Porque alimento funcional não funciona

Eis o meu problema com o termo funcional

Há tempos tenho visto pela internet a palavra “funcional” sendo usada para descrever qualquer coisa que, supostamente, faça bem para a saúde e para o corpo. Essa palavra tem sido usada tão frequentemente, que não deixa dúvidas ser a nova queridinha do mundo fitness e da indústria alimentícia. Usar o termo funcional para descrever algo realmente funciona, e parece que está todo mundo lutando por uma fatia desse mercado lucrativo.

Hoje, já dá para encontrar disponível todo tipo de alimento funcional nas gôndolas de supermercados e lojas de produtos naturais. Eles prometem nos prevenir de doenças, envelhecimento e depressão, e a gente, é claro, adora isso! Quando ouvimos sobre algo que pode nos ajudar a ter saúde e vida longa já queremos experimentar. Assim como qualquer animal, buscamos a sobrevivência a qualquer preço e os “funcionais” surgem como um novopasso rumo à eternidade.

Mas o que são exatamente os alimentos funcionais? Seriam alimentos que funcionam?

Lá no site do Ministério da Saúde, eles descrevem os alimentos funcionais como:

“alimentos ou ingredientes que produzem efeitos benéficos à saúde, além de suas funções nutricionais básicas (...), podendo desempenhar um papel potencialmente benéfico na redução do risco de doenças crônicas degenerativas, como câncer e diabetes, dentre outras.”

Se alguns alimentos são funcionais e produzem efeitos benéficos à saúde, o que seria dos demais alimentos que não recebem esse título de honra? Será que eles não são tão benéficos à saúde? Será que eles não funcionam?

 
o que comer para emagrecer
 

Hipócrates foi o primeiro que, há 2500 anos atrás, falou sobre a relação entre o alimento e a cura de doenças. Ele afirmava que podíamos nos curar nos alimentando adequadamente e dele veio a famosa citação “que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio". Mas o conceito de alimento funcional só foi surgir no Japão nos anos 80, ganhando popularidade nos EUA na década de 90. Foi uma questão de tempo até que a indústria alimentícia no Brasil pressionasse a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para poder produzir e comercializar alimentos industrializados que alegavam ser funcionais. O resultado disso, é que um iogurte com lactobacilos  pode ser vendido hoje como funcional, independente dos aditivos alimentares (químicos) que contenha.

 
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O primeiro alimento funcional aprovado pela Anvisa foi o creme vegetal Becel Pro-activ, em 2000. Pela primeira vez na história, um pote de margarina prometia diminuir o colesterol das pessoas. O investimento da Unilever foi tão grande no lançamento da margarina, que eles até compraram uma pauta na revista Veja divulgando a Becel como remédio. Não é brincadeira não, foi divulgado como remédio mesmo.

Propaganda da Becel publicada na revista  Veja .

Propaganda da Becel publicada na revista Veja.

Há pouco tempo, a Vigor lançou o iogurte Lactive Light, que também é considerado um alimento funcional pela Anvisa por conter probióticos na sua formulação. A ironia é que a mesma formulação milagrosa para a nossa flora intestinal também contém ciclamato de sódio, um adoçante artificial polêmico banido em muitos países (inclusive nos EUA) por ter efeitos cancerígenos em animais, além de outras complicações.

Um dos produtos funcionais da  Vigor .

Um dos produtos funcionais da Vigor.

A verdade é que todo alimento natural (aquele que não foi processado industrialmente e que pode ser encontrado na feira) poderia ser considerado “funcional” por também produzir efeitos benéficos à saúde, mas o que acontece não é bem assim.

