Quando a compulsão alimentar te leva às compras

Como comprar alimentos para comer compulsivamente

Eu estava voltando depois de um daqueles dias frustrantes de trabalho em que teria sido mais proveitoso passar o dia de pijama em casa assistindo televisão, mas fazer o quê? Às vezes não nos resta opção melhor do que a de passar o dia fingindo que estamos trabalhando, mesmo que isso seja mais cansativo do que o trabalho em si. Apenas uma das muitas contradições da natureza humana.

Quando subi na bicicleta pronta para ir para casa, o cansaço de fim de tarde combinado com a frustração de um dia improdutivo foram capazes de provocar uma fome incontrolável. Antes mesmo de começar a pedalar, eu estava salivando ao imaginar o rocambole macio com recheio amanteigado de chocolate e coberto com grânulos de açúcar cristal derretendo na minha boca. Apenas o pensamento sobre o gosto do rocambole já me trazia a calma e a concentração necessária para começar a noite. A partir daquele momento, o meu único objetivo era sair em busca da sensação de calma, ou melhor dizendo, do rocambole.

Aquela não era uma vontade qualquer de comer doce, eu estava em busca de muito mais.

É fácil saber a diferença entre a vontade de comer e o começo de um episódio de compulsão alimentar - basta prestar atenção nos seus batimentos cardíacos para saber do que se trata. Quando a compulsão surge, você é tomada por ansiedade e os batimentos ficam acelerados. É como se a vida se resumisse a comer e você sai em busca disso como uma caçadora profissional, bolando estratégias, histórias e mentiras a serem contadas para conseguir devorar a sua presa sem que ninguém desconfie. Isso é um episódio de compulsão, não é apenas vontade de comer.

Eu já postei um vídeo explicando o que pode ser feito para parar um episódio de compulsão alimentar, se você perdeu é só clicar aqui.

Às vezes a compulsão é por um alimento específico, outras vezes é por qualquer alimento que esteja ao nosso alcance. Nos dois casos, o que há em comum é que quantidade é muito mais importante do que qualidade. Não importa se o doce foi bem preparado ou se está saboroso, o importante é que haja muito doce para ser degustado. Se a quantidade for mais importante do que a qualidade, então é um episódio de compulsão alimentar.

Tem vezes que a compulsão surge na rua, no carro ou no ônibus e nos sentimos obrigadas a sair em busca de comida. Para quem leu até aqui e está pensando que é só controlar a vontade, parabéns… o seu caso não é um episódio de compulsão alimentar. Mas para quem acha impossível não parar no supermercado, padaria ou doceria para acalmar aquele mal-estar, eu tenho ótimas notícias, continue lendo.

Eu estava salivando pelo rocambole e tentando prometer a mim mesma que não passaria no supermercado para comprá-lo. Eu poderia quase jurar que daquela vez seria diferente, que eu conseguiria ser mais forte do que a compulsão; era só continuar pedalando até chegar em casa e tudo ficaria bem. Mas bastou eu passar em frente ao supermercado para que a ansiedade alcançasse níveis insuportáveis que me fizeram parar e sair em busca do rocambole apesar de todas as promessas feitas anteriormente.

Quando você sentir essa urgência de comprar alimentos específicos para serem consumidos compulsivamente, há certos passos que podem ser seguidos para te distrair do ato de comer. Acredite, essa urgência parece que vai durar uma eternidade, mas pode passar em questão de minutos. O segredo é tornar o episódio de compulsão alimentar um ato consciente, até na hora de comprar os alimentos.

Se a compulsão surgir e você não conseguir resistir de sair em busca de alimento, tente seguir os passos a seguir:

  1. Ao entrar no estabelecimento e encontrar o alimento desejado, reserve alguns segundos para ler tudo o que estiver no rótulo (os ingredientes, a tabela nutricional, o local de fabricação, a data de validade). Se o alimento em questão não for embalado, procure algum outro que seja e siga o mesmo ritual. Este tempo dedicado à leitura da embalagem é fundamental para acalmar os ânimos e dedicar a sua concentração a uma outra atividade. A intenção aqui é fazer você retornar à plena consciência. Veja a leitura como uma meditação: toque o alimento, admire a embalagem e leia tudo, sem culpa e sem julgamento. Você pode fazer isso sabendo que ele está ali ao alcance das suas mãos e ninguém será capaz de te privar do prazer de comê-lo.

  2. Antes de passar no caixa, ande pelo estabelecimento observando o que ele tem a oferecer e preste atenção na sua respiração. Se o lugar for espaçoso, caminhe pelos corredores e respire. Se for uma pequena padaria ou doceria, dê uma olhada nas prateleiras com outros produtos e respire. Se for uma loja de conveniência, pegue uma revista para folhear e respire. Espere alguns minutos até que você se sinta menos ansiosa e esteja pronta para fazer a escolha consciente de comprar ou não o alimento. Só compre ou deixe de comprar quando se sentir mais calma e não tenha receios em sair de mãos vazias.

Ao seguir esses dois passos simples você vai perceber que a mente sai daquele transe da compulsão e o mundo parece até girar mais devagar. Só nesse estado de espírito é que somos capazes de escolher comer ou não.

Quando avistei o rocambole, senti um certo alívio por ter encontrado o que eu procurava. Eu peguei a embalagem e fiquei admirando a foto estampando a cremosidade do recheio de chocolate. Fiquei ali, parada, lendo tudo o que tinha para ser lido no rótulo. Com o rocambole ainda na minha mão, passeei pelos corredores do supermercado, respirando e olhando tudo ao meu redor até que me sentisse mais calma.

Foi só então que eu tive a tranquilidade de relembrar o quão delicioso aquele rocambole realmente era e o desperdício que seria devorá-lo inteiro em poucos minutos sendo que eu poderia comê-lo em outras situações com prazer e sem remorsos. Eu relembrei como eu me sentia depois de uma compulsão alimentar e aquela compra pareceu não valer a pena.

A caminho do caixa, eu deixei o rocambole na prateleira sem receios e sem pesar. Eu sabia que voltaria a vê-lo em um momento mais propício.

Talvez você escolha comprar, talvez não. Mas faça isso de maneira consciente. Não esqueça que você poderá comer o que quiser, quando quiser. E se for para comer, que seja com prazer, você merece.