O peso das nossas escolhas alimentares

Escolhas certas vs. escolhas erradas

Todos os dias, desde o momento que acordamos fazemos escolhas. Nós escolhemos levantar ou continuar dormindo mais cinco minutinhos, escolhemos se temos tempo para arrumar a cama ou não, se devemos escovar os dentes antes ou depois de café, se devemos comer pão ou tomar um suco verde.

Por incrível que pareça, mais de 200 vezes por dia fazemos escolhas relacionadas à nossa alimentação. Algumas delas são conscientes e outras não. Com tanta escolha sendo feita, é uma questão lógica chegar à conclusão de que mais cedo ou mais tarde faremos a escolha errada. A dúvida fica: qual é o peso dos nossos deslizes?

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Emagrecer ou se aceitar? Eis a questão

Um post para mulheres revolucionárias

Para quem acompanha o blog sabe o quanto defendo ser feliz, ser saudável e se amar em qualquer peso. Eu realmente acredito que peso não deve ser medida para o sucesso ou para a felicidade de ninguém, mas também sei que muitas de vocês continuam perdidas sem saber se devem dar ouvidos a vontade antiga de emagrecer ou as mensagens de amor-próprio e autoaceitação que, felizmente, vêm crescendo ultimamente.

Eu sei porque já estive exatamente na mesma situação, com medo de emagrecer e me deixar levar pelo apelo da mídia em ter um determinado tipo de corpo, mas com medo também de ter que me conformar com as dobras nas costas que continuavam aumentando.

Eu queria ser magra não por me odiar sendo gorda, mas para saber o que é acordar todos os dias se sentindo bem com o corpo que você tem. É claro que muitos se sentem bem acima do peso, mas esse não era o meu caso. Aquilo parecia um sonho para mim que só poderia ser realizado quando eu decidisse esquecer do meu orgulho e ideias feministas e me jogar de cabeça nas revistas fitness. Parecia impossível combinar inteligência e senso crítico com um corpo magro, pelo menos para mim.

Por isso, o meu recado hoje é para quem está vivendo este dilema de “emagrecer ou não emagrecer, eis a questão”.

Você com certeza já sabe da existência do mundo plus size, assim como já deve ter ouvido falar do movimento para aceitação do corpo, da luta contra a gordofobia, do movimento Health at Every Size (HAES; em português: Saúde em Qualquer Tamanho), do feminismo e das campanhas pelo amor-próprio, como os #100diasdeamorproprio, por exemplo. Todas essas movimentações defendem que devemos nos amar como somos e devemos ser respeitadas por isso. Que somos suficiente e merecemos amar e ser amada qualquer que seja o nosso tamanho. Mas e quando você quer emagrecer? E quando você se ama e quer emagrecer para se sentir melhor e mais disposta?

Beauty, Kustodiev, 1915

Beauty, Kustodiev, 1915

Quando a vontade de emagrecer surge, imagino que diversas vozes possam te deixar confusa em relação ao que fazer: emagrecer ou aceitar o corpo que você tem.

Eu tenho enorme admiração e respeito por todas essas forças que promovem o fortalecimento das pessoas, tanto é que criei os #100diasdeamorproprio, que não são focados apenas no amor ao corpo, mas abordam claramente a importância da autoaceitação. E, por isso mesmo, entendo que pode parecer que certos movimentos são contra o emagrecimento, mas isso não é necessariamente verdade. Esses movimentos estão aí para te dar o poder de escolha e não para te obrigar a ser de determinada forma.

Aqui vão algumas ideias para te ajudar a desconstruir possíveis “verdades” que te deixam confusa:

  1. Você pode se amar e se aceitar e mesmo assim querer uma realidade diferente para o seu corpo. Sério, você pode!
  2. Querer emagrecer não significa que você está sendo corrompida pelos padrões midiáticos. Você pode escolher emagrecer e estar completamente ciente de que não é uma alienada.
  3. Você não precisa se odiar profundamente para almejar ter um corpo mais magro, então não há porque escolher entre os movimentos pela autoaceitação e o emagrecimento. Faça uso de tudo o que você tem disponível para se sentir bem.
  4. Não é preciso se manter acima do peso para se mostrar contra o machismo.
  5. Você pode emagrecer e continuar acreditando que gordofobia é um tipo de preconceito tão repugnante quanto qualquer outro. Não é preciso estar acima do peso para ver a injustiça social contra as minorias.
  6. Você pode emagrecer e continuar apoiando o movimento plus size.
  7. Não é porque você quer emagrecer que você está virando as costas para as pessoas que não decidiram fazer o mesmo. Cada um tem uma trajetória. Escolha a sua.
  8. Você não precisa sentir orgulho de ser gorda, nem tampouco orgulho de ser magra. Sinta orgulho de ser você, e ponto.
  9. Ser gorda não é sinônimo de ser forte. Muito menos de ser fraca.