 
Alimento Funcional
 

A Anvisa define se um alimento ou ingrediente é funcional com base nas evidências científicas que, muitas vezes, são apresentadas pela própria indústria alimentícia. Só para exemplificar isso, para lançar a Becel Pro-activ, a Unilever financiou um estudo na Universidade de São Paulo com 60 pacientes que consumiram diariamente uma colher de sopa da margarina durante um mês. Os mesmos pacientes tiveram que aliar o consumo da margarina a uma dieta pobre em gorduras e, ao final do mês, tiveram uma diminuição de cerca de 10% da quantidade de LDL. Bem, é óbvio que se alguém consumir menos gordura conseguirá baixar o colesterol. Não seria necessário então ter que acrescentar margarina na alimentação para descobrir isso, não é mesmo? Bem, acredite ou não, este estudo nos faz acreditar até hoje que Becel é boa para o coração. Esse é o poder que a indústria alimentícia tem sobre a nossa saúde.

 
A verdadeira função do alimento funcional
 

O termo funcional soa saudável e eficiente. Todo mundo já percebeu que basta associá-lo a um produto ou serviço para ganhar mais credibilidade no mercado e nos fazer acreditar que funcionam melhor. No entanto, o alimento funcional não é o único que carrega esse status, há também o treino funcional, a corrida funcional, o cardápio funcional, a dieta funcional, a nutrição funcional e o tratamento funcional. Acho que também vou entrar nessa e lançar o Brigadeiro de Alface Funcional, o que acham?

Eu até entendo a banalização do termo, até porque o conceito funcional em si já é banal. Todo alimento tem uma função, oras. A indústria alimentícia só está aproveitando a onda para comercializar produtos industrializados como se fossem saudáveis.

Fique ligada, a única função do (o que quer que seja) funcional é financeira. Se o seu foco é saúde, dê preferência aos alimentos não industrializados com a certeza que você estará consumindo um alimento funcional aprovado pela mãe natureza.

Na dúvida, escolha o alimento natural.

Concentre sua energia em pessoas que te façam sentir bem

Sobre amizade, anjos e demônios

No final da minha viagem, eu finalmente comecei a ler o tão aclamado livro Comer, Rezar, Amar, da Elizabeth Gilbert. É, eu sei que estou um tanto atrasada para fazer alguma avaliação sobre um livro que todo mundo já leu, mas a minha intenção aqui é outra. A minha conversa hoje é sobre amizade.

Em 2010, eu recebi o livro Comprometida da mesma autora como presente de Natal do Matt, o que nos ajudou demais a dar forma ao casamento que temos hoje, com muita comunicação e respeito à liberdade do outro. Desde então, sempre nos referimos à Elizabeth Gilbert com o maior carinho e respeito aqui em casa, mas por alguma razão desconhecida, eu ainda não havia lido o livro mais famoso dela, o que felizmente foi corrigido na nossa lua de mel.

Engraçado como encontramos respostas aos nossos dilemas nos lugares mais incomuns. No meu dilema sobre uma amizade em particular, eu encontrei a resposta no livro Comer, Rezar, Amar - um livro para pessoas que procuram respostas a outros tipos de dilemas - mas tudo bem, o importante foi que eu encontrei e estou me sentindo muito menos culpada pela decisão tomada.

Eu decidi ser mais seletiva com as pessoas a quem eu dedico o meu tempo e a minha atenção, e esta foi uma das decisões mais difíceis que eu já tomei. Por alguns meses, eu tenho me sentido uma egoísta pretenciosa por me achar boa demais para selecionar as minhas amizades. Afinal, eu sempre acreditei que temos que estar de coração aberto a todos e amar ao próximo como amamos a nós mesmos e, de repente, aqui estou trancando o meu coração e decidida a entregar a chave apenas aos merecedores.

Há alguns anos, tenho sido amiga de alguém com quem divido boa parte das minhas experiências e sonhos, mas já faz dois anos que eu comecei a duvidar dos benefícios dessa amizade para o meu bem-estar mental, e só agora estou tomando coragem de por um fim nisso para o bem de todos e, principalmente, para o meu próprio bem. E por "fim" não entenda como um fim oficial. Melhor salvar as energias de um final dramático para fazer algo mais produtivo. Eu só estou abrindo mão dos esforços necessários para manter uma amizade viva e estou decidida a fazer isso sem nenhum remorso.

