Quando ser gorda te protege sexualmente

> O 2º post da série “Quando ser gorda..."

Todas nós sabemos e sentimos o que é viver em uma cultura obsessiva com o tamanho e o com o formato do corpo feminino, onde o ser gorda ou magra é considerado como expressão máxima do valor das mulheres, em vez de uma descrição da relação entre a gordura e massa corporal magra.

Mas a ideia de que ser magra é bom, e de que ser gorda é ruim, é bem mais complicada do que pensamos. Muitas vezes, inconscientemente, nos sabotamos para mantermos o corpo acima do peso porque, afinal, isto não é de todo ruim; e eu explicarei porquê.

Uma das grandes vantagens da gordura é estar protegida sexualmente. Muitas vezes, quando estamos cheinhas, evitamos lidar com a nossa sexualidade e com todos os desconfortos que isso pode causar. Nós nos libertamos da pressão pública em sermos sexy e desejadas e escolhemos ser reconhecidas por outras qualidades. E comigo não era diferente, como eu já expliquei anteriormente.

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Se por um lado queremos ser a mulher mais sexy da festa, por outro, é assustadora a ideia de estar mais exposta a olhares, comentários e investidas masculinas. E nessas horas, é um alívio não termos que nos preocupar em dar um fora em alguém ou sermos rudes, já que estamos fisicamente protegidas de todos esses contratempos. O nosso corpo acaba sendo a maneira mais confortável de dizer “NÃO”.

Não, eu quero mais do que uma noite.

Não, eu não estou disponível.

Não, eu sou muito mais do que um objeto.

A ambiguidade do meu desejo em ser magra e atraente me sabotou por anos. No fundo, eu acreditava que os homens deveriam se apaixonar por quem eu era e não pela minha aparência; que as mulheres deveriam gostar de mim pela minha personalidade e não pela minha aparência; e que as minhas conquistas profissionais deveriam ser baseadas na minha competência e não na minha aparência. A única forma que eu tinha para me assegurar de que eu seria vista como uma pessoa, era não sendo atraente. Mas o custo das minhas escolhas inconscientes foi alto para a minha saúde e para a minha autoestima.

O lado ruim disso tudo é que os quilos extras não afastaram homens que só queriam me usar, tampouco fizeram com que todas as mulheres me aceitassem e gostassem de mim, e não me protegeram da decepção em vivenciar que, às vezes, ser competente não é o suficiente no ambiente de trabalho.

E nessa confusão toda, a mídia não ajuda nem um pouco.

Nós nos deparamos frequentemente com a sexualidade feminina exibida na televisão, na internet e no cinema. Elas estão por toda a parte: servindo uma cerveja gelada de biquíni, em salto agulha e batom vermelho admirando o carro importado do homem bem-sucedido, na capa da revista ensinando as 10 maneiras de levar um homem à loucura, e assim vai. A realidade é que a mídia não deteriora  apenas a autoimagem e a autoestima da maioria das mulheres, mas também a imagem que as outras pessoas têm das mulheres. E assim somos reduzidas a objetos físicos utilizados pelo publicidade para dar lucro a grandes organizações. Como diz John Berger, no livro Modos de Ver (Ways of Being):

"Os homens agem, as mulheres aparecem. Os homens olham as mulheres. As mulheres se veem sendo olhadas. Isto determina não somente quase todas as relações entre homens e mulheres, como também a relação das mulheres consigo mesmas... O seu próprio sentido de ser é substituído pelo sentido de ser apreciada pelo outro."

Tudo bem, eu concordo que muitas mulheres querem ser olhadas, e não há nada de errado nisso. Em algumas situações eu também quero ser admirada pelo meu look. Mas o que devemos fazer com o restante do tempo em que a aparência não deveria ser relevante? Será que temos que negar a nossa sexualidade para sermos vistas como cidadãs?

Eu acredito que não. Eu acredito que podemos viver plenamente e abraçar a nossa sexualidade se começarmos a falar o que não queremos ou invés de comer.

Entre usar a boca para dizer NÃO e usar a boca para COMER, fique com a primeira opção.

Emagrecer também traz consigo apreensões em não saber se seremos vistas como pessoas inteiras ou se seremos vistas apenas pelas nossas qualidades sexuais. Afinal de contas, tudo o que queremos é ser admiradas por quem somos e pelo que criamos, estando ou não acima do peso.