Se você faz parte do grupo de mulheres revolucionárias que acreditam que mudar o mundo é mais importante que mudar o corpo, parabéns! Você é inspiração para muitos e deve continuar lutando pelos seus ideais. Mas, cá entre nós, se você também quer mudar o seu corpo, vá em frente; querer emagrecer não desmerece em nada os seus ideais. As razões para você emagrecer são suas e somente suas. O corpo é seu e as regras são suas.

Quando escrevi sobre a romantização da magreza, tentei deixar claro que ser magra não é resposta para tudo na vida, nem tampouco garantia de felicidade, mas também sei que estar acima do peso para algumas pessoas pode pesar mais do que alguns quilos.

Você não precisa escolher entre se amar, se aceitar ou mudar. Você tem a liberdade de experienciar tudo isso. Permita-se.

Motivos para continuar sambando

Um viva à diversidade

Este Carnaval no sudeste foi um pouco diferente dos demais e me alegrou de uma maneira que não fazia há tempos. Mesmo não podendo acompanhar de perto toda a movimentação do feriado, eu assisti aqui da Holanda aos avanços democráticos do carnaval brasileiro que fizeram o meu coração bater mais forte.

Eu vi o samba gracioso de uma passista de 118kg mostrando o carnaval que queremos ver - um carnaval mais diversificado, assim como o povo brasileiro. Vi uma atriz negra figurando a “Preta de Neve” na comissão de frente de uma escola que escolheu como enredo questionar o padrão de beleza midiático. Vi um homem obeso sendo destaque como Cleópatra e um carro abre-alas com 8 modelos plus size brilhando na avenida.

Não estou dizendo com isso que o novo padrão deveria ser plus size, até porque isso excluiría as magras e menos curvilíneas. O problema não é o tipo de mulher que está sendo representado na mídia, mas o fato de que apenas um tipo está sendo representado, quando na verdade somos muitos e muitos tipos.

Por mais que muitos acreditem que dar visibilidade ao gordo é fazer apologia à obesidade, eu acredito que o quanto uma pessoa pesa não deveria limitar a sua atuação na sociedade. E, por isso mesmo, há muitas razões para comemorar a aparição de passistas acima do peso em um ambiente non grato para os cheinhos, com exceção do Rei Momo.

Carnaval é isso aí, é a manifestação lúdica da liberdade de um povo. São alguns dias dedicados a ser quem você quiser e a fazer o que tiver vontade. É um momento em que papéis sociais são invertidos e a mulata da favela ganha o mesmo destaque da mocinha branca da novela, onde o patrão e o empregado sambam juntos cantando o mesmo refrão, sem a hierarquia que cala os menos favorecidos no restante do ano. E exatamente por ser a manifestação da liberdade, é no Carnaval que deveríamos ver gordinhas e gordinhos sambando ao lado de sarados e comemorando uma folia que deveria ser para todos.

Mas não é isso o que normalmente vemos. O Carnaval no sudeste é um carnaval onde somente corpos magros e malhados são bem-vindos para desfilar como passistas ou destaques. Os demais tipos de corpos ficam espalhados entre as alas e bateria, disfarçados em uma hierarquia que representa exatamente a sociedade em que vivemos, onde o gordo fica de plano de fundo.

Quando a modelo plus size Josiane Lira desfilou em São Paulo e no Rio, ela não desfilou apenas representando as gordinhas, mas toda mulher com um corpo diferente daquele de uma rainha de bateria. E isso deve ser comemorado. Quando a atriz Cacau Protásio encarnou a “Preta de Neve”, ela representou todas as não-princesas confrontadas diariamente com mensagens que deixam claro que elas deveriam ser alguém que jamais serão. E isso deve ser comemorado.

Este ano, o Carnaval mostrou o que está acontecendo ao nosso redor. Ao poucos estamos vendo a diversidade sendo representada em todas as esferas e mesmo que o avanço seja lento, ele está acontecendo.

Qualquer mulher pode sonhar ser e fazer o que quiser independente do seu corpo.

O fato de que gordinhas sejam destaque em um desfile de carnaval é algo a ser comemorado por todas nós, gordas, magras, negras, asiáticas, altas e baixas. É o reconhecimento de que todas nós existimos para ser destaque naquilo que fazemos e não apenas para ser plano de fundo.

Quando a compulsão alimentar te leva às compras

Como comprar alimentos para comer compulsivamente

Eu estava voltando depois de um daqueles dias frustrantes de trabalho em que teria sido mais proveitoso passar o dia de pijama em casa assistindo televisão, mas fazer o quê? Às vezes não nos resta opção melhor do que a de passar o dia fingindo que estamos trabalhando, mesmo que isso seja mais cansativo do que o trabalho em si. Apenas uma das muitas contradições da natureza humana.

Quando subi na bicicleta pronta para ir para casa, o cansaço de fim de tarde combinado com a frustração de um dia improdutivo foram capazes de provocar uma fome incontrolável. Antes mesmo de começar a pedalar, eu estava salivando ao imaginar o rocambole macio com recheio amanteigado de chocolate e coberto com grânulos de açúcar cristal derretendo na minha boca. Apenas o pensamento sobre o gosto do rocambole já me trazia a calma e a concentração necessária para começar a noite. A partir daquele momento, o meu único objetivo era sair em busca da sensação de calma, ou melhor dizendo, do rocambole.

Aquela não era uma vontade qualquer de comer doce, eu estava em busca de muito mais.

É fácil saber a diferença entre a vontade de comer e o começo de um episódio de compulsão alimentar - basta prestar atenção nos seus batimentos cardíacos para saber do que se trata. Quando a compulsão surge, você é tomada por ansiedade e os batimentos ficam acelerados. É como se a vida se resumisse a comer e você sai em busca disso como uma caçadora profissional, bolando estratégias, histórias e mentiras a serem contadas para conseguir devorar a sua presa sem que ninguém desconfie. Isso é um episódio de compulsão, não é apenas vontade de comer.

Eu já postei um vídeo explicando o que pode ser feito para parar um episódio de compulsão alimentar, se você perdeu é só clicar aqui.

Às vezes a compulsão é por um alimento específico, outras vezes é por qualquer alimento que esteja ao nosso alcance. Nos dois casos, o que há em comum é que quantidade é muito mais importante do que qualidade. Não importa se o doce foi bem preparado ou se está saboroso, o importante é que haja muito doce para ser degustado. Se a quantidade for mais importante do que a qualidade, então é um episódio de compulsão alimentar.

Tem vezes que a compulsão surge na rua, no carro ou no ônibus e nos sentimos obrigadas a sair em busca de comida. Para quem leu até aqui e está pensando que é só controlar a vontade, parabéns… o seu caso não é um episódio de compulsão alimentar. Mas para quem acha impossível não parar no supermercado, padaria ou doceria para acalmar aquele mal-estar, eu tenho ótimas notícias, continue lendo.

Eu estava salivando pelo rocambole e tentando prometer a mim mesma que não passaria no supermercado para comprá-lo. Eu poderia quase jurar que daquela vez seria diferente, que eu conseguiria ser mais forte do que a compulsão; era só continuar pedalando até chegar em casa e tudo ficaria bem. Mas bastou eu passar em frente ao supermercado para que a ansiedade alcançasse níveis insuportáveis que me fizeram parar e sair em busca do rocambole apesar de todas as promessas feitas anteriormente.

Quando você sentir essa urgência de comprar alimentos específicos para serem consumidos compulsivamente, há certos passos que podem ser seguidos para te distrair do ato de comer. Acredite, essa urgência parece que vai durar uma eternidade, mas pode passar em questão de minutos. O segredo é tornar o episódio de compulsão alimentar um ato consciente, até na hora de comprar os alimentos.

Se a compulsão surgir e você não conseguir resistir de sair em busca de alimento, tente seguir os passos a seguir:

  1. Ao entrar no estabelecimento e encontrar o alimento desejado, reserve alguns segundos para ler tudo o que estiver no rótulo (os ingredientes, a tabela nutricional, o local de fabricação, a data de validade). Se o alimento em questão não for embalado, procure algum outro que seja e siga o mesmo ritual. Este tempo dedicado à leitura da embalagem é fundamental para acalmar os ânimos e dedicar a sua concentração a uma outra atividade. A intenção aqui é fazer você retornar à plena consciência. Veja a leitura como uma meditação: toque o alimento, admire a embalagem e leia tudo, sem culpa e sem julgamento. Você pode fazer isso sabendo que ele está ali ao alcance das suas mãos e ninguém será capaz de te privar do prazer de comê-lo.

  2. Antes de passar no caixa, ande pelo estabelecimento observando o que ele tem a oferecer e preste atenção na sua respiração. Se o lugar for espaçoso, caminhe pelos corredores e respire. Se for uma pequena padaria ou doceria, dê uma olhada nas prateleiras com outros produtos e respire. Se for uma loja de conveniência, pegue uma revista para folhear e respire. Espere alguns minutos até que você se sinta menos ansiosa e esteja pronta para fazer a escolha consciente de comprar ou não o alimento. Só compre ou deixe de comprar quando se sentir mais calma e não tenha receios em sair de mãos vazias.

Ao seguir esses dois passos simples você vai perceber que a mente sai daquele transe da compulsão e o mundo parece até girar mais devagar. Só nesse estado de espírito é que somos capazes de escolher comer ou não.

Quando avistei o rocambole, senti um certo alívio por ter encontrado o que eu procurava. Eu peguei a embalagem e fiquei admirando a foto estampando a cremosidade do recheio de chocolate. Fiquei ali, parada, lendo tudo o que tinha para ser lido no rótulo. Com o rocambole ainda na minha mão, passeei pelos corredores do supermercado, respirando e olhando tudo ao meu redor até que me sentisse mais calma.

Foi só então que eu tive a tranquilidade de relembrar o quão delicioso aquele rocambole realmente era e o desperdício que seria devorá-lo inteiro em poucos minutos sendo que eu poderia comê-lo em outras situações com prazer e sem remorsos. Eu relembrei como eu me sentia depois de uma compulsão alimentar e aquela compra pareceu não valer a pena.

A caminho do caixa, eu deixei o rocambole na prateleira sem receios e sem pesar. Eu sabia que voltaria a vê-lo em um momento mais propício.

Talvez você escolha comprar, talvez não. Mas faça isso de maneira consciente. Não esqueça que você poderá comer o que quiser, quando quiser. E se for para comer, que seja com prazer, você merece.

É impossível amar o que não aceitamos

 Tudo começa com a autoaceitação

Quando comecei a postar os #100diasdeamorproprio, estava muito determinada a me ajudar e a ajudar outras pessoas que seguiram e continuam seguindo o projeto. Foi só a partir do vigésimo dia que eu me dei conta que 100 dias é um período bem longo para quem estava acostumada a procurar resultados instantâneos. De repente eu estava ali, dia após dia focada em apenas uma prioridade: amar-me apesar de tudo.

Amar-se durante uma semana é fácil, quem sabe até durante um mês, mas é muito improvável que durante 100 dias ninguém passe por momentos em que o amor-próprio é colocado à prova. São exatamente nesses momentos em que jamais devemos questionar o amor que sentimos por nós mesmas.

A vida foi acontecendo e todos os dias eu me via obrigada a relacionar o que eu sentia com a necessidade de me amar apesar de tudo. Foi um exercício incrível em que eu percebi que quando queremos alcançar algo, o mais importante é aceitar e reconhecer quem somos.

Quando a Juliana me enviou este depoimento sobre a experiência dela, eu não pude concordar mais.

#100diasdeamorproprio e a necessidade de se aceitar

Eu comecei a participar dos #100diasdeamorproprio quando vi a hashtag no instagram que criei para postar meu dia a dia na luta de querer ser a mulher perfeita - corpo magro, cabelo liso, unhas perfeitas e sempre bem arrumada. Aí olhando postagens de várias pessoas, cheguei nesse projeto e me interessei a participar. Quer saber por quê?

Porque eu sempre quis participar de um projeto mas nunca consegui terminar, porque os projetos eram #30diassemjacar, #15diasdemalhação, #20diassaudaveis ... e eu percebia que era impossível ficar 30 dias sem comer um chocolate ou um doce e não jacar. Era impossível ficar 15 dias sem preguiça para ir malhar ou 20 dias saudáveis sabendo que o melhor da vida é comer um pastel de feira toda semana.

Foi então que eu entendi que o projeto #100diasdeamorproprio era passar 100 dias sendo eu mesma.

Passei 100 dias da minha vida postando algum momento do meu dia. Um dia estava feliz e postava minha felicidade, outro dia estava triste e postava minhas lágrimas; um dia estava me sentindo linda e postava toda minha beleza e outro dia estava me sentindo péssima atrás de um pacote de biscoitos recheados e eu postava o biscoito. E vivendo esses dias do projeto fui descobrindo dentro de mim um amor pela pessoa que sou, do jeito que sou.

Claro que quero melhorar, mas aprendi que sou quem eu quero ser e não o rótulo que publicam por aí. Descobri que amo meu corpo, por isso quero cuidar dele; que amo meu cabelo, por isso quero sempre estar penteada; que amo estar sempre bonita e arrumada.

Eu também aprendi que amor-próprio não é amar somente seu exterior e sim seu interior. Amo ser sincera, amo ser honesta, amo ser educada, amo ter amor pela minha vida. Aos #100diasdeamorproprio o meu obrigada por me ensinar a me aceitar como sou.

Eu quero ser assim: normal, alegre, triste, bonita, feia, gorda, saudável, não saudável, brava, bem-humorada. Porque a vida é curta para não ser vivida.

Juliana Andrade

Ju, eu é que te agradeço pelo depoimento lindo. Realmente, tudo começa pela autoaceitação e você explicou isso aqui de uma maneira única.