É fome ou vontade de comer?

Um guia prático para diferenciar a fome física da fome emocional

Se você está na luta para perder uns quilinhos ou sonha em ter uma relação normal com a comida, o primeiro conselho que eu te dou é que você coma apenas quando estiver com fome. Simples assim, esqueça a dieta e adote uma única estratégia: comer para matar a fome.

Mas, se você é uma comedora emocional, você está provavelmente me xingando agora por ter te dado um conselho tão furado como este. E quer saber? Você está coberta de razão. Dizer para comer apenas quando está com fome é o conselho mais vago que existe para quem quer manter a linha. Parece até fácil de ser seguido, mas quando você se vê assaltando a geladeira após o jantar sem saber porquê, não resta dúvidas de que a equação da fome é bem mais complexa do que a gente pensa.

 
compulsão por doce
 

Para começar, há dois tipos de fome: a fome física e a fome emocional. Quando ouvimos esta história de comer só quando estamos com fome, estamos falando sobre a fome física. O problema é que, muitas vezes, a fome que sentimos é puramente emocional, mas se manifesta de maneira parecida com a fome física, e daí ficamos perdidas sem saber se devemos ou não comer.

A fome emocional pode até ser psicológica, mas também se manifesta fisicamente. Ela não precisa ser misteriosamente desvendada, nem é algo que você só aprenderá a identificar após anos de meditação e equilíbrio espiritual. Há sinais bem claros que o nosso corpo mesmo fornece e que podemos usar em nosso favor.

 
Qual é a diferença entre fome emocional e fome física?
 

A fome emocional e a fome física podem parecer idênticas, mas dá para diferenciar uma da outra. Para facilitar o entendimento, aqui vai um esquema fácil de ser usado na hora em que a fome apertar. A próxima vez que você estiver faminta, preste atenção nos sinais abaixo para saber se o seu apetite é baseado nas suas emoções ou nas suas necessidades físicas.

 
 
 
 
Eu não consigo parar de comer
 
 

O conhecimento é a melhor ferramenta da comedora emocional. Conhecer-se e entender o que acontece quando você escolhe comer salgadinho ao invés de ir para cama mais cedo, é a maneira mais simples de começar a se alimentar de maneira mais consciente e menos reativa. Ao adquirir esta consciência, você já está dando o primeiro passo em direção a uma vida livre de dietas e encanações.

 
Comer em excesso na fome emocional
 

O alimento tem um papel bem mais amplo nas nossas vidas do que o de apenas nos nutrir. Desde os tempos em que éramos recompensadas com um pirulito por não termos chorado ao cair de bicicleta, até as barras de chocolate usadas para esquecer as mágoas de um namoro malsucedido, a comida sempre esteve pronta para nos trazer relaxamento, conforto e bem-estar. Por isso, não devemos subestimar o seu uso quase terapêutico.

Acabar com a fome emocional é impossível e também seria uma perda enorme para a humanidade. A comida é muito mais do que nutrição - é cultura, é família, é comemoração, é conforto - e não há nada de errado com isso. A partir do momento em que essa fome emocional se torna frequente é que devemos levá-la mais a sério. Se você está comendo diariamente para se sentir melhor, talvez seja hora de analisar outras áreas da sua vida, e não apenas a sua dieta.

Avaliar a nossa fome é uma ótima maneira de avaliarmos a vida.

 

Para aquelas com espelho torcido e coração aflito

Uma leitura pessoal do curta "Espelho Torcido"

Já faz alguns dias que eu assisti a um curta que, em apenas dois minutos, me fez refletir sobre a importância de continuar divulgando e defendendo a autoaceitação. O curta em questão é o "Espelho Torcido", da cineasta Luiza Ribeiro, que transformou o próprio corpo em imagens artísticas belíssimas, trazendo à tona a noção de estética do corpo e da arte.

Quando eu assisti ao filme, senti uma urgência enorme em escrever sobre ele, simplesmente porque ele importa.