O problema até então era que eu não conseguia arrumar as palavras certas para explicar o porquê do afastamento de alguém que já foi tão querida na minha vida. E, como resultado, eu continuei levando a relação adiante para não me sentir tão ruim comigo mesma.

Depois de meses lidando com o dilema de uma amizade sem sucesso, eu li um trecho no livro que, finalmente, de uma maneira simplista, tirou o peso dos meus ombros e me fez ver as relações a partir de uma nova perspectiva. A autora cita a experiência de Santo Antônio em seu retiro no deserto, quando foi acometido por visões de anjos e demônios. Nas suas visões, alguns demônios se pareciam com anjos e alguns anjos se pareciam com demônios. É claro que todos, inclusive eu, ficaram intrigados em saber como é que ele conseguia diferenciar um do outro.

Minha amiga é sempre tão gentil e educada, tão admirável em sua elegância e bom gosto, que nenhum motivo parecia suficiente para me afastar de tanto encantamento. Ela era um anjo.

Santo Antônio então respondeu que só se pode saber quem é quem com base na sensação que fica depois que ele foi embora. Se você ficar arrasado, então foi um demônio que veio visitá-lo, se você se sentir mais leve, foi um anjo.

E assim, sem pensar demais nos meus porquês, eu simplesmente lembrei da sensação estranha que fica depois que nos encontramos, do mal estar provocado pelos comentários ácidos dela pronunciados com um sorriso anestesiante, e do meu sentimento de inadequação quando eu me empolgo sendo eu mesma. Ela não me faz bem. E a maior prova disso é que quando ela vai embora, eu fico arrasada.

Amizades vêm e vão, e se você tiver muita sorte terá um ou alguns poucos amigos que ficarão para sempre. Por mais que pareça cruel, a verdade é que não podemos manter cada amigo que já fizemos ao longo da vida. Ninguém tem o tempo e energia para isso. Se você não escolher conscientemente em quais relações se focar, terá muito menos a oferecer a quem mais merece: aos anjos.

Guia de viagem para a comedora emocional (Parte 2)

… continuando o nosso guia de viagem

Há algo sobre estar de viagem que nos faz sentir como se pudéssemos comer e beber como se não houvesse amanhã. A festa já começa ao sairmos de casa: se vamos de carro, levamos junto salgadinhos, chocolate e biscoitos para os momentos de entediamento; se vamos de ônibus, usamos as paradas para ir ao banheiro e provarmos as gostosuras locais; se vamos de avião, as guloseimas nos ajudam a sobreviver entre uma refeição e outra.

Comer demais não é bom para ninguém. Depois do exagero nos sentimos desanimadas, inchadas e esgotadas fisicamente. Mas viver controlando o que comemos também não é bom. Esse controle faz com que passemos mais tempo pensando em comida do que em qualquer outro aspecto de nossas vidas.

Este guia é para te ajudar a encontrar o meio-termo dos dois extremos durante a sua viagem.

 
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Viaje com o corpo que você tem

Independente do tamanho do seu jeans, vá viajar. Não adie a viagem até que o seu corpo esteja “aceitável” para sair de férias. Isso é algo que estressa muitas mulheres que acabam adiando os planos porque não se sentem no direito de se divertirem com o corpo que têm.  Meses antes da viagem, elas já começam a controlar a alimentação e a investir na malhação para exibir um corpo digno de um biquíni.

Infelizmente, na maioria dos casos, o corpo de biquíni nunca chega. As chances de você ter um corpo de modelo sem ser modelo são mínimas, e as chances de você ter um corpo de blogueira fitness sem ser blogueira fitness também são mínimas. Então vá com o seu corpo, esse aí mesmo que você tem agora - não o de ontem, nem o de amanhã.

