Nem só de alface vive a mulher

Há um mundo de possibilidades entre a privação e a compulsão.

Já é dezembro e a vida social tem andado a todas: dia 5 é a Festa de São Nicolau (Sinterklaas em holandês), semana que vem vou viajar com a família para celebrar o aniversário de 40 anos de casamento dos sogros, o Natal e Ano Novo estão chegando, sem falar das outras comemoraçõezinhas entre um feriado e outro. Dezembro é o mês das celebrações e eu já estou vendo o meu plano de comer sobremesas só em ocasiões especiais indo por água abaixo, já que as ocasiões especiais estão acontecendo quase todos os dias.

E não é que ontem me peguei com aquele medinho de engordar que acompanha as festividades de fim de ano? Acho que você sabe bem do que eu estou falando. Aquele estressezinho antes, durante e depois das festanças, quando a nossa maior preocupação antes da festa é em relação ao que vamos ou não vamos comer, e depois é em relação ao que de fato comemos.

Eu já reconheço este medinho chato de longe, mas ao longo do tempo fui encontrando maneiras para driblá-lo, e acabei fazendo as pazes comigo. Hoje eu tenho passe livre para me divertir sem neuras, sem culpas e sem exageros, mas até descobrir como fazer isso, eu vou explicar como é que eu funcionava antes.

Há algum tempo atrás eu podia dividir a minha existência em dois estados de espírito: “eu estou de dieta” e “eu como TUDO”.

 
 
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Se eu estava de dieta, só a palavra festa já me fazia arrepiar. Ao invés de pensar nas pessoas que eu veria e na diversão toda, eu me via calculando quantos quilos eu conseguiria perder até a festa. Eu corria para selecionar a roupa da ocasião, e ao prová-la eu já visualizava como ficaria no corpo com os 3 quilos a menos calculados. Eu planejava o que poderia e não poderia comer, e me proibía de ingerir qualquer bebida alcoólica - até porque na minha cabeça de mulher de dieta, isto só me faria engordar e inchar.

Festejar ia sempre na contramão do “estar de dieta” e o resultado era um estresse danado durante a festa. Eu tinha que dizer não a tudo o que era servido, e ainda tinham aqueles que ficavam insistindo para eu comer só um pouquinho. Bem, só um pouquinho para mim não existia - era muito ou nada.

Mas assim era a vida em dieta.

Depois de sobreviver à festa, eu ficava feliz em voltar para casa, para a minha rotina e para aquela sopa na geladeira esperando para ser devorada. Ah, que delícia. Mais uma batalha vencida e a dieta seguia firme.

Se eu saísse um pouco do planejado ou comece compulsivamente, eu desistia da dieta e seguia para o segundo estado de espírito:

 
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O segundo estado de espírito se manifestava na ausência do “estar de dieta”. Ele era a pura manifestação da liberdade e do prazer. É aquele estado em que você se joga e se permite fazer o que der na telha, e come o que tiver pela frente.

Quando eu estava no “eu como TUDO”, tudo o que eu queria era festa, happy hour, jantar e churrasco. Qualquer coisa era motivo para comer e comemorar. Mas quando eu digo comer, não estou me referindo a comer até ficar satisfeito; eu comia até não poder mais e quanto mais comida tivesse, melhor era a festa. A diversão era medida pelo volume ingerido de álcool e comida .

Nesse estado, haviam dias em que eu comia compulsivamente sem nem sentir o sabor do alimento e sentia uma culpa tremenda por isso - o que me fazia comer ainda mais. O esbalde seguia até eu encontrar força de vontade para iniciar uma nova dieta.

A minha relação com a comida podia ser facilmente reduzida em duas palavras: privação e compulsão. Esses dois extremos são perturbadores e tudo o que eu mais queria era encontrar um pouco de equilibrio no meio daquilo tudo. Eu queria ver a comida como ela é - um alimento, e não o centro da minha existência.

Hoje eu posso dizer que encontrei um lugar ao sol entre a privação e a compulsão e que, na maioria das vezes, me sinto livre para comer e beber o que eu acho gostoso, e parar quando eu estou satisfeita. Mas como ninguém é de ferro, ainda ocorrem situações em que eu penso que poderia ter recusado o segundo pedaço do bolo, e daí vem aquela vontade louca de comer tudo o que eu vejo pela frente como punição pelo meu delito.

Quando isso acontece, o melhor a fazer é se perdoar e ter em mente que ninguém é perfeito, e que comer demais em um dia não é o fim do mundo. O problema é usar esse deslize como desculpa para se odiar, para comer compulsivamente, ou para começar uma dieta. Os extremos só causam frustração, então relaxe e aproveite as festividades!