Crédito: Luiza Ribeiro

O curta importa não por expor descaradamente tudo o que tentamos esconder, nem tampouco pela nudez incômoda de um corpo que foge do considerado belo. Ele importa porque nos faz pensar no nosso próprio corpo e no reflexo distorcido que muitas vezes vemos dele no espelho. Ele importa porque é uma obra aberta a interpretações, a críticas e a julgamentos, e não apenas uma mensagem mastigada com começo, meio e fim.

O curta “Espelho Torcido” importa porque ele é sobre a Luiza, sobre mim e sobre você.

Em preto e branco e ao som de violino, o curta vai tocando e encantando pela franqueza do discurso. Quem é que nunca apertou a barriga incomodada com a maciez das próprias curvas? Quem é que nunca se olhou no espelho focando em cada ponto “errado” do corpo? Eu me lembro como se fosse hoje a primeira estria nas costas e a areóla que não parava de crescer; coisas que me tiravam o sono na adolescência, mas que hoje só me incomodam.

É com bastante tranquilidade que eu digo que meus defeitos me incomodam sim, porque amor-próprio e autoaceitação não tem a ver com começar a achar as estrias lindas, mas sim com a escolha que temos de não permitir que a presença delas nos atormentem. Amor-próprio e autoaceitação não é amar ter sobrepeso ou ser obesa, mas entender que mudar é mais fácil quando somos motivadas pelo amor que temos ao nosso corpo, e não pelo ódio que sentimos dele.

Crédito: Foto retirada do curta

Crédito: Foto retirada do curta

Não, eu não amo meus furinhos, rachaduras ou imperfeições, mas eles não determinam quem eu sou ou como eu me sinto. Eles não definem o meu valor próprio, o quão alta é a minha autoestima e nem a minha capacidade de me amar e ser amada. Os meus defeitos não me impedem de ir à praia, nem de dançar nua em frente ao espelho. Eles simplesmente existem, e eu os deixo existir, sem luta, sem luto.

O curta “Espelho Torcido”, como a própria autora define, é um grito de desabafo de uma mulher tem o seu corpo considerado fora dos padrões de beleza. É um vídeo que te dá forças para fazer ecoar o seu próprio grito pelo direito do corpo de existir. Um grito pela desconstrução da estética e pela construção de uma consciência crítica.

Se começarmos a ver o corpo de maneira mais ampla e mais funcional, reconhecendo seus pequenos milagres e a sua incrível força, talvez consigamos apreciar sua própria beleza. O corpo tem o direito de ser único e imperfeito, assim como nós.

A romantização da magreza

Para muitas de nós, o grande sonho é ser magra. Mas o que é que realmente queremos?

Não sei se é porque eu sou fissurada com tudo o que envolve comida e mulher, mas eu tenho a impressão de que grande parte das mulheres tem lá seus problemas com a comida ou com a autoimagem. Isso quando não há uma combinação dos dois fatores. Talvez seja o resultado de anos tentando entender os meus próprios dilemas que me fez começar a ver a mulherada com outros olhos, ou talvez seja por eu ser uma delas e saber exatamente o que é temer o prato e o espelho, não sei. Só sei que se começarmos a prestar atenção em como nos expressamos, não é difícil ver situações em que nos sentimos inadequadas em ser quem somos e em existir em um corpo que nos envergonha.  

Crédito: Abril Canto

Envoltas em tanto descontentamento, adequamos a nossa existência à ideia de que deveríamos ser diferentes e adotamos o estilo de vida da mulher infeliz. Não sei ao certo quando isto começou, mas virou rotina conversarmos sobre como estamos infelizes com o nosso corpo. Fica até difícil pensar em mulheres que eu conheço que não toquem no assunto de querer emagrecer, ganhar músculos, ou de precisar melhorar isto e aquilo. Para ser sincera, a minha pauta principal do dia durante um bom tempo também era ficar debatendo sobre nutrição e os novos métodos de emagrecimento, enrijecimento e rejuvenescimento. Hoje me delicio ouvindo e tentando entender o que é que nós, na verdade, queremos.

