Quando fazer dieta vira doença

Eu comi demais

Foi aqui na Holanda que eu comecei a desconfiar que tinha algo de errado comigo. Eu não tinha mais cabeça para pensar na minha vida, carreira, relacionamento ou família. O meu único objetivo  era alcançar o peso que eu considerava ideal para então poder pensar no resto.

Muitas de vocês me perguntam como foi que eu descobri que estava com bulimia e qual foi a minha experiência seguindo o tratamento aqui. Foi pensando nisso que eu resolvi gravar três vídeos contando desde o começo como foi o passo-a-passo da minha recuperação.

A minha experiência foi muito positiva, mas tenho conhecidas que seguiram o mesmo tratamento e não gostaram da metodologia nem aprovaram os resultados. Então se você ou alguém próximo ainda não encontrou um tratamento que tenha funcionado, não desista.

Ame-se que o resto vem, até o emagrecimento!

Eu sei que pode parecer difícil combinar amor-próprio com emagrecimento, mas este relato da Leilane veio para mostrar que está na hora de começarmos a abordar a perda de peso de uma outra maneira.

Hoje o relato é uma inspiração contra os pensamentos sabotadores que podem surgir em relação a quem somos. É um grito de libertação dos comentários que nos oprimem e das críticas que não constroem.

Com vocês, a Leilane:

Minha “briga” com o peso começou bem cedo, sempre fui uma criança gordinha e que gostava de comer e comia de tudo numa boa (incluindo muitas frutas e legumes), até que, não sei bem ao certo quando, resolveram “descobrir” o meu peso na escola, e ai começaram os apelidos, as chacotas, as ofensas (e que ofensas!), e à medida que eu crescia só pioravam. Como menstruei cedo, eu criei corpo muito nova, o que era ainda pior. Na família, as críticas eram mais suavizadas (ou não), mas vinham com força, e, sempre tinha um parente, um parente de um parente, pra julgar meu corpo, pra fazer terrorismo, pra dizer que precisava de dieta, que estava enorme e por ai vai.

E, foi assim que, antes mesmo dos dez anos, comecei a odiar o meu corpo, odiar ser como eu era, odiar gostar de comer, odiar a hora do recreio (onde eu iria ouvir que comia lanche de “pobre” (leia-se frutas e biscoito cream cracker) e ainda era gorda, ou, quando, eventualmente, comprava na cantina que era por isso que eu estava gorda, ou ainda que eu iria rasgar a trave com meu chute, ou tapa-la toda caso fosse goleira, ou secar a piscina já que era uma baleia). Eu, que já era uma criança extremamente tímida, me fechei ainda mais, e, sai dessa escola aos onze anos com uma única amiga, também gorda, e, que também sofria o mesmo bullying. Simplesmente não entrava na minha cabeça de criança por que aquelas pessoas estavam falando aquilo pra mim se eu não tinha feito ou dito nada pra elas, e, assistia a tudo aquilo passiva, engolindo o choro, engolindo a dor, e fingindo que não era comigo ou dando um sorriso amarelo, e, aos poucos fui começando achar que merecia ouvir tudo isso por ter o corpo que tinha (hoje eu sei que não, não merecia).

Eis que aos 11 anos me surge “a solução de todos os meus problemas” (not), fiz uma dieta bem restritiva, com uma nutricionista que deixou bem claro pra mim que eu só tinha duas opções na vida: ser gorda ou estar de dieta. Daí, resolvi deixar de ser gorda e entrar de dieta, e virei um general da dieta, não podia sair um grama, não podia deixar um dia de fazer minhas atividades, não podia tomar suco de laranja (mas coca zero podia, sim isso mesmo, era o que dizia a dieta), não podia comer salada de frutas (que, era, inocentemente, minha sobremesa preferida), pois era menos calórico uma fruta só, e, a salada de frutas virou meu prêmio de consolação quando queria comer um bolo de chocolate ou outra delícia do tipo e a dieta não permitia. CALORIAS. Descobri a palavra calorias, que me persegue até hoje. Mas, enfim, após três ou quatro exaustivos meses perdi 18 kg, e atingi um tão sonhando corpo magro, mas na verdade, era só o início de todos os meus problemas. Não me sentia bem com meu corpo, não queria parar a dieta, cheguei até a ficar um pouco abaixo do peso.

Minha adolescência foi toda nessa paranoia de não poder engordar, de não poder comer, de não poder sair da dieta em nenhuma hipótese.

Deixei de comer chocolate, bolo, doces, salgados, pipoca e várias outras coisas que amava e que não. Tinha que ir jantada pra festas pra não cair em tentação, não me permitia um único brigadeiro, um único pãozinho de queijo. E, ai começaram as compulsões, geralmente, perto da época das provas que eu justificava pela ansiedade. E quando passavam entrava em uma dieta de rigor ainda pior, diminuía todas as minhas refeições, deixava de lanchar, comia coisas que não queria e não gostava só porque eram menos calóricas.

Fui levando esse ciclo vicioso até mais ou menos os 17 anos, quando chegou a época do vestibular, e, a tensão foi o ano todo, daí comecei a engordar (nem engordei tanto, analisando hoje, apenas saí do mínimo de peso considerado normal pra mim e fui para o máximo), mas as cobranças da família em cima de mim foram enormes, depois que eu passei, eu TINHA que emagrecer de qualquer jeito, agora não teria mais justificativa pra meu peso.

Eu tinha passado no curso que eu queria, pra faculdade que queria, e não conseguia ficar bem por conta do meu corpo, não podia curtir minhas tão sonhadas férias pois estava de dieta, já que precisava voltar para meu menor peso a qualquer custo pra ser digna de estar feliz. Simplesmente não me aceitava daquele jeito.

Ao mesmo tempo em que eu sentia a liberdade de voltar a comer todas aquelas coisas que amava e de comer na hora que eu estivesse com vontade e não na hora que a dieta dizia, eu me punia por ter engordado, por não ter voltado pra disciplina e rigor de antes.  E iniciava dietas toda semana, que acabavam na terça ou na quarta, e eu terminava a semana comendo descontroladamente. Me punia, me culpava, me odiava e começava uma outra dieta, e, o ciclo se repetia. Isso foi me frustrando, me destruindo, acabando com minhas forças.

Chegavam momentos que eu simplesmente desistia e achava que nunca ia conseguir e, por isso, poderia comer como uma descontrolada, já que ia ser gorda mesmo. Aí arranjava uma dieta da sopa, sofria por uma semana, na outra comia o dobro. E foi assim durante toda a faculdade. Cheguei a tomar sibutramina, que controlou minha fome por um mês ou dois, mas no outro a compulsão voltou com o triplo da força. Sem falar nas milhares de atividades físicas e academias que eu odiava, mas iam me fazer secar o mais rápido possível. E o resultado de tudo isso foi que ao final da faculdade eu estava com 40 kg a mais. Fazer essas contas e falar isso abertamente foi muito difícil pra mim.  

Tentava me consolar pensando que como já era adulta não ia sofrer toda aquela enxurrada de agressões gratuitas como na escola. Ledo engano. As agressões vieram, e, vieram piores. Da menina disciplinada e exemplar da família e dos amigos eu passei a ser a gorda desleixada e irresponsável.  E ouvia críticas de todos os lados, de todas as pessoas, próximas, distantes, da família, de fora da família, de amigos, de não amigos, conhecidos, desconhecidos. Enfim, sempre tinha alguém para me dizer (como se isso fosse preciso) que eu estava gorda, que eu não estava bonita, que eu era horrível. E os elogios recebidos sempre eram acompanhados de um “se”, um “apesar”, um “até que”, um “porém”, um “quando”. Simplesmente não era digna de receber um elogio genuíno, sem que ao final, ou no início, a pessoa acrescentasse a palavra gorda/fortinha/cheinha como ressalva.  

