Perguntas que vocês querem saber

Uma entrevista sobre dieta, obesidade, transtorno alimentar e representação midiática

Há alguns dias eu fui entrevistada pelo site Ravishly para a sessão Ladies We Love e o resultado ficou muito bacana. Como vocês também me mandam emails com perguntas semelhantes, resolvi publicar as respostas aqui no blog também para quem ainda não viu. Espero que gostem.

Entrevista Erika Elenbaas

1. Conta pra gente um pouco da sua história com a dieta. Antes de chegar a conclusão de que dietas não funcionariam, você sofreu muito com isso?

A minha história com a dieta começou aos sete anos sentada na cadeira do consultório de uma pediatra. Naquele dia, eu voltei para casa com um papel que descrevia como a minha alimentação deveria ser dali em diante. Eu só consigo me lembrar que a médica me proibiu de comer doces e frituras e que eu deveria evitar banana, uva e laranja. A dieta, como esperado, só durou alguns dias.

Aquela foi apenas uma das dezenas de dietas seguidas, eu praticamente passei a adolescência e os meus vinte anos emagrecendo e engordando, sentindo-me péssima cada vez que uma dieta dava errado. Tudo que eu queria era ser saudável, bonita e atraente como qualquer mulher jovem, mas por alguma razão a fórmula da dieta não funcionava para mim. Quando a contagem de calorias falhou, eu tentei a dieta das proteínas, quando ela falhou, eu tentei a dos pontos. Teve também a da lua, a da sopa, a da banana, a do abacate, a doSouth Beach, isso para citar apenas algumas. Eu tentei até mesmo medicamentos para emagrecer, mas nem eles conseguiram acalmar a minha fome.

 
Erika Elenbaas dieta emagrecimento saúde
 

2. Quando e como surgiu a ideia do blog?

O ideia do blog surgiu quando eu consegui emagrecer 20 quilos depois de uma dieta bem restritiva. Eu acreditava então ter encontrado a fórmula para emagrecer e queria dividir isso com as pessoas. Meses depois de ter alcançado um peso considerado ideal, eu ainda estava insatisfeita com o meu corpo, com baixa autoestima, lutando contra a balança todos dias e passando horas na academia para queimar as calorias dos dias em que eu havia comido compulsivamente.

Eu estava errada. Eu não tinha encontrado a fórmula. Ali estava eu magra, infeliz, fissurada por perfeição e me sentindo gorda. Eu desisti de iniciar o blog, embarquei em uma viagem de autoconhecimento, procurei ajuda para lidar com os meus problemas, estudei muito para entender o que acontece quando a comida vira válvula de escape e, no final de 2013, comecei o blog com um discurso completamente diferente.

Hoje percebo que eu tive que passar por tudo isso para entender que, às vezes, dieta não é a resposta.

 
tratamento para obesidade
 

3. A gente sabe que ser saudável não significa necessariamente ser magra, e que os transtornos alimentares são um problema muito sério. Conte a sua experiência com transtornos alimentares.

Eu sempre adorei um bom prato e de vez em quando tinha umas comilanças descontroladas, mas nada muito grave. Depois que eu segui a última dieta que me fez emagrecer 20 quilos, comecei a comer compulsivamente várias vezes por semana. Eu ficava desesperada depois de comer tanto, me sentindo culpada e desgostosa, sem saber direito o que fazer e com um medo enorme de colocar todo o meu esforço a perder. Na época, eu já estava malhando todos os dias, mas comecei a malhar horas seguidas para compensar os excessos cometidos. Não demorou muito até que isso tomasse conta da minha vida. Eu me resumia em dieta, academia e compulsão. Foi então que eu decidi procurar ajuda em um centro para tratamento de transtornos alimentares achando que eu tinha o Transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP). Depois de muitas entrevistas e exames, fui diagnosticada com Bulimia do tipo não purgativo, uma surpresa e um grande choque para mim, que sempre acreditei que bulímicas vomitavam e eram magrinhas.

Quando comecei o tratamento, eu queria me curar mais do que tudo na vida, então me joguei de cabeça. Segui todas as regras, envolvi amigos e familiares na minha recuperação, conversei com quem já havia tido experiência com TA e consegui me curar.

 
Chega de dieta
 

4. Você acha que para as mulheres pararem de fazer dietas para ter um corpo "perfeito" a mídia precisa ajudar nessa conscientização? Qual foi o papel da internet e da mídia em geral no achar que para ser feliz você tem que fazer dieta e tem que ser magra? 

A mídia tem um papel fundamental na percepção que temos sobre nós mesmas. Infelizmente, a representação midiática do corpo feminino é distorcida, objetificada e irreal. Na verdade, a mídia sobrevive dos anúncios publicitários e a publicidade sobrevive da nossa procura pela felicidade. Se a mídia nos convence que é preciso ser de determinada forma para ser feliz, a publicidade tem como usar este espaço para nos oferecer o que falta para que possamos alcançar a tão sonhada felicidade. Ao adquirirmos o produto ou serviço que promete nos deixar como as mulheres que vemos na mídia, estamos comprando a ideia de que seremos felizes. O ideal seria se todos saíssemos satisfeitos ao final do ciclo, mas não é isso que acontece. Não há produto no mercado que deixe toda a população do mundo loira, rica, magra, com a pele dourada, sem manchas, torneada, jovem, alta, sexy, feminina, delicada, sensual, com cabelos longos e volumosos, cheirosa, depilada e perfeita. A mídia desconsidera que é possível ser feliz se você não for assim. A mídia desconsidera que é possível ser feliz sendo quem você é. Então continuamos consumindo dietas, produtos e tratamentos que nos deixem mais próximas do ideal da felicidade feminina.