E a resposta é: nós queremos ser magras e lindas!

Até aí não há nada de errado com isso. Eu não estou aqui tentando convencer ninguém a esquecer as promessas de ano novo e se acomodar do jeito que está, mesmo estando infeliz ou com a saúde comprometida. Veja bem que eu nem usei a palavra aceitação, porque eu acredito que devemos sim nos aceitar do jeitinho que somos (aceitar não significa não querer mudar). Mas eu me pergunto porque será que queremos tanto ser magras? Na verdade, estamos fixadas com a ideia de magreza não apenas porque consideramos bonito e saudável, mas porque acreditamos que quando estivermos magras teremos aprovação para ser quem realmente somos.

Nós vemos a magreza como um passe para a liberdade, criatividade e sucesso. Nós relacionamos um corpo esbelto com a celebração da feminilidade e com o fim das incertezas.

Querer emagrecer é um desejo legítimo para muitas de nós, mas uma vez realizado não vai assegurar que sejamos felizes e seguras para sempre. Estar magra não significa estar realizada profissionalmente, não é ter mais tempo para você, não é garantia de relacionamentos duradouros, não é passar a entender o porquê da vida, não é prosperidade, nem amor, nem certeza.

 
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Ser magra não é condição prévia para a realização dos seus sonhos. E se o seu sonho não é ser modelo, você certamente conseguirá realizá-lo com outro tipo de esforço, e não controlando o que você põe na boca. Quantas vezes você já não pensou que se um dia conseguisse emagrecer os "x" quilos que tanto te incomodam, você teria força de vontade para conseguir todo o resto? Eu sei bem o que é viver assim esperando por um futuro magro distante para começar a fazer o que eu queria; eu também sofri do quando-eu-emagrecer-ite, e quer saber o que acontecia? Quanto mais eu vivia no futuro, mais eu comia no presente para compensar uma vida sem ambições maiores do que a de ser magra.

Se ser magra é o seu sonho, corra atrás e faça tudo para realizar. Mas entenda que a magreza não é caminho para a felicidade. Gordas e magras lidam com problemas, inseguranças, solidão e baixa autoestima. Não acredite que tudo estará resolvido a partir do momento que você passar a se sentir bem consigo mesma. Infelizmente, a vida não funciona assim, e não há razão para continuar adiando seus planos.

Sonhe mais alto, você pode ser muito mais do que apenas ser magra.

O que é a compulsão alimentar?

Chegou a hora de desvendar este mistério sem tabu e sem vergonha

Para quem está achando que este post é sobre transtorno alimentar, sinto desapontar mas o assunto aqui é bem mais leve e bem mais comum do que muitas de nós acreditamos.

Se a compulsão alimentar soa um pouco pesada e algo distante da sua realidade, saiba que você não é a única. Eu também tinha os mesmos sentimentos em relação a essa nomenclatura um tanto infeliz, e achava que a compulsão era algo a ser discutido às escondidas e no anonimato, mas não precisa ser assim.

Eu vou começar o post já esclarecendo que a compulsão pode ou não estar relacionada a um transtorno alimentar. O nome “compulsão alimentar” é tanto usado para definir os episódios de comer compulsivamente, quanto um transtorno alimentar conhecido como TCAP (Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica) ou, em inglês, BED (Binge Eating Disorder). Para esclarecer mais uma vez: quem tem episódios de compulsão não tem necessariamente um transtorno alimentar. 

Crédito:  Melody Bunn

Comer compulsivamente acontece quando ingerimos uma quantidade enorme de comida em um curto espaço de tempo (normalmente duas horas), e temos a sensação que perdemos o controle de quando devemos parar. Para algumas pessoas, o episódio pode se estender ao longo do dia. O que todos os comedores compulsivos têm em comum é que grande parcela é motivada por fatores emocionais a comer de tal forma. A outra parcela é formada por pessoas que sofrem de compulsão após períodos de extremo controle e privação alimentar, como a história da Alê.