 
Comi demais na viagem
 

Pare de comparar o seu corpo aos demais corpos

Toda vez que você se pegar comparando o seu corpo ao de outras mulheres, pare! Não permita que esse pensamento crie raízes, procure razões e encontre culpados. Funciona mais ou menos assim:

“Olha que barriga linda ela tem. Quantas vezes por semana será que ela malha? Ela não deve comer carboidrato à noite... Olha só o meu bucho!”. Se isso passar pela sua cabeça, pare, tire os olhos dela, e comece a puxar assunto com quem está ao seu lado. Não permita que o seu pensamento continue destruindo a sua autoestima. Acredite, depois de um tempo exercitando a arte de parar de se comparar, você vai se tornar uma profissional no assunto.

 
como parar de comer
 

Seja seletiva na escolha das delícias

Quando estamos longe de casa qualquer comida parece exótica e saborosa. Quando a gente passa pelo sorvete do tiozinho da esquina todos os dias nem prestamos muita atenção, mas se o mesmo sorvete estiver sendo vendido em uma cidade desconhecida, nos sentimos na obrigação de prová-lo. Estamos convencidas de que se não provarmos o sorvete naquele minuto, estaremos perdendo uma grande oportunidade que, provavelmente, nunca mais teremos.

Se eu leio aquelas plaquinhas anunciando os produtos locais que usam as palavras mágicas “caseiro” ou “artesanal”, eu ficou doida. A minha boca já enche de água, a minha mente é  invadida por pensamentos nostálgicos e o meu corpo se enche de amor. Quando eu menos percebo, já estou caminhando alegremente com uma sacolinha forrada de delícias locais caseiras e artesanais, muitas das quais nem são tão saborosas assim.

Comer gostosuras faz parte de uma alimentação saudável e equilibrada, o segredo é não abusar na quantidade. Por isso, seja mais seletiva na escolha da sua delícia. Se é para comer algo gostoso que seja muito, mas muito gostoso. Vale a pena recusar batata frita no almoço, por exemplo, para pedir um crepe com doce de leite de sobremesa no jantar.

 
Dicas para emagrecer
 

Foque nas refeições principais

Para a comedora emocional, um dos grandes segredos é comer o suficiente nas refeições principais. Não estou falando de frango grelhado com salada apenas, mas sim de uma refeição que realmente satisfaça - a famosa comida com sustância. Se você comer bem durante as refeições, vai sentir que a vontade de beliscar entre uma refeição e outra diminui drasticamente, isso sem contar que um café da manhã caprichado vai te deixar menos ansiosa em torno de comida ao longo do dia.

Não esqueça de incluir frutas e verduras nas três refeições principais. Além de todos os benefícios nutricionais, você vai sentir mais disposição durante a viagem e vai ter menos chance de lidar com a famosa prisão de ventre de viajante. Bateu uma feijoada? Não esqueça da couve e da laranjinha depois. Quem sabe um escondidinho de charque? Não deixe de pedir uma salada fresquinha para acompanhar.

Ninguém precisa viver de salada ou whey para ter uma alimentação saudável. Ser saudável é achar o equilíbrio entre o brigadeiro e o alface.

Leia aqui a primeira parte do Guia de Viagem para a Comedora Emocional.

Guia de viagem para a comedora emocional (Parte 1)

Viagens, comidas e espelhos

Viajar é algo que desperta todos os tipos de emoções. É como compactar centenas de experiências de vida em alguns dias ou semanas sem pausa para descanso, e haja coração para lidar com tudo isso sem recorrer à comilança.

