Para aquelas com espelho torcido e coração aflito

Uma leitura pessoal do curta "Espelho Torcido"

Já faz alguns dias que eu assisti a um curta que, em apenas dois minutos, me fez refletir sobre a importância de continuar divulgando e defendendo a autoaceitação. O curta em questão é o "Espelho Torcido", da cineasta Luiza Ribeiro, que transformou o próprio corpo em imagens artísticas belíssimas, trazendo à tona a noção de estética do corpo e da arte.

Quando eu assisti ao filme, senti uma urgência enorme em escrever sobre ele, simplesmente porque ele importa.

Crédito: Luiza Ribeiro

O curta importa não por expor descaradamente tudo o que tentamos esconder, nem tampouco pela nudez incômoda de um corpo que foge do considerado belo. Ele importa porque nos faz pensar no nosso próprio corpo e no reflexo distorcido que muitas vezes vemos dele no espelho. Ele importa porque é uma obra aberta a interpretações, a críticas e a julgamentos, e não apenas uma mensagem mastigada com começo, meio e fim.

O curta “Espelho Torcido” importa porque ele é sobre a Luiza, sobre mim e sobre você.

Em preto e branco e ao som de violino, o curta vai tocando e encantando pela franqueza do discurso. Quem é que nunca apertou a barriga incomodada com a maciez das próprias curvas? Quem é que nunca se olhou no espelho focando em cada ponto “errado” do corpo? Eu me lembro como se fosse hoje a primeira estria nas costas e a areóla que não parava de crescer; coisas que me tiravam o sono na adolescência, mas que hoje só me incomodam.

É com bastante tranquilidade que eu digo que meus defeitos me incomodam sim, porque amor-próprio e autoaceitação não tem a ver com começar a achar as estrias lindas, mas sim com a escolha que temos de não permitir que a presença delas nos atormentem. Amor-próprio e autoaceitação não é amar ter sobrepeso ou ser obesa, mas entender que mudar é mais fácil quando somos motivadas pelo amor que temos ao nosso corpo, e não pelo ódio que sentimos dele.

Crédito: Foto retirada do curta

Crédito: Foto retirada do curta

Não, eu não amo meus furinhos, rachaduras ou imperfeições, mas eles não determinam quem eu sou ou como eu me sinto. Eles não definem o meu valor próprio, o quão alta é a minha autoestima e nem a minha capacidade de me amar e ser amada. Os meus defeitos não me impedem de ir à praia, nem de dançar nua em frente ao espelho. Eles simplesmente existem, e eu os deixo existir, sem luta, sem luto.

O curta “Espelho Torcido”, como a própria autora define, é um grito de desabafo de uma mulher tem o seu corpo considerado fora dos padrões de beleza. É um vídeo que te dá forças para fazer ecoar o seu próprio grito pelo direito do corpo de existir. Um grito pela desconstrução da estética e pela construção de uma consciência crítica.

Se começarmos a ver o corpo de maneira mais ampla e mais funcional, reconhecendo seus pequenos milagres e a sua incrível força, talvez consigamos apreciar sua própria beleza. O corpo tem o direito de ser único e imperfeito, assim como nós.