutrientes, que trocar manteiga por margarina light pode reduzir as calorias, mas aumenta significativamente a quantidade de aditivos químicos ingeridos. Eu aprendi que o pão integral industrializado tem uma lista tão gigante de ingredientes que seria melhor pararmos de chamá-lo de pão. Eu aprendi muitas receitas maravilhosas com todas as dietas, filosofias e estilos de alimentação que existem: raw, veganismo, paleo, ayurvedica, e muitas outras. Mas a minha maior lição foi aprender o que é melhor para mim.

O café da manhã ideal para você é você quem decide.

Crédito: Linh Nguyen

Vale a pena experimentar de tudo um pouco, passar com um nutricionista, ler bastante; mas no final, o mais importante é prestar atenção em como o nosso corpo e mente reagem a determinados alimentos. Ovos com bacon são deliciosos para algumas pessoas, mas são vilões para outras. Pão na chapa é proibido para muitos, mas é o café da manhã preferido de outros.

Tanto a nutrição quanto a medicina estão descobrindo novas verdades e mitos sobre a alimentação todos os dias, e estamos todos perdidos. A verdade de hoje pode virar o mito de amanhã: quem não conhece a história do ovo, de vilão a mocinho em uma década? Também não podemos esquecer que muitos estudos científicos são financiados pela indústria alimentícia ou pela indústria farmacêutica e, por isso, revelam evidências mais convenientes ao interesse dessas indústrias, então vale a pena um olhar mais crítico em relação às novidades do mercado da saúde.

O café da manhã mais saudável é aquele que te dá prazer e disposição para começar o dia com entusiasmo e energia. É aquele que não te estressa e que não estressa o seu corpo. Se é com chia ou sem lactose, é você quem decide.

Cada dia que vivemos é único. Nós somos únicos. Então por que padronizar o café da manhã?