O que é a compulsão alimentar?

Chegou a hora de desvendar este mistério sem tabu e sem vergonha

Para quem está achando que este post é sobre transtorno alimentar, sinto desapontar mas o assunto aqui é bem mais leve e bem mais comum do que muitas de nós acreditamos.

Se a compulsão alimentar soa um pouco pesada e algo distante da sua realidade, saiba que você não é a única. Eu também tinha os mesmos sentimentos em relação a essa nomenclatura um tanto infeliz, e achava que a compulsão era algo a ser discutido às escondidas e no anonimato, mas não precisa ser assim.

Eu vou começar o post já esclarecendo que a compulsão pode ou não estar relacionada a um transtorno alimentar. O nome “compulsão alimentar” é tanto usado para definir os episódios de comer compulsivamente, quanto um transtorno alimentar conhecido como TCAP (Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica) ou, em inglês, BED (Binge Eating Disorder). Para esclarecer mais uma vez: quem tem episódios de compulsão não tem necessariamente um transtorno alimentar. 

Crédito:  Melody Bunn

Comer compulsivamente acontece quando ingerimos uma quantidade enorme de comida em um curto espaço de tempo (normalmente duas horas), e temos a sensação que perdemos o controle de quando devemos parar. Para algumas pessoas, o episódio pode se estender ao longo do dia. O que todos os comedores compulsivos têm em comum é que grande parcela é motivada por fatores emocionais a comer de tal forma. A outra parcela é formada por pessoas que sofrem de compulsão após períodos de extremo controle e privação alimentar, como a história da Alê.

Eu já havia escrito um post sobre o comer emocional que explica como isso acontece, mas não confunda comer emocional com compulsão alimentar: comer emocional e compulsão podem ter as mesmas motivações, mas diferem na quantidade de comida ingerida. Durante um episódio de compulsão, a quantidade é bem maior do que uma outra pessoa comeria no mesmo intervalo de tempo e circunstâncias.

Quando eu digo uma quantidade grande de alimento, não estou falando do famoso “pé na jaca” que todo mundo enfia de vez em quando. O pé na jaca é aquela escapada que a gente dá e acaba comendo dois ou três pedaços do bolo. No caso da compulsão alimentar, comeríamos o bolo inteiro. Há casos de pessoas que comem um pacote de pão de forma com açúcar, comida congelada, sacos e mais sacos de doces de salgadinhos, caixas de chocolate. O tipo de alimento varia, mas o que não difere é a ingestão exagerada de alimentos normalmente considerados não saudáveis. São raros os casos de compulsão por frutas ou legumes.

A compulsão significa comer ignorando os sinais físicos de fome e saciedade. Quem passa por isto está, normalmente, tão desconectada do corpo que acaba ignorando esses sinais. O alimento é visto como um remédio capaz de fazer se sentir melhor, aliviando qualquer ansiedade ou desconforto, e anestesiando todo sentimento ruim.

Crédito: Tiffany Gholar

O que pode acontecer é a comida ganhar um significado bem maior do que deveria ter. A comedora compulsiva pode acreditar que o alimento é mais poderoso do que quem o come, resultando em uma relação de desconfiança e medo da comida.

Os episódios de compulsão podem ou não resultar em ganho de peso. Muitas pessoas têm compulsão e compensam o exagero com dietas, jejum, indução ao vômito, exercícios físicos, diuréticos, laxativos ou pílulas de emagrecimento. O que infelizmente acontece é a criação de um ciclo de compulsão e compensação que pode durar uma vida inteira e, apesar de não vermos o estrago na balança, a qualidade de vida de quem vive nesse ciclo é comprometida. Dependendo da frequência dos episódios de compulsão e compensação, pode ser considerado Bulimia. O diagnóstico só pode ser dado por um profissional da área de saúde.

A relação com a comida muitas vezes simboliza a relação que temos conosco mesmo. No meu caso, eu era controladora comigo, exigente, indisciplinada, inconscistente, punitiva e rebelde. Eu assumia a responsabilidade por tudo e não tinha tempo nenhum para as minhas prioridades. Com a comida não era diferente: eu tentava controlar tudo o que comia mas não tinha disciplina para manter uma dieta saudável, daí qualquer escorregão era motivo de comer tudo o que eu via pela frente. Como eu não me permitia sentir algo além de alegria ou excitação, qualquer frustração ou tristeza era compensada com alimentos. Se eu me estressasse, a comida também estava lá. Comer era o tempo que eu tinha só para mim e para minhas prioridades, e assim eu ia vivendo entre a privação, o comer emocional e a compulsão.

Para resumir um pouco tudo o que já foi discutido anteriormente, aqui vai uma lista com cinco sintomas básicos que podem ajudar a identificar um episódio de compulsão alimentar:

 
Sintomas Compulsão Alimentar
 

Tanto a compulsão quanto o comer emocional podem ser empecilhos na vida de quem procura ter uma relação saudável consigo mesma e com a comida. Como eu já disse, comer emocional e compulsão podem acontecer de vez em quando com todo mundo, e isto não é, necessariamente, alarmante. O problema é quando a frequência aumenta a ponto de comprometer a nossa qualidade de vida. Se isso acontecer, divida a sua experiência com alguém e procure ajuda. Você não está sozinha.