Que o amor-próprio jamais tire férias

Uma viagem para o centro de você

Eu passei este fim de semana aqui na cidade do Porto, em Portugal, para comemorar o aniversário desta criatura iluminada com quem eu tive a sorte de me casar, o Matt. Estando aqui foi impossivel não relembrar momentos marcantes que eu passei neste país.

No mosteiro dos jerónimos

No mosteiro dos jerónimos

Há exatos três anos, o Matt me surpreendeu com uma viagem inesperada à Lisboa, a cidade preferida dele no mundo inteiro. Eu fiquei sabendo da viagem um dia antes de embarcar e me bateu um misto de excitação e desespero. Como assim eu tinha uma viagem e ninguém havia me preparado psicológicamente para isso? Eu nem havia preparado o meu corpo para a viagem como eu sempre fazia. De repente bateu um desespero de ter que viajar com o meu corpo do jeito que ele estava, com o peso que eu tinha e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar a situação. Simplesmente não havia tempo para emagrecer antes da viagem.

Eu me esforcei para não pensar muito sobre o assunto e embarquei na aventura. Chegando em Lisboa, cada espelho que eu via e cada foto que eu tirava me relembravam de que eu estava maior do que eu gostaria. Eu havia engordado alguns quilos semanas antes e foi difícil não ficar pensando na minha gordura durante a viagem.

apaixonada por lisboa

apaixonada por lisboa

Entre prédios históricos e pastéis de Belém eu checava o ossinho do meu colo para confirmar que ele estava mesmo afundado em tecido adiposo. Eu me esforcei para me sentir bem em um tubinho preto, mas tudo que eu conseguia pensar é que seria tão maravilhoso se eu estivesse mais magra.

Estando aqui de volta a Portugal eu gostaria de poder dizer àquela Erika de três anos atrás que ela deveria aproveitar cada minuto da viagem porque ali ela seria surpreendida com um pedido de casamento no Miradouro da Nossa Senhora do Monte. Eu queria fazê-la entender que ela continuaria sendo amada pelos amigos, familiares e pelo Matt independente de quanto pesasse, mas que ela tinha que começar a se amar para enxergar tudo isso. 

minutos antes do pedido de casamento

minutos antes do pedido de casamento

Naquela fase da minha vida era difícil acreditar que chegaria o dia em que eu me sentiria bem comigo mesmo sem ter o corpo que eu considerava ser ideal. 

A realidade é que não precisamos ser de determinada forma ou ter o corpo de tal jeito para gostarmos de quem somos. É possível se amar verdadeiramente e aproveitar cada momento mesmo não tenho a vida ou o corpo ideal.

A viagem do amor-próprio não acontece de fora para dentro, mas de dentro para fora. Repito. De dentro para fora.

Se você engordou, deixou de emagrecer ou ganhou marcas no corpo que são difíceis de aceitar, lembre-se de o único requisito para começar a se amar é que você esteja viva.

Hoje, a nova Erika daqui do Porto não pode mais falar com aquela de Lisboa, mas eu posso falar com você. Aproveite a sua viagem hoje, independente do seu destino e independente do seu corpo. Você já está é ideal com todas as suas imperfeições, então viva e aproveite. É o que eu estou fazendo.

Aquele medo de sentir fome

Eu preciso comer ou....

É incrível perceber o quanto a minha alimentação melhorou nos últimos tempos e isso é, com certeza, algo a ser celebrado diariamente. Cada vez estou mais consciente do tipo e da quantidade de alimento que eu preciso e que eu gosto de ingerir em diferentes horários do dia. Cada vez estou mais tranquila em relação ao que comer sem me sentir culpada e ou deixar de comer sem me sentir coitada.

medo de sentir fome

Essa consciência tem levantado questões que eu pensei já estarem resolvidas, mas aqui vai mais um exemplo de que sempre estamos aprendendo. Tudo começou em 2012, quando passei a notar que a minha necessidade de sentir o estômago cheio o tempo todo tinha muito mais a revelar do que eu imaginava. A verdade é que eu fazia de tudo para não ter jamais que sentir o meu estômago roncando. A verdade é que tinha medo de sentir fome.

Eu sei que é irracional, mas o meu estômago vazio representava de certa forma uma ameaça à minha pessoa. Enquanto muita gente adora começar o dia com um café da manhã refrescante e levinho, a minha preferência sempre foi por algo com muita sustância. Não que isso seja uma escolha equivocada; gostar de comer muito não significa necessariamente que alguém sinta medo da fome, mas no meu caso foi o primeiro sinal identificado.

Eu comecei a perceber que o desconforto da fome era um sentimento que eu não sabia direito como lidar e, sinceramente, que ainda estou aprendendo. Na realidade, nós podemos passar a vida inteira sem nos dar conta que evitamos sentir fome, mas as consequências dessa fuga podem ser sentidas na balança e no nosso comportamento.

Foi quando me tratei da Bulimia não purgativa que eu tive o primeiro contato com o meu receio em ficar faminta. Nós éramos um grupo de sete pessoas que se reuniam todas as semanas para conversar sobre a nossa dificuldade em lidar com a alimentação e com o corpo. Haviam pessoas que tinham pavor de sentir o estômago cheio e outras que tinham pavor de sentir o estômago vazio. Eu fazia parte dessa última categoria.             

Coisas que só quem tem medo da fome entende:                         

  • Quando eu sabia que o intervalo entre as refeições seria grande, eu comia bastante para evitar ficar faminta.                             
  • Quando o meu estômago pensava em reclamar, eu parava imediatamente o que estava fazendo para ir comer, mesmo se eu soubesse que a próxima refeição não demoraria a chegar.                             

  • Quando eu comia na casa de alguém e a quantidade não era suficiente, eu ficava ansiosa e irritada. Era só eu chegar em casa para compensar a pouca quantidade ingerida.                             

  • Quando o estômago roncava eu não conseguia me concentrar em mais nada. O pensamento era um só: “eu preciso comer”.

Muitas pessoas conseguem passar o dia sem se alimentar, mas o meu problema era outro. Eu podia passar o dia inteiro me alimentando sem jamais ter que lidar com o desconforto da fome. Em dias de festas, como Páscoa, Natal ou Ano Novo, eu era capaz de passar o dia inteiro comendo um pouco aqui e ali sem nem ao menos esperar o meu estômago esvaziar. 

Ficar com fome é até hoje algo que me incomoda. Eu fico mal-humorada, irritadiça e com dor de cabeça, mas fora isso não é uma sensação de forma alguma perigosa para o meu corpo. Para quem não tem nenhuma condição médica que requeira mais cuidados, como pressão baixa, diabetes ou hipoglicemia, ficar alguns minutos ou horas com fome não deveria ser motivo para preocupação, certo? Certo, mas ao mesmo tempo errado.

Para sobreviver nós somos programados a evitar todo tipo de desconforto, seja ele físico ou psicológico, o que é bem compreensível. No entanto, o nosso cérebro nem sempre consegue identificar qual desconforto realmente representa um risco, e é aí que a fome entra. Mesmo que saibamos que ficar uma hora faminta não irá colocar a nossa vida em risco, reagimos à fome como se ela fosse uma ameaça real.

Estar com fome é apenas um sinal de que precisamos de alimento e não um alarme de que algo ruim está para acontecer, assim como também sentimos o sinal de sede, calor e frio. Aprender a lidar com a fome de maneira saudável pode parecer bobagem, mas evita que fiquemos ansiosas em situações em que alimentos não estão disponíveis.

Conseguir esperar pela próxima refeição deveria ser algo tão natural quanto esperar encontrar um banheiro para fazer xixi. Não é uma situação agradável, mas todo mundo é capaz de passar por isso sem grandes embaraços.

Ficar o tempo todo faminta não é saudável, mas ficar o tempo todo cheia também não é. E assim continua a nossa busca por equilíbrio.