Quando ser gorda é rebeldia contra os padrões

> O 1º post da série "Quando ser gorda..."

 

Eu sempre fui muito boa em arrumar desculpas para não emagrecer.

Eu acreditava piamente que todos deveriam me aceitar como eu sou, independente do meu peso. E, sinceramente falando agora, eu admito que estava completamente certa. Todos devem ser aceitos independente do quanto pesam. Ponto!

Mas no meu caso, o peso extra era também uma forma de rebeldia contra o mundo. Eu ficava e ainda fico enauseada com todo este blá-blá-blá em torno do corpo perfeito, vida perfeita, homem perfeito e casa perfeita. Afinal, quando é que vamos superar a lavagem cerebral dos comerciais da Doriana e dos contos de fadas da Disney? Não, família Doriana não existe. Não, princesas brasileiras não existem, e as européias estão lutando contra bulimia, anorexia e rugas.

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Mas voltando à minha rebeldia, eu usava o peso quase como uma afronta às pessoas. Eu sabia que eu estava acima do peso, mas cada vez que alguém fazia algum comentário sobre o meu recheio extra, eu acabava comendo ainda mais.

Eu odiava aquela ideia toda ao redor do corpo sarado, das petit tipo Sandy e das gostosas paniquetes. Eu era grande e estava muito bem, obrigada!

E assim eu exibia graciosamente a minha rebeldia em decotes e vestidos. Ao invés de me esconder em casa evitando me socializar, eu saía com amigos, ía à festas e me permitia fazer tudo o que eu queria. Meus amigos me adoravam e muitos deles eram homens.

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Eu podia ser eu mesma - engraçada, espalhafatosa, barulhenta e energética, e não tinha que me preocupar em ser bonita ou sexy.  Estar livre de toda esta pressão era maravilhoso, e era um alívio não ter meus amigos me vendo como uma mulher atraente e desejável, porque eu era muito mais do que isso. Saber que eles me admiravam pela pessoa que eu era, e que não estavam interessados em mim como homens, era meu ideal de amizade; e eu me sentia segura e aceita daquela forma.

Mas por mais que eu tenha tentado manter a ideia de que eu era assim - gorda, segura e feliz, chegou o momento em que eu comecei a perceber que as coisas não funcionavam desta maneira. Eu queria sim ser eu mesma e ter meus amigos ao meu redor, mas eu também queria me sentir desejada e ter homens interessados em mim; mas não os meus amigos. Eu não sabia direito como lidar com a minha sexualidade e com o conflito interno de querer e não querer ser sexy.

Além disso, eu comecei a imaginar como seria usar as roupas que eu queria e não aquelas que o meu corpo permitia. A ideia de não ter mais que murchar a barriga para tirar foto e de ir à festinhas e ser capaz de comer apenas alguns docinhos também começou a me intrigar.

Eu percebi então que estava ficando cada vez mais difícil combinar os meus desejos e a minha sexualidade com o querer continuar sendo quem eu era - e ser quem eu era era ser gorda. E, ainda por cima, tinha toda a minha rebeldia contra os padrões impostos.  Ser magra ia contra tudo o que eu acreditava.

Na infância começamos a desenvolver a nossa identidade e, no meu caso, ser gorda fazia parte da minha. Quando isso acontece, não sabemos mais como lidar com tanta contradição na nossa cabeça em querer e meio que não querer emagrecer.  A partir do momento em que você se identifica como sendo gorda e constrói toda uma existência em torno dessa crença, não há dieta no mundo que consiga mudar como você se sente. Nem ao menos ser magra muda o fato de você se sentir gorda.

Quando decidimos conscientemente nos libertar dessa crença é que estamos prontas para perdoar tudo o que passou e seguir em frente. Esse é o primeiro de todos os passos!

E há melhores formas de se rebelar contra os padrões, contra os pais ou contra o parceiro, do que prejudicar a sua saúde, enchendo o seu corpo de açúcar, sal e óleo. Essa rebeldia autodestrutiva é como aquela história de tomar veneno e esperar que o outro morra.