 
Compulsão Alimentar e Bulimia
 

5. Qual você acha que deve ser o primeiro passo a ser tomado quando fazer dieta toma conta da sua vida?

Há muitas mulheres passando por isso, e muitas delas não sofrem de um transtorno alimentar. O blog Brigadeiro de Alface é, por isso, para qualquer mulher cansada de passar a vida entrando e saindo de dieta e odiando o que vê no espelho. O primeiro passo a ser tomado para quem tem ou acredite que tenha um transtorno alimentar é procurar ajuda e começar um tratamento especializado. Muitas vezes, demora um pouco até encontrar um profissional ou tratamento que funcione, mas eu diria para não desistir nas primeiras tentativas. Estar curada vale a pena qualquer esforço.

Já para as mulheres que sentem que a dieta tomou conta da vida, mas no entanto não sofrem de um transtorno alimentar, o primeiro passo seria começar a confiar que o nosso corpo é capaz de regular por si próprio o quanto precisamos comer. Eu acho válido procurar um nutricionista para quem quiser aprender mais sobre alimentação, mas a nutrição não pode virar um terrorismo. O objetivo é que tenhamos autonomia e liberdade para fazer as melhores escolhas e não simplesmente seguir o que o outro nos manda comer. Quando conseguimos identificar o sentimento de fome e saciedade não precisamos mais seguir dieta alguma. O emagrecimento sem dieta é mais lento, mas é muito mais duradouro e não nos priva do prazer de comer.

 
Erika Elenbaas medidas públicas para combate à obesidade
 

6. Sabemos que fazer dietas muito restritivas pode ser muito prejudicial, mas do outro lado também vemos o número de obesos crescendo, especialmente entre as crianças, o que você acha desse outro lado? 

Eu acho que a população deve ser educada desde a infância a fazer melhores escolhas alimentares. Não vejo muitos programas nas creches ou escolas, por exemplo, que buscam informar as crianças sobre alimentação e escolhas saudáveis. A obesidade deve ser combatida com educação e trabalhando principalmente com a prevenção do problema.

A aula de educação física, por exemplo, é a aula mais desvalorizada no ensino nacional. Um país que não estimula o esporte desde a infância não pode esperar que as pessoas comecem a se movimentar depois de adultos. Além disso, não há espaço livre nas comunidades para que as crianças brinquem e para que os adultos possam caminhar, correr ou jogar bola sem precisar pagar por isso.

Eu vejo alguns esforços para combater a obesidade focados no indivíduo obeso, mas não vejo muito sendo feito para mudar a forma como os produtos industrializados são confeccionados. A dieta das fábricas é composta basicamente por açúcar, milho, soja e aditivos alimentares, resultando em produtos altamente calóricos e pobres em nutrição. Não tem como combater a obesidade se a indústria alimentícia não tomar a sua parcela de responsabilidade na equação.

A população deveria ser estimulada a consumir o menor número possível de alimentos industrializados e a valorizar os pratos regionais. Imagine só se macaxeira fosse mais chique do que goji berry? Tudo isso é trabalho de marketing e relações públicas que deveria ser feito para estimular o consumo local, ao invés de tentarmos copiar o que os outros países estão comendo. O Brasil é um país de solo rico e diversificado que nos fornece muitos alimentos saborosos e nutritivos.

Eu acho fundamental também que o tratamento dos obesos inclua acompanhamento psicológico e nutricional. Obesidade está tanto na cabeça quanto no corpo, não tem como emagrecer o corpo e esperar que o cérebro acompanhe a mudança passivamente.

Como deu para perceber, para combater a obesidade são necessários esforços individuais e medidas públicas, e não dietas. 

 
Quero emagrecer 10 quilos
 

7. Quais são os seus hábitos atuais em relação à alimentação e saúde?

Desde que parei de fazer dieta, não consumo mais alimentos diets, lights ou zero. Se vou consumir um iogurte, sempre escolho a sua versão integral, pois percebo que fico mais saciada do que consumindo a versão light. Eu também não consumo mais adoçantes químicos. Se quero substituir o açúcar refinado, sempre uso um adoçante natural como o mel, melaço ou frutas secas. Eu sempre cozinho a minha própria comida e procuro evitar os alimentos industrializados, mas tudo sem extremismos. Se a vontade de comer fast food for grande eu como, mas não faço isso regularmente.

Como o meu fraco são doces, sempre reservo um ou dois dias por semana para comer algo bem saboroso, como pudim, bolo ou tortas. Faço isso porque eu acredito que comida também é prazer e que saúde é saber equilibrar o que faz bem para o corpo com o que faz bem para a alma.

Exercícios físicos também são parte da minha rotina semanal. Para quem já viveu no extremo de malhar horas por dia e de viver no completo sedentarismo, eu posso afirmar que o movimento do corpo é parte fundamental na saúde física e mental. Atualmente eu me exercito de três a quatro vezes por semana e isso me faz um bem enorme.

 
Representação midiática das mulheres
 

8. Como estão sendo as respostas das pessoas em relação ao seu blog e aos vídeos que você postou a respeito do assunto? Você recebe muitos pedidos de ajuda?

A participação das pessoas está sendo maravilhosa. Eu recebo diariamente emails, mensagens e comentários de mulheres de todas as idades, etnias e diferentes estados do Brasil e de Portugal que querem dividir as suas histórias. Muitas delas são desabafos, segredos que não são divididos nem com familiares, pedidos de ajuda, agradecimentos ou sugestões. Eu me sinto extremamente lisonjeada de receber tanto carinho das minhas leitoras e sou muito grata pela confiança delas. Eu fico feliz pelo Brigadeiro de Alface estar se tornando um espaço livre de tabus, preconceitos e julgamentos onde qualquer um é bem-vindo e, mais importante, onde ninguém se sente sozinho.