Tudo em viagem nos leva a pensar em comida. Parece que o mundo se reuniu para conspirar contra os seus planos de alimentação saudável e equilíbrada. Se você fica hospedada num hotel, é como se eles soubessem os alimentos que você não pode comer e, de maneira cruel, decidissem mesmo assim servi-los só para testar a sua força de vontade. Se você sai à rua, as vitrines das docerias e os cardápios de restaurantes começam a chamar o seu nome. Se você vai à praia, o cheiro de peixe crocante e o som da cerveja sendo aberta mesclam com a beleza do mar de uma forma tão perfeita, que te faz pensar que é impossível curtir a natureza sem ter algo saboroso em sua boca.

Quando viajamos, adotamos um ritmo completamente diferente. Normalmente, acordamos um pouco mais tarde adiando o café da manhã para próximo do almoço, pulamos o almoço, jantamos quantidades enormes e conseguimos passar o dia inteiro beliscando. Não tem jeito, viagem é isso mesmo. É tempo de nos libertamos de qualquer amarra, inclusive das amarras da comida.

Como nem tudo durante a viagem são flores, muitas vezes nos pegamos pensando mais na comida e nas nossas dobrinhas do que na viagem em si. E isto não é saudável para ninguém, independente do quanto você pese.

Este guia é para te ajudar a ter uma viagem inesquecível, sem encanações, sem comportamentos autodestrutivos e com muito prazer à mesa.

 
 

Não faça dieta antes de viajar

Essa eu tenho que colocar como a primeira e a mais importante dica de todas. Não faça dieta antes de viajar! Sério. Não faça mesmo. Eu sei que você está coberta das melhores intenções, mas fazer dieta vai despertar um lado seu durante a viagem que não é bonito.

Quando nos privamos de comer o que achamos gostoso, estamos exigindo do nosso cérebro um controle rígido imenso que só sobrevive com um planejamento bem-feito e rotina. Quando saímos de férias, a intenção maior é relaxar e saímos obrigatoriamente da rotina. Lembra do que acontece quando você se priva por um tempo e depois se libera para curtir as gostosuras por um dia? Você provavelmente come tudo o que tem direito, porque sabe que no dia seguinte vai ter que voltar à linha. É exatamente isso que acontece quando viajamos depois da dieta.

Comer pouco antes da viagem só vai resultar em excesso de comida durante a viagem. É a lei da compensação inversa. E os quilos perdidos voltam mais rápido do que foram.

 
viajar de dieta
 

Deixe o plano de emagrecimento em casa

Enquanto algumas se empolgam com as preparações para a viagem reservando espaço na mala para o biquíni novo, minissaia e acessórios legais de cabelo, outras se esforçam para achar roupas que as façam sentir confortáveis com o próprio corpo. Elas precisam encontrar uma bermuda longa suficiente para não assar as côxas, algumas roupas que sirvam e quiçá são bonitas, e um kit primeiro socorros para o caso extremo de assaduras.

Nos dois casos, há sempre espaço na bagagem dessas mulheres para levar um punhado de encanação e a promessa de não engordar na viagem. Algumas até arriscam levar roupas apertadas compradas para um futuro magro - vai que dá para emagrecer um pouco.

Esqueça das proibições, do plano de emagrecimento ou de qualquer promessa mirabolante. Quanto mais focada você estiver em não poder comer, mais vai querer comer e mais vai acabar comendo.

Leia aqui a continuação do Guia de Viagem para a Comedora Emocional.

 

Toda guerra deixa marcas

Até aquelas que lutamos diariamente contra nós mesmas

Eu voltei!!!

Depois de uma longa lua de mel na Croácia, eu finalmente estou de volta e me esforçando ao máximo para me acostumar à vida normal longe daquele paraíso azul. Só para esclarecer, eu não acabei de me casar. Na verdade, o meu casamento foi em 2012, mas adiei a lua de mel para 2014 porque todo ano acontecia algo mais importante do que a minha tão merecida viagem. Ela chegou e foi maravilhosa e foi azul. Tão fantástica que me fez duvidar da nacionalidade de Deus, seria ele brasileiro mesmo?

Cheguei e a primeira coisa que fiz foi começar a responder emails, mensagens e comentários que vocês deixam por aqui e que dão mais sentido ao meu dia. Obrigada a cada uma de vocês por isso. Mas um comentário em particular me fez pensar muito na Croácia. A leitora me perguntava como é que seria possível aceitar as marcas do corpo que surgem não porque a vida te deu, mas porque a compulsão alimentar mudou o seu corpo.

Todas ou quase todas as marcas que temos ou que vemos são indesejadas. Com exceção da pinta sexy da Marilyn Monroe ou da Cindy Crawford, são poucas as pessoas que valorizam sardas, pintas, manchas, estrias, vazinhos, celulite ou varizes. E há uma razão bem racional para isso: muitas dessas marcas são resultado de algo que deu “errado” no nosso corpo. E o erro vai desde circulação sanguínea deficiente, excesso de exposição solar, excesso de tecido adiposo, até rompimento das fibras elásticas da pele e excesso de peso. Eu não sei para você, mas para mim todas essas alterações no corpo soam um tanto negativas, isso sem contar com o fator estético.

Não podemos esquecer também que para cada marca no nosso corpo há um tratamento disponível no mercado. Não há uma marquinha sequer que não possa ser tratada. Bem, isso também soa bem negativo para mim. Se há tratamento para algo é porque algo não é bom, certo?

As marcas deixadas pelo consumo desenfreado de alimentos e por emagrecimentos seguidos de engordas são marcas deixadas pela vida como qualquer outra marca, mas por alguma razão aceitamos mais facilmente uma cicatriz de um acidente horrível do que as estrias dos últimos 20 quilos engordados. Acreditamos que os seios flácidos da amamentação têm mais direito de existir do que os seios flácidos de um emagrecimento bem sucedido. Envergonhamo-nos de qualquer prova do nosso excesso, do nosso descontrole, e fazemos de tudo para não reconhecer a existência destas marcas.

A nossa lua de mel foi de carro. Atravessamos a Holanda, a Alemanha, a Austria e a Eslovênia até chegarmos na Croácia. Dirigindo de norte a sul do país não é difícil ver as marcas deixadas pelos longos anos de guerra. A última ocorreu quando a Croácia declarou independência da Iugoslávia em 1991. Daquele ano até 1995, o país foi atacado pelo temido exército iugoslavo e até hoje sofre com as marcas deixadas pela guerra. Os telhados destruídos, os prédios abandonados e os furos nas casas são a prova de um passado que todos querem esquecer. A prova de que decisões erradas foram feitas.

Hoje, muitos turistas vão à Croácia para saber mais sobre a guerra, mas os croatas não gostam de falar sobre isso, o que é totalmente compreensível, eles focam nas belezas naturais e nas riquezas históricas. Aos poucos, o país está se recuperando, mas muitas marcas ficarão visíveis. A Croácia sempre vai ser o país que fez parte de uma das guerras mais violentas da Europa, e não há nada que ela possa fazer para apagar isso da história. Ela reconhece a guerra e as marcas deixadas, mas decidiu seguir adiante focando na beleza que ainda existe, nas conquistas do passado e nas perpectivas de um futuro promissor.

As nossas marcas também devem ser reconhecidas. Você pode se arrepender por tê-las, você pode até odiá-las por um tempo, mas elas não irão embora independente do quanto forem rejeitadas. Ao rejeitarmos as nossas marcas, só estamos dando mais importância a elas, deixando que elas nos impeçam de ver a beleza que ainda existe, as nossas conquistas do passado e as perspectivas de um futuro promissor.

Na Croácia, ao lado dos furos de metralhadora nas paredes, há flores enfeitando as janelas das casas que teimam em ser belas. E o lençóis brancos estendidos no varal, esvoaçantes à brisa do mar Adriático deixam claro que o país é muito mais do que marcas. E assim também somos nós.