Chegou um momento em que a sensação que eu tinha era que as pessoas,  simplesmente, tinham deixado de me enxergar e só viam a minha gordura, o meu peso. Tudo girava em torno do meu peso e do meu emagrecimento, pessoas me interrompiam em conversas que não tinham nada a ver para dizer que eu precisava emagrecer.

Se eu quebrava o pé, de alguma forma parava no meu peso, se eu ia ao médico tratar da unha o problema era por causa do peso, se tinha TPM era por causa do peso, se o cabelo não estava em um dia bom, não tinha outra, o peso.

Sem falar nos olhares e caras de nojo para mim, não foram poucos. E o velho e irritante discurso machista de que “se fosse homem gordo, tudo bem, mas mulher, como pode?” (como se problemas de peso tivesse gênero). E, como eu fazia para suportar todo esse protagonismo do meu peso? Comia escondido. Sim, a comida não me julgava, a comida não falava que eu tinha que fazer o última dieta da moda, a comida simplesmente me dava um conforto rápido e imediato, sem julgamentos, sem repreensões, mas como nem tudo são flores, trazia  uma consequência enorme: eu engordava ainda mais e vinha a culpa, pra me deixar pior. Maldita culpa.

E era mergulhada nessa culpa que eu me punia, que eu (novamente) achava que merecia ouvir tudo aquilo que estavam dizendo pra mim, toda aquela falta de respeito e de sensibilidade, revestidos de ajuda e preocupação com a saúde. Até que no auge dos meus 23 anos e no ápice do meu peso, eu fui em uma endocrinologista para tratar de um suposto problema hormonal (por um segundo tive esperanças que todo esse dilema com a balança não passasse de um problema hormonal e tudo se resolveria em um passe de mágica, mas não foi), enfim, estava eu lá sentada de dedinhos cruzados esperando ela me dizer que eu era uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer segundo,  eis, que ela me surpreende falando o que eu precisava ouvir a vida toda: (pausa dramática) SUA SAÚDE ESTÁ ÓTIMA (pausa dramática) SEUS EXAMES SÃO MELHORES QUE QUALQUER MAGRA QUE ESTEVE AQUI (pausa dramática) e por fim a BOMBA: MESMO QUE VOCÊ NÃO PERCA UM GRAMA, NÃO TEM PORQUE SE PREOCUPAR, PROVAVELMENTE NÃO TERÁ PROBLEMA DE SAÚDE NEM EM DEZ ANOS, TENTE COMER MAIS SAUDÁVEL E FAÇA ATIVIDADES FÍSICAS QUE VAI EMAGRECENDO AOS POUCOS SEM PRESSA, VOCÊ É JOVEM TEM VÁRIAS POSSIBILIDADES DE EMAGRECER ANTES DE COGITAR CIRURGIA (uma tia maluca tinha me sugerido uma bariátrica, sem saber nada da minha saúde, sem ser médica, muito menos especialista, pelo simples fato de que eu estava gorda, ainda me disse que era por causa da minha saúde e não por estética).

E essas palavras da endocrinologista ficaram ecoando na minha cabeça, e, quando eu vi eu tinha tirado um peso enorme das minhas costas, eu não precisava emagrecer pra ontem, eu não ia morrer amanhã se não fizesse uma dieta para emagrecer tudo em dois meses ou menos, eu não era nenhuma aberração por ter aquele peso. E foi ai que eu estabeleci três propósitos na minha vida: me aceitar e me amar do jeito que eu era tentando manter o peso, começar a viver agora e não deixar para quando emagrecesse e, por último, não deixar ninguém me colocar pra baixo ou me fazer sentir mal com o meu corpo. E assim iniciei um processo longo, doloroso e bonito.

Procurei uma nutricionista nessa mesma linha que eu chamo “da paz”, que não viu problema em eu comer um pedacinho de chocolate todos os dias depois do almoço, o que no final das contas “curou” minha compulsão por chocolate, hoje consigo habitar o mesmo cômodo que ele sem correr o risco de devorá-lo em dois segundos, nem sinto vontade mais de comer todos os dias.

Passei a me impor, a não aceitar conselhos fajutos ou supostas preocupações com a minha saúde. Quem sabe do que eu como ou não sou eu, quem tem que gostar do meu corpo sou eu, quem cuida da minha saúde também sou eu.
 

E, finalmente, entendi que não merecia ouvir nada do que ouvi, eu mereço ser tratada com respeito, com cuidado, com dignidade, com sensibilidade não importa o meu peso.

E foi assim, com idas e vindas, com altos e baixos, progressos e retrocessos, que em mais ou menos dois anos e meio eu consegui perder 28 kg. Não foi fácil, mas me trouxe descobertas incríveis, sobretudo, a paixão pelos esportes, hoje pratico atividades que eu gosto, que me dão prazer, que me fazem bem, e, não as que trazem mais gasto calórico.

E o principal disso tudo foi o resgate do meu amor próprio, que havia sido arrancado de mim quando eu ainda era muito nova. Nos últimos meses acabei engordando um pouco e, às vezes, surgem aqueles fantasmas da insegurança, da culpa, da punição e do medo, mas aí eu tento fazer algo que eu goste e me faça bem (além de comer kkkkk) ou corro pro “Brigadeiro de Alface”, pro “Não sou Exposição”, pra página Sophie Deran, e outros blogs do tipo que sempre têm algum textinho pronto pra me fazer sentir bem comigo mesma.

O conselho que eu dou é só um: ame-se, mas ame-se muito, que o resto vem.  

Amor-próprio e emagrecimento

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Leilane, obrigada pelas palavras inspiradoras. A sua história de superação é realmente incrível.

Para quem quiser entrar em contato com a Leilane, pode ser pelo facebook ou enviando um email para lcostamatos@yahoo.com.

 

Comer ou não comer pão?

Com ou sem glúten

A discussão sobre o pão é um tema que divide nações em dois, os que defendem e os que abominam o consumo dele. Há alguns anos atrás o problema do pão era ter muito carboidrato, mas agora parece ser esse tal de glúten. Se você der uma olhada nas gôndolas do supermercado dá para ver que aquela área dedicada aos produtos sem glúten só tem aumentado.

Não conter glúten virou sinônimo de ser saudável, o que abriu mercado para um monte de empresas lançando produtos altamente industrializados, cheios de aditivos químicos e açúcar, mas sem glúten. E acreditem, eles são comercializados como saudáveis.

Eu, como comedora de pão assumida, comecei a ficar intrigada em saber se o glúten é mesmo este vilão que estão pregando ou se é apenas mais uma onda que vai passar, assim como a ração humana também passou. Eu preciso saber se o meu pão de cada dia está acabando com com a minha saúde como andam dizendo.

O glúten ganhou fama de mal especialmente depois do sucesso do livro “Barriga de Trigo” do William Davis. Se você não leu, com certeza já deve ter ouvido falar desse livro. Nele, o cardiologista defende que o glúten é um veneno que causa artrites, asma, esclerose múltipla e esquizofrenia, sem falar na bendita barriga. Foi pensando em se livrar dela que muita gente decidiu cortar o pão e outros produtos com glúten. Tudo em nome de um corpo esguio.

 
Comer pão é saudável?
 

O glúten é uma proteína presente naturalmente em diversos cereais como trigo, aveia, centeio e cevada, e em seus derivados. Ele funciona como uma cola que une todos os ingredientes da massa e dá aquela textura caracterísca do pão e do bolo. É graças a ele que as massas fermentam e crescem.

A gente já consome o glúten há pelo menos 10 mil anos, mas apenas recentemente começamos a nos preocupar com os possíveis riscos dele à saúde. Para quem tem Doença Celíaca - cerca de 1% da população - o glúten pode provocar danos sérios ao intestino delgado. Para os celíacos, eliminar o glúten não é uma questão de escolha mas de necessidade. E tem um outro grupo crescente de pessoas que são sensíveis ao glúten, mas não são celíacas.

Muitas pessoas estão embarcando na ideia de que comer sem glúten é saudável e emagrece, mas será?

 
Comer glúten engorda
 

A verdade é que até agora não há estudos científicos conclusivos de que o glúten não é saudável. Para complicar ainda mais, eles encontraram resultados que começam a indicar que talvez não seja o glúten que cause sensibilidade ou intolerância em algumas pessoas, mas uma série de carboidratos fermentáveis chamada FODMAPs.

 
Glúten faz mal
 

Eliminar o consumo de glúten significa eliminar todos os produtos preparados com trigo, aveia, centeio, cevada e malte. Então aí você exclui pão, bolo, torta, pizza, salgadinhos de festa, massa, cerveja, vodka, achocolatado, bolacha e muitos dos produtos industrializados encontrados no supermercado. Fica fácil entender que eliminando produtos com glúten é uma forma de eliminar produtos com alto teor calórico. Abracadabra!!! O segredo da dieta mágica “sem glúten” foi revelado.

Sem falar que quando alguém decide comer sem glúten mesmo não sendo celíaco, normalmente já está procurando adotar um estilo de vida mais saudável, com mais frutas e verduras. Daí emagrecer é uma consequência lógica.

Mas, por outro lado, é fácil cair na armadilha de que podemos comer mais porque é sem glúten. A gente acaba esquecendo que o bolo sem glúten continua sendo bolo.

 
Comer pão engorda
 

Não há razões científicas para ter medo do glúten.

Todos queremos saber o que é saudável comer, mas eu percebo que às vezes levamos isso muito ao pé da letra e esquecemos de que comer não é apenas ingerir nutrientes.

A sensibilidade ao glúten ou aos FODMAPs é real, mas ela não se encaixa a todas as pessoas. Para quem não é sensível ou intolerante, não há razão para eliminar o glúten da dieta, nem mesmo para perder uns quilinhos. 

As vantagens da onda sem glúten foi a valorização de muitos ingredientes brasileiros que andavam esquecidos, como a tapioca, o milho e a mandioca. A gente também acabou descobrindo como assar usando farinha de coco, de amêndoas, de amaranto e de quinoa - o que foi ótimo -, mas não há motivos para eliminar o pãozinho nosso de cada dia feito com o velho e conhecido trigo.

Comer de maneira variada ainda continua sendo a melhor opção para o nosso corpo e para a nossa mente.

 

Compensar ou Engordar?

Eu só tenho a agradecer os comentários, emails e mensagens que recebo de vocês dividindo as suas histórias, dúvidas e anseios ou dando aquele apoio moral que eu tanto adoro. Meu muito obrigada de coração.

Como recebo muitas perguntas, resolvi responder as mais frequentes em formato de post. Então a partir de agora teremos o "Erika responde" no BdA. Para começar, eu vou responder a uma pergunta das perguntas mais frequentes:

Medo de engordar

Erika responde: Você engordou durante o período de tratamento da compulsão?

Eu sempre fui gordinha desde quando me entendo por gente. Eu não era extremamente grande, mas os pediatras sempre me pediam para emagrecer e o meu peso era uma das pautas do dia nas reuniões familiares.

Como eu não gostava de ser maior do que todo mundo, eu tentei inúmeras vezes emagrecer e obtive bons resultados em algumas das tentativas. Eu emagrecia alguns quilos mas voltava a ganhar o que eu tinha perdido mais alguns quilos extras. A cada ano eu ficava mais e mais pesada.