Eu já havia escrito um post sobre o comer emocional que explica como isso acontece, mas não confunda comer emocional com compulsão alimentar: comer emocional e compulsão podem ter as mesmas motivações, mas diferem na quantidade de comida ingerida. Durante um episódio de compulsão, a quantidade é bem maior do que uma outra pessoa comeria no mesmo intervalo de tempo e circunstâncias.

Quando eu digo uma quantidade grande de alimento, não estou falando do famoso “pé na jaca” que todo mundo enfia de vez em quando. O pé na jaca é aquela escapada que a gente dá e acaba comendo dois ou três pedaços do bolo. No caso da compulsão alimentar, comeríamos o bolo inteiro. Há casos de pessoas que comem um pacote de pão de forma com açúcar, comida congelada, sacos e mais sacos de doces de salgadinhos, caixas de chocolate. O tipo de alimento varia, mas o que não difere é a ingestão exagerada de alimentos normalmente considerados não saudáveis. São raros os casos de compulsão por frutas ou legumes.

A compulsão significa comer ignorando os sinais físicos de fome e saciedade. Quem passa por isto está, normalmente, tão desconectada do corpo que acaba ignorando esses sinais. O alimento é visto como um remédio capaz de fazer se sentir melhor, aliviando qualquer ansiedade ou desconforto, e anestesiando todo sentimento ruim.

Crédito: Tiffany Gholar

O que pode acontecer é a comida ganhar um significado bem maior do que deveria ter. A comedora compulsiva pode acreditar que o alimento é mais poderoso do que quem o come, resultando em uma relação de desconfiança e medo da comida.

Os episódios de compulsão podem ou não resultar em ganho de peso. Muitas pessoas têm compulsão e compensam o exagero com dietas, jejum, indução ao vômito, exercícios físicos, diuréticos, laxativos ou pílulas de emagrecimento. O que infelizmente acontece é a criação de um ciclo de compulsão e compensação que pode durar uma vida inteira e, apesar de não vermos o estrago na balança, a qualidade de vida de quem vive nesse ciclo é comprometida. Dependendo da frequência dos episódios de compulsão e compensação, pode ser considerado Bulimia. O diagnóstico só pode ser dado por um profissional da área de saúde.

A relação com a comida muitas vezes simboliza a relação que temos conosco mesmo. No meu caso, eu era controladora comigo, exigente, indisciplinada, inconscistente, punitiva e rebelde. Eu assumia a responsabilidade por tudo e não tinha tempo nenhum para as minhas prioridades. Com a comida não era diferente: eu tentava controlar tudo o que comia mas não tinha disciplina para manter uma dieta saudável, daí qualquer escorregão era motivo de comer tudo o que eu via pela frente. Como eu não me permitia sentir algo além de alegria ou excitação, qualquer frustração ou tristeza era compensada com alimentos. Se eu me estressasse, a comida também estava lá. Comer era o tempo que eu tinha só para mim e para minhas prioridades, e assim eu ia vivendo entre a privação, o comer emocional e a compulsão.

Para resumir um pouco tudo o que já foi discutido anteriormente, aqui vai uma lista com cinco sintomas básicos que podem ajudar a identificar um episódio de compulsão alimentar:

 
Sintomas Compulsão Alimentar
 

Tanto a compulsão quanto o comer emocional podem ser empecilhos na vida de quem procura ter uma relação saudável consigo mesma e com a comida. Como eu já disse, comer emocional e compulsão podem acontecer de vez em quando com todo mundo, e isto não é, necessariamente, alarmante. O problema é quando a frequência aumenta a ponto de comprometer a nossa qualidade de vida. Se isso acontecer, divida a sua experiência com alguém e procure ajuda. Você não está sozinha.

 

 

A compulsão como resultado de dieta

Como eu havia prometido, aqui vai mais um relato de mulheres que têm ou tiveram algum problema com a comida - relacionado ou não com um transtorno alimentar. Mulheres que tentaram dietas de emagrecimento, dietas de engorda, medicamentos, chás milagrosos, excesso de exercício físico, vômitos, jejum e tantas outras medidas.

Desta vez, a Alê com uma coragem enorme e ainda em recuperação, resolveu dividir a história emocionante dela na luta contra o espelho e contra a comida.

Muitas vezes a compulsão surge como resultado de uma dieta restritiva, é uma maneira que o nosso corpo encontra para conseguir toda a energia e nutrientes que lhe foram privados. A melhor maneira de evitar a compulsão é adotar uma alimentação balanceada, com muita variedade e espaço para o consumo de alimentos com alta concentração de açúcar, gordura ou carboidrato. O equilíbrio continua sendo o melhor caminho. 

Se você perdeu o primeiro post da série, clique aqui.

Com a palavra, a Alê:

Crédito: Sarah.

Eu passei toda a minha infância e parte da adolescência obesa e feliz com o meu corpo. Eu realmente não ligava para isso e me sentia confiante. Até que a adolescência chegou e, aos 15 anos, comecei a sofrer bullying e a ser chamada de gorda. Foi então que eu resolvi seguir os conselhos da nutricionista por um mês, comendo normal. Na época, eu estava com 85,9 quilos. Quando eu cheguei aos 80 quilos, desisti da dieta e voltei a me entupir de comida. Eu descontava tudo nela e no refrigerante (tomava mais de dois litros por dia!).

Quando completei 16 anos, comecei a me incomodar com o meu corpo, que era tão diferente daqueles que eu via na mídia. Agora imagina uma obesa vendo aqueles padrões anoréxicos. Pois é, não deu outra, resolvi emagrecer com dieta e sem refrigerante. Pouco tempo depois, descobri o shake da Herbalife e comecei a perder bastante peso. Então percebi que se eu tomasse só o shake, eu emagrecia muito mais. Eu comecei a me pesar toda hora: fazia xixi e me pesava; fazia 30 polichinelos e me pesava.

Até que eu vi que se eu parasse de comer, eu chegava a perder um quilo por dia. Claro que não aguentava firme todo o mês assim, e daí surgiram as compulsões. A culpa e a fácil tática de enfiar o dedo na garganta me faziam livrar daquilo tudo. No início, como eu não conseguia vomitar, evitava ao máximo as compulsões. Era possível ficar até duas semanas sem comida numa boa. Meus pais trabalham o dia inteiro, então era realmente fácil. 

E assim foi indo, e de 100 quilos eu fui para 70 quilos em pouco tempo. Meus pais começaram a perceber e passaram a me forçar a comer. Eu ganhava e perdia peso. Até que cansei e tentei me recuperar, mas quando cheguei aos 75 quilos me vi infeliz novamente e resolvi voltar ao meu antigo ciclo.

Crédito: Sarah

Aos 17 anos e cansada de ser ''gorda'', eu passei a levar ainda mais sério a tática de NF (no food = sem comida). Eu comia o mínimo possível. Em menos de duas semanas fui de 70 quilos para 61,7 quilos, e meus pais voltaram a me forçar a comer. No início, eu não aceitava e acreditava que merecia sofrer com fome, que eu era uma gorda nojenta porque eu queria. Mas depois eu vi que eles só queriam me ver feliz e confiante novamente.

Eu voltei a frequentar ajuda diariamente para buscar meu equilíbrio mental. E sabe, a mídia passa muito isso de abdômen perfeito, bunda perfeita, corpo perfeito. Em não comer porcarias, em que só magros são bonitos, e não é bem assim. Eu conheci um amigo que me disse que todos têm a sua beleza, mas demorei muito para entender essa frase.

Todos temos a nossa beleza, independente do tamanho do nosso jeans.

Eu tenho 18 anos, 1,57m e 65 quilos. Atualmente, não me vejo curada, mas já estou há meses lutando abertamente contra o meu problema e resolvi não escondê-lo, porque eu sei que muita gente sofre com isso diariamente e se odeia, assim como eu ainda me odeio. Eu me acho a pessoa mais gorda do mundo, a mais feia. E não deveria ser assim.

Em novembro de 2013, teve minha formatura e muitos me disseram ''nossa, como você está linda MAGRA!!''. E sim, isso afeta. Se você se deixar levar por essas coisas, você enlouquece. Eu fico pensando até quando a sociedade vai girar em torno disso. E eu sei que vai levar um bom tempo, mas tento não me importar com isso. Eu realmente percebi que eu preciso me amar, e não agradar aos outros. Nunca vamos agradá-los.

Nas minhas fotos antigas o meu sorriso era sincero. Eu podia ser obesa, mas era saudável e isso era o que importava para mim. Agora, eu já não sou mais a mesma pessoa. Eu me afastei de muita gente que eu realmente amava. Como eu ficava muito mal humorada por falta de comida, eu descontava todo meu ódio nas pessoas. Eu passei a evitar qualquer tipo de contato porque achava que elas só queriam me enfiar comida.

Bom, eu quero falar para você, que está aqui lendo, que você não está sozinha nessa. Que você é perfeita assim como você é! Não desista de lutar pelo seu equilíbrio, e falo isso, não no sentido: NÃO COMA MAIS PORCARIA E FAÇA EXERCÍCIO QUE VOCÊ EMAGRECE! Mas no sentido, tá a fim de comer? Come, mas equilibradamente. Faça pelo menos um pouquinho de atividade física por dia e você vai ver como vai fazer diferença! Procure, assim como eu, o seu equilíbrio. É difícil, mas vale a pena.

Ninguém precisa aceitar os padrões da sociedade para estar bem consigo mesma. O importante é amar e respeitar o seu corpo. E lembre-se: cuide dele, porque é o único corpo que você tem!

Quando dieta não é a resposta

Um post para quem já tentou todas as dietas e mesmo assim não consegue viver em paz com a comida.

A minha primeira reunião nos Vigilantes do Peso foi aos 14 anos no subsolo de uma igreja católica. Entre sinos e glorificações eu aprendi o que eram calorias, o que eram pontos e como é que eu deveria comer para me livrar do recheio extra. Eu fui na reunião a exemplo de uma amiga que havia perdido muitos quilos na contagem dos pontos, e fiquei surpresa com o resultado do programa - toda semana eu perdia entre meio e um quilo.

O meu livrinho de pontos só sobreviveu até o meu encontro com a lata de leite condensado escondida pela minha mãe atrás da batedeira no armário. Eu abri a lata com a intenção de comer só uma colher e anotar os pontos, mas acabei tomando tudo. Como eu nem sabia quantos pontos eu tinha comido, desisti da contagem e prometi recomeçar no dia seguinte. Bem, nem preciso dizer que aquele foi o último dia da minha vigilância.

Depois disso, eu tentei a South Beach, a Atkins, as dietas publicadas na Boa Forma (da banana, do sanduíche, do abacate), contagem de calorias. E como eu não desisto assim tão fácil, acabei apelando para a contagem dos pontos mais uma vez, e nada. Para quem ainda não leu a minha história, vale a pena dar uma olhada e sentir o drama de uma vida de dietas.

Já frustrada de tentar tudo para emagrecer ou, pelo menos, me manter magra, eu comecei a me perguntar se o problema era comigo mesmo. O que eu descobri é que há basicamente dois grupos de pessoas quando o assunto é dieta: o primeiro grupo são aquelas que não têm informação suficiente sobre nutrição e alimentação balanceada, e acabam fazendo as escolhas erradas; e o segundo grupo são aquelas que sabem tudo o que devem fazer para emagrecer ou para manter o peso, mas simplesmente não conseguem.

Para o primeiro grupo, dietas podem ser ótimas para promover um pouco de aprendizado e estrutura na alimentação. Já para o segundo grupo composto por pessoas como eu, não adianta o investimento em programas de emagrecimento e livros de dietas maravilhosos, simplesmente porque nós somos dependentes emocionalmente de comida. Não importa se a dieta é clara e as regras fáceis de serem seguidas, nós iremos sempre quebrá-las.

O problema aqui não é o que comemos, mas o porquê comemos.

Eu sei que a palavra “dependente” soa um pouco pesada, mas essa não é a minha intenção. Comer para anestesiar emoções é mais comum do que a gente pensa, e não há nada de obscuro ou terrível nisso. E foi por isso que eu resolvi colocar aqui três sinais básicos que podem te ajudar a identificar se você é ou não uma comedora emocional. Se você for uma, dieta será provavelmente uma perda de tempo, energia e dinheiro.

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Fome é uma maneira que o nosso corpo tem de nos avisar que precisamos de nutrição física. Quando queremos comer mesmo não sentindo o estômago roncar, ou até mesmo minutos após já termos comido, estamos procurando por nutrição emocional. Para muitas de nós, comer é a forma mais rápida e barata para se sentir relaxada, entretida e amada. Fica difícil contar quantas vezes eu já não recorri a doces quando me sentia sozinha. Eu não estava com fome, só queria me sentir menos vazia.

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Esta daqui é para quem pede salada com frango no almoço, ao lado dos colegas de trabalho, e depois come sozinha em casa um pacote inteiro de batatinha. Ou para quem assalta a geladeira em silêncio no meio da noite. É também para quem come escondido na festa, enquando ninguém está olhando. Eu me lembro como adorava que meu marido trabalhasse até tarde só para eu ter a liberdade de comer tudo o que queria sem sentir vergonha dele (como se eu não tivesse que lidar com a vergonha que sentia de mim mesma). Quando comemos escondido, só perpetuamos a ideia de que há algo de errado conosco. Fazemos isso porque acreditamos que as pessoas ficariam chocadas se vissem o que na realidade comemos.

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Sabe o misto de culpa e prazer que sentimos quando saboreamos um pudim dos deuses? É uma vozinha na cabeça que fica repetindo que você não deveria estar comendo isto, que desse jeito vai acabar engordando ou pior, nunca emagrecendo. Pois é, com vozinha ou sem vozinha acabamos comendo o pudim de qualquer forma. Mesmo que a culpa não consiga nos fazer parar, ela nos priva da experiência prazerosa de comer e, no fim das contas, comemos ainda mais para finalmente nos sentirmos saciadas. Outro tipo de culpa é a que aparece quando já comemos. Esta culpa é aquela que fica corroendo um tempo, apertando o peito e nos fazendo sentir mal por termos sido incapazes de nos controlar.

Se você se identificou com os sinais citados acima, você não é a única. Eu passei muito tempo tentando entender o que acontecia comigo quando o assunto era comer. Aqui no blog eu vou dividir com você tudo o que me ajudou a melhorar a minha relação com a comida.

A boa notícia é que não há nada de errado com você. Ser uma comedora emocional não significa necessariamente que você tenha um transtorno alimentar.

Descobrir o porquê comemos é uma viagem maravilhosa de autoconhecimento. É uma maneira de conhecermos melhor o nosso corpo, espírito e intelecto, e vale a pena cada tropeção ao longo do caminho.

Vem comigo?

 

2014 - O ano da autoestima

Este ano será um tratado de paz com o corpo, com as emoções e com a comida.

Eu nem acredito que já é 2014. Todo começo de ano eu sinto aquele comichão na barriga de excitação e alegria em estar começando um novo ciclo. Eu não consigo evitar de fazer planos para o ano inteiro desordenados e espalhados nas folhas do meu caderninho de anotações. Estou aqui já há uma semana tentando arrumar tempo e coragem para organizar as promessas ambiciosas para 2014, mas até agora nada. Ainda tenho esperança de que em algum ano eu vou conseguir fazer isto certo - escrever ordenadamente o que eu quero, e ler tudo no final do ano para ver o que foi e o que não foi realizado.

Mas independente de qualquer lista, eu decidi que 2014 será o ano da alta autoestima. E tudo o que eu fizer deverá estar alinhado à premissa de amor próprio, respeito ao meu corpo e enorme consideração à minha integridade física e mental. Eu visualizo um ano em que terei mais contato e mais tempo comigo. Um ano em que continuarei lutando contra padrões irrealistas e contra a ideia de que beleza é sinônimo de sucesso ou felicidade.

E para começar o ano bem, aqui vão algumas fotos da militante, feminista, blogueira, fotógrafa e modelo plus size Jes, mais conhecida como Militant Baker, que começou o projeto Body Image(s) em 2012, fotografando mulheres reais. O objetivo do projeto é mostrar os vários tamanhos, formas e tons de beleza.

Crédito: Jes, Body Image(s) project.

Este ano eu estou decidida a não reclamar das partes do meu corpo que eu não aprovo. Não vou falar às minhas amigas o quanto estou insatisfeita com os quilos a mais, ou sobre dietas, ou sobre tudo o que eu odeio em mim. Não vou pensar na minha barriga durante o sexo, ou na celulite aparente nas minhas coxas. Eu vou correr, dançar e me exercitar por prazer e não por punição. Eu aceito todas as marcas que a vida me deu espalhadas pela minha pele, e vou tratá-las carinhosamente. Vou fazer de cada banho um culto ao meu corpo e às minhas formas, massageando, olhando e agradecendo a experiência de estar viva. Vou me hidratar, me cuidar, me mimar e deixar claro o quanto eu sou linda e forte e única.

Crédito:  Jes  ,   Body Image(s) project.

Crédito: Jes, Body Image(s) project.

Eu vou dizer não ao culto de ódio ao corpo, e vou lutar todos os dias contra isso. Eu não vou parar de comer quando ainda estiver com fome, e não vou continuar comendo quando estiver satisfeita. Eu vou nutrir o meu corpo com alimentos saudáveis e cuidadosamente preparados. Eu vou colocar mais amor na cozinha e na mesa, e saciar a minha fome de aventura, troca e atenção. Eu vou comer muita salada, azeite, frutas e amêndoas, porque o meu corpo e o meu paladar amam isso. Eu vou comer pão, carne, chocolate e batata frita, porque eu amo e porque equilibrio funciona melhor do que restrição. Eu me declaro livre para escolher o que e quando comer. Eu me desafio este ano a confiar que o meu corpo mesmo é capaz de regular o quanto de comida eu preciso, sem instruções, sem dieta, sem exageros.

Crédito:  Jes  ,   Body Image(s) project.

Crédito: Jes, Body Image(s) project.

Este ano vai ser silencioso, com muita meditação, momentos de espiritualidade e contato comigo mesma e com a natureza. Eu almejo uma mente tranquila e um coração aberto a todas as emoções, que aceita o fato de que a alegria só existe porque há tristeza. Eu abraço a incerteza, a ansiedade, o medo e a vergonha como partes da minha existência. Eu vou falar o que eu penso e sinto, sempre. Vou tratar o meu tempo como o bem mais valioso e vou gastá-lo cuidadosamente trabalhando com projetos alinhados aos meus valores.

Crédito:  Jes  ,   Body Image(s) project.

Crédito: Jes, Body Image(s) project.

O ano de 2014 é o ano da autoestima. É o ano da mulher que acredita que o amor verdadeiro virá quando ela tiver coxas menores. É o ano da executiva que mesmo chegando ao topo, ainda tem que se preocupar em ser bela. É o ano da mulher que não tem mais coragem de se olhar nua no espelho. É o ano da adolescente que chora ao ir para cama por estar aprisionada em um corpo que odeia. É o ano da recém-mãe que passa a noite acordada cuidando do filho, e o dia tentando perder os quilos e as marcas deixadas pela gravidez. É o ano da menina que evita ver as amigas porque engordou demais nas férias. É o ano da mulher madura e grisalha, que tenta redescobrir a sua sexualidade numa sociedade obcecada com a juventude.

Eu espero que 2014 seja um ano mais gentil com as mulheres. Mas o mais importante: eu espero que em 2014 você seja mais gentil com você mesma.

 

Crédito:  Jes  ,   Body Image(s) project.

Crédito: Jes, Body Image(s) project.