Não é gravidez, é gordura mesmo

Sabe aquele momento embaraçoso em que alguém acha que você está grávida quando na verdade a sua barriga é apenas o resultado dos quilos extras? Bem, eu sei porque já passei por isso duas vezes na minha vida. E tenho certeza que não sou a única, especialmente depois de receber este depoimento da leitora Marina Ayres.

Com vocês, a Marina:

Fui uma criança magrela e elétrica que "vivia de vento" e não curtia muito comer. Minha avó me deu litros de Biotônico Fontoura e ensinou o prazer de comer pão em todas (todas!) as refeições, além de colocar açúcar em qualquer coisa - inclusive no Nescau. Impossível resistir.

Saindo da infância engrenei no tal efeito sanfona que vivo até hoje. Também coloquei aparelho nos dentes e meu cabelo passou de lindo a indomável. Quem nunca? Estes argumentos e todos os incentivos midiáticos e sociais deixavam minha autoestima no pé diariamente. Menstruei e meus peitos turbinaram (às vezes tenho a impressão de que eles ainda crescem hoje, com 25 anos).

Muito peito e um engorda/emagrece, assim funciona meu corpo - ele tem partes lindas também, mas no momento não consigo lembrar muito bem. Nos últimos anos fui bastante relapsa em relação a mim mesma (em vários sentidos) e o que se passava por dentro se refletia por fora. Era totalmente viciada em fastfood, descontava todos os meus problemas, angústias e frustrações na comida e, claro, passava longe de qualquer atividade física. Era uma pessoa cansada física e emocionalmente.

Sofri dois grandes baques entre o final de 2013 e o início de 2014 e perdi 10kg de forma nada saudável - não conseguia comer, só chorar. Meu emocional que já era rachado agora estava em cacos. Acontece que 2014 foi um ano de regeneração. Com ajuda da família e amigos, catei os pedaços e me reinventei. Terapia, meditação, mais atenção na alimentação e, quem diria, exercícios físicos. Meu fôlego, meu sono e minha coluna agradeceram imensamente, mas acho fundamental frisar que tratei foi da MENTE, o corpo veio a reboