Ser gorda e a relação entre mãe e filha

A relação entre mãe e filha tem muito a dizer sobre a nossa relação com a comida

Eu cresci em uma família onde comida estava ao redor de todo e qualquer acontecimento. Era com comida que a gente celebrava e era com comida que a gente se amava. Era com comida que a gente chorava e era com comida que a gente se frustrava.

Com mamãe cozinhando divinamente, a união da família era certa. Era ela quem colocava todas as peças do quebra-cabeça familiar juntos à mesa, e todas as diferenças eram dissolvidas em um prato de frango ensopado. O cheio do coentro borbulhando no caldo cor de caramelo de mamãe ainda me lembra o amor.

Foi de mamãe que recebi o primeiro alimento, o primeiro carinho, o primeiro afago. Foi ela quem secou minhas lágrimas e me ensinou muito do que eu hoje sei. Foi ela quem trabalhou duro para assegurar que a minha vida fosse a mais confortável possível e foi com ela que eu descobri as maravilhas da cozinha.

Para nós, mulheres, o papel da mãe nas nossas vidas é muito mais determinante do que acreditamos. A mãe é o nosso primeiro modelo de mulher, é a nossa introdução ao mundo feminino. O trabalho dela é ser a nossa fortaleza, nos protegendo e garantindo que creçamos em um mundo seguro e confiável. Trabalho duro, eu sei, mas é isso o que se espera de uma mãe ideal.

Bem, o que esquecemos muitas vezes é que a "mãe ideal" é um conceito tão irreal quanto a "mulher ideal" ou o "corpo ideal". Aliás, todo conceito que envolve a palavra “ideal” deveria ser considerado uma farsa, um conjunto rígido de idéias que nos aprisionam e nos distanciam de sermos quem realmente somos. E com as mães não é diferente; antes de serem mães, elas são humanas, são mulheres e são errantes. Mas nós ainda queremos acreditar que mãe é um ser à parte, uma categoria diferente de ser humano que adquiriu de maneira misteriosa aspectos divinos ao nos dar à luz.

Crédito: Julie Nicholls

A realidade é que elas também tiveram que enfrentar as dificuldades que ainda enfrentamos em ser mulher. Há grande chance de que elas também tiveram que andar com cuidado, falar com cuidado e se portar com cuidado para que fossem aceitas. Elas tiveram sonhos que se realizaram ou não, elas se decepcionaram, abriram mão de algumas coisas e conquistaram outras, e foram mães.

A vida não parou quando essas mulheres se tornaram mães, elas tiveram que continuar sendo esposas, companheiras, empregadas ou empregadoras, filhas, irmãs, colegas e vizinhas. Ser mãe foi apenas um dos muitos papéis que elas exerceram, e não houve nenhum manual pronto entregue na maternidade explicando como nos criar. Elas tentaram da melhor maneira que puderam, com todas as ferramentas que tinham e, meio que acertando e errando, aqui estamos.

O resultado do erro e acerto é que muitas relações entre mães e filhas podem ser um tanto conflitantes, envolvendo culpa, dependência, inveja ou aversão. O comer compulsivo ou o excesso de peso podem ser uma resposta à opressão que sentimos vivendo em uma cultura sexista, como eu já havia escrito aqui, ou uma maneira de dizer não às investidas masculinas, como explicado aqui, mas muitas vezes a causa está na relação complexa existente entre mães e filhas.

Crédito: Monica Blatton

O meu objetivo aqui não é procurar culpado para a nossa relação muitas vezes conturbada com a comida, longe disso! O meu objetivo é relatar que o fato de você temer a comida ou a balança tem pouco a ver com a dieta, e muito mais a ver com a maneira como você se relaciona com as pessoas, com o mundo e com você mesma. E a relação com a sua mãe é parte fundamental desta equação.

Talvez a sua mãe tenha sido uma criança e uma adolescente feliz, com abertura para expressar o que ela pensava e sentia. Talvez ela tenha sido ouvida, entendida e estimulada a atingir o potencial máximo dela como ser humano e como mulher, mas talvez não.

Não podemos esquecer que as nossas mães também são mulheres assim como nós. Mulheres que seguiram ou seguem dietas, que tentam ou já tentaram transformar o corpo de alguma maneira, que olham no espelho e têm dificuldade de aceitar o envelhecimento, que leem revistas e livros buscando ser melhores: melhor mãe, melhor mulher, melhor profissional, melhor amante, melhor cozinheira. Elas também foram e ainda são bombardeadas com especialistas as dizendo o que fazer, como fazer e quando fazer. E tudo ao redor só enfatiza o quanto elas são inadequadas.

Crédito: Joana Carvalho

Se você está se perguntando porque eu não estou citando os pais aqui, eu explico: como ainda vivemos em uma sociedade patriarcal, você provavelmente foi alimentada pela sua mãe e não pelo seu pai. Foi dela que você recebeu o primeiro alimento, e foi com ela que você aprendeu a comer. Foi olhando os hábitos alimentares dela que você foi desenvolvendo os seus. De uma maneira ou de outra, a sua mãe influenciou a forma como você vê o alimento hoje.

A psicanalista e escritora Susie Olbach, autora do livro “Gordura é uma questão feminista” descreve:

“A compulsão alimentar se torna um meio de expressar os dois lados do conflito. Ao comer em excesso, a filha pode estar tentando rejeitar o papel da mãe e, ao mesmo tempo, estar lhe censurando pela criação deficiente que recebeu; ou ela pode estar tentando manter um sentimento de identidade com a mãe”.

Crédito: Amanda Olson

Quando a minha mãe relata o convívio que ela tinha com a minha avó, eu consigo visualizá-las na cozinha conversando enquanto cozinhavam, e cozinhando enquanto conversavam. E foi com toda essa paixão e entusiasmo na cozinha, que mamãe me educou. As minhas recordações da infância remetem aos domingos passados ao lado do fogão, preparando doces e salgados, descobrindo novas receitas, saboreando, comentando sobre o cheiro e as texturas, e nos amando.

Era assim que comunicávamos, e isso vai estar sempre guardado em mim. Hoje, consciente disso, consigo disassociar a comida do sentimento, e olhar com carinho para o meu passado, sabendo que

Comer e amar são verbos diferentes e devem ser conjugados separadamente.