Quando me mudei para a Holanda estava com 86kg e completamente descontente com a minha aparência. Foi daí que resolvi começar uma dieta restritiva de cerca de 1000 kcal que me fez secar rapidamente.  

Eu fiquei com 66 kg, e foi nesse processo de emagrecimento que os episódios de compulsão começaram a surgir. Como eu compensava os excessos na academia, o meu diagnóstico foi de Bulimia nervosa não purgativa, que é diferente da compulsão alimentar, ou melhor dizendo, do Transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP). Quem tem episódios de compulsão alimentar e não tenta se livrar das calorias ingeridas pode ser diagnosticado com TCAP. No meu caso, eu me esforçava e muito para queimar tudo o que eu tinha comido. Eu já cheguei a explicar o que é exatamente a compulsão alimentar e a diferença entre um episódio de compulsão e o transtorno alimentar. Se você quiser saber mais dê uma olhada aqui.

Quando fui procurar tratamento, o meu maior medo era o de engordar. No centro em que me tratei, haviam reuniões de grupo semanais em que todo mundo tinha que passar pela balança. O momento da balança era motivo para desespero e ansiedade, mas ninguém escapava. Eu me lembro que eles até ofereciam a possibilidade de pesagem cega, quando a terapeuta ia com você para anotar o seu peso sem que você soubesse. Eu nunca cheguei a passar pela pesagem cega, mas o meu coração batia mais forte quanto eu subia na balança.

No tratamento que eu fiz, eu tinha que seguir um cardápio básico alimentar desenvolvido pelo Centro de Nutrição Holandês, que define o que é considerado culturalmente e nutricionalmente como “comer normal”. Nesse cardápio, eu tinha que comer muito mais do que eu estava acostumada na minha dieta.

Eu tinha certeza que ficar mais pesada era um preço que eu teria que pagar para acabar com as minhas compulsões. 

Depois de algumas semanas participando dos encontros semanais eu comecei a ficar tão exausta de comer demais e depois correr para queimar, que a ideia de ficar acima do peso para o resto da vida me pareceu melhor do que uma vida com transtorno alimentar.

Para a minha grande surpresa e aprendizado, eu não engordei um quilo sequer durante o tratamento. Eu comia o suficiente todos os dias, sempre com sobremesa depois do jantar e não engordava.

Durante o tratamento eu entendi que é melhor comer do que se restringir, mesmo para quem quer perder peso. Eu sei que pode parecer loucura, mas é pura matemática.

Quando nos restringimos demais durante alguns dias, acabamos comendo muito mais naqueles momentos em que a nossa guarda está baixa. E acredite, esses dias chegarão.

Funciona mais ou menos assim: é melhor consumir 2000 calorias todos os dias durante uma semana do que 1200 calorias durante 5 dias mais 2 dias com compulsão alimentar.

  • Alimentação equilibrada: 7 dias x 2.000 calorias = 14.000 calorias
  • Restrição + Compulsão: (5 dias x 1200 calorias) + (2  dias x 5000 calorias) = 16.000 calorias

É claro que a necessidade calórica de cada um é diferente e que caloria é uma maneira questionável de avaliarmos o que comemos, mas este foi só um exemplo de como a restrição alimentar pode ser um grande desfavor. 

É verdade que pode haver ganho de peso durante o tratamento, principalmente para quem está abaixo do peso normal ou para quem restringe extremamente o que come, mas isso jamais deve impedir ninguém de tentar melhorar. Para quem tem sobrepeso acontece normalmente o contrário. Assim que as compulsões diminuem, a pessoa emagrece.

Não adianta, o corpo é uma máquina incrível mesmo. O que ele quer é que fiquemos saudáveis estando mais leve ou mais pesada. 

Se tratar a compulsão vale a pena? Sim, vale. Nem que para isso venham os tão temidos quilos a mais. Não há nada mais desconfortável do que ser escrava da comida e da balança.

Para quem quiser saber mais sobre a minha trajetória é só clicar aqui.