A nossa necessidade de agradar os outros

Ontem durante o almoço com algumas colegas comentei o quanto havia gostado da minha adolescência. A maioria franziu a testa. Era óbvio que nem todos ali tinham vivido o paraíso que vivi, mas todos haviam sentido o que eu senti, aquela certeza adolescente de que tudo é possível e a excitação de ter um futuro pela frente que seria escrito pela pessoa mais especial do mundo, eu.

Quando revisito a minha adolescência como um paraíso não é com a ilusão de que tudo era perfeito porque a realidade foi longe disso. Os meus pais, como muitos outros pais, tentaram me manter em casa e na igreja de todas as maneiras, mas eu queria ver o mundo. Eu passei a adolescência estudando em duas escolas e viajando 4,5 horas por dia em ônibus e metrôs para ter acesso à educação que eu queria. Eu desobedeci meus pais e os entristeci profundamente ao parar de frequentar a igreja e foi a custo de muitas brigas, discussões e choros que eu consegui ser eu.

Cada rosto de desapontamento da minha família valeu a pena. Era o preço que eu tinha que pagar para ser quem eu sou. Aquela fase com todas as dificuldades foi o meu paraíso porque eu aproveitei cada dia, mesmo os dias ruins.

Mas a fase adulta chegou e como ela veio o medo. O medo de desapontar pessoas que conhecemos e até desconhecidos, medo de ser criticada, medo de não ser aceita e acabar sozinha, medo de falar o que pensamos, medo de errar.

Este medo chega porque de repente nos damos conta de que tudo o que fazemos ou falamos tem consequência, e para nos proteger do pior paramos. Paramos de tentar, de arriscar, de nos expressar, de errar.

Mas o conforto de ser aceita por todos também vem com um preço. Imagine se a sua própria opinião tivesse mais importância para você do que a opinião dos demais? O que você seria, quem você seria?

Autoconfiança é algo que vamos construindo aos poucos, todos os dias. A cada medo que ignoramos e seguimos em frente é um passo mais perto de nos tornamos a nossa melhor versão.

É impossível silenciar tantas vozes te dizendo quem você deve ser. Mas é possível aumentar o volume da sua voz interior para que ela fale mais alto.

Viva o seu paraíso. Com dias bons e ruins, mas um paraíso.

Até onde a Nutrição nos ajuda?

Quando sentei pela primeira vez na terapia de grupo que fazia parte do meu tratamento contra Bulimia eu esperava ver um nutricionista ali. A intenção da primeira fase do tratamento era normalizar a alimentação, então a presença do nutricionista me pareceu lógica, mas não era.

Eu estava ali sentada com a minha Bulimia frente a uma terapeuta e uma especialista por experiência em Transtornos Alimentares. Aquelas duas mulheres é que iriam me ajudar a construir uma relação saudável com o alimento.

Naquele ponto do meu TA o meu conhecimento de Nutrição era bem avançado. Eu entendia sobre enzimas e reações químicas que aconteciam no cérebro quando comemos um pedaço de bolo, eu sabia os males do excesso de açúcar, o perigo de consumir conservantes, espessantes e estabilizantes encontrados nos produtos industrializados. Eu sabia da oxidação dos óleos sujeitos a altas temperaturas, as calorias, os macros e micronutrientes, as combinações ideais de alimentos. Eu não compreendia o que a terapeuta tinha a me ensinar já que a minha dieta era super saudável e “limpa” como eles costumam dizer.

Foi durante o tratamento que eu descobri que eu precisava desaprender tudo o que sabia sobre Nutrição para curar o meu transtorno. Todos os meus conceitos de saudável precisavam ser abandonados.

O açúcar voltou a fazer parte da minha rotina, alimentos processados foram lentamente reintroduzidos, e frituras passaram a ser consideradas parte de um estilo saudável de vida sem transtorno alimentar.

Agora tente me imaginar ali reaprendendo a comer tudo o que sabia que não era considerado saudável. Tente imaginar a confusão na minha cabeça em aceitar que para ficar saudável eu tinha que aprender a comer alimentos não saudáveis. Que era esta divisão entre alimentos bons e ruins ajudava a manter o meu transtorno alimentar.

Eu queria me curar mais do que tudo, mas demorou meses para eu entender porque a terapeuta ignorava todos os meus argumentos nutricionais para evitar um determinado alimento. Ela ignorava aumento do risco de câncer, excesso de calorias, doenças cardíacas e aditivos químicos porque eu tinha algo mais urgente para ser tratado.

A Nutrição é uma ciência maravilhosa, novinha, que vem nos ensinando a todos profissionais ou não. Estamos juntos neste barco de incerteza do que comer ou deixar de comer, mas uma das lições mais importantes que aprendi na minha recuperação foi que esta confusão também nos adoece.

Eu sei, tem obesidade de um lado e tem doenças nascendo por conta do que comemos, mas também há outras nascendo por conta do que deixamos de comer, como alguns transtornos alimentares.

Se você tem algum transtorno alimentar leve isso em consideração. Feche a porta para os burburinhos nutricionais do que é bom ou ruim até que você se sinta mais forte. Nada é mais importante do que a sua saúde física e mental.

O que as redes socias fazem com o amor-próprio

Quando eu era pequena a minha alegria era comprar a revista Boa Forma do mês com a minha irmã para saber as últimas novidades da nutrição, as novas dietas, os tratamentos estéticos e cremes, e para ver fotos inspiradoras das famosas. Tinha até uma sessão no fim da revista contando a história de superação de uma leitora que havia emagrecido.

Aquilo era uma dose de motivação extra, um lembrete mensal de que eu precisava para dar jeito na minha vida e cuidar do meu corpo. A revista me dava a esperança de poder emagrecer e ser feliz como aquela leitora.

Redes Sociais e o amor-próprio

Hoje eu não preciso esperar pela Boa Forma uma vez por mês para me motivar, eu abro o Instagram e tenho acesso ao dia-a-dia de milhares de mulheres com corpos incríveis e definidos. Elas dividem dicas, alimentação, exercícios, rotinas, acontecimentos, tudo para estarmos por dentro de como é a vida de alguém com o corpo assim.

Eu até compreendo a nossa fascinação por acompanhar a vida do outro, não é por nada o sucesso dos realities shows e vlogs, mas porque será que continuamos seguindo pessoas ou perfis que nos fazem sentir mal em ter o corpo que temos ou viver da forma como vivemos?

Com a revista eu não aprendia apenas novas dietas. Havia dicas de como deixar os pés macios durante o verão, como clarear as axilas e virilhas, como manter as cutículas hidratadas. Enfim, dicas de como resolver imperfeições que eu nem sabia que eram imperfeições até ler a matéria.

Eu aprendia a procurar defeitos para consertar em mim.

Com as redes sociais é a mesma coisa. Intencionalmente ou não muitos muitos perfis estão aí para te relembrar os seus defeitos que precisam ser consertados.

Nós continuamos a aprender diariamente como viver insatisfeitas com o que somos e temos

O que sentimos é resultado do que pensamos, e o que pensamos é resultado das informações que consumimos diariamente. Como é que podemos nos sentir bem se o que estamos consumindo nos faz sentir mal?

Precisamos literalmente olhar criticamente para a informação que consumimos. Isso é tão importante quanto o alimento que consumimos.

Pare para avaliar se aquele perfil, site, blog, canal tem te ajudado ou te atrapalhado. Faça isso por você.

Qual caminho seguir?

Já faz algum tempo que venho refletindo sobre o Brigadeiro de Alface e a necessidade crescente de fechar algumas portas para que outras continuem abertas.

Para identificar melhor o que estou sentindo decido parar por algumas horas. E é aqui, sentada na sala de estar dos meus sogros, que encontro a resposta. A fonte da minha inquietação é a responsabilidade que eu sinto em relação a cada uma de vocês, em trazer conteúdo que ajude vocês de alguma forma.

Por sentir essa responsabilidade eu sou cuidadosa em dividir certas informações que seriam muito valiosas para um grupo de leitoras, mas que não seria tão construtivo para um outro grupo. De um lado eu tenho muitas leitoras com um transtorno alimentar e de outro tenho leitoras que comem de maneira transtornada.

Transtorno alimentar e comer transtornado não são a mesma coisa.

Eu, minhas caras, sofri com ambos. Para quem já acompanha a minha história sabe que eu me recuperei da Bulimia com episódios sérios de compulsão alimentar. Mas também já estive bem acima do peso com uma relação complicadíssima com o alimento e com meu corpo. Eu entendo os dois mundos porque eu já vivi nos dois mundos.

Apesar de terem muito em comum, o transtorno alimentar é algo que precisa ser tratado por um ou mais profissionais especializados já que o problema não é a alimentação apenas. Uma ajuda psicológica ou psiquiátrica é fundamental para acompanhar na recuperação.

Para quem tem TA, mesmo estando obesa, o foco do tratamento não deve ser o emagrecimento. Falar sobre peso, calorias, emagrecimento ou alimentação “saudável” são tópicos que podem funcionar como um gatilho atrapalha na recuperação.

Já para quem come transtornado conversar sobre esses tópicos pode ser revelador e educativo. Comer transtornado, comer emocionalmente, comer em excesso é algo que está ficando cada vez mais corriqueiro e acho muito importante a gente quebrar o tabu aqui e falar que o problema não é simplesmente o que estamos comendo.

Eu sinto que está chegando o momento em que o blog estará mais focado em um desses grupos para não confundir ninguém e para que eu possa ajudar vocês da melhor maneira possível. Ainda não sei. Ainda não tenho a resposta, mas sinto que mudanças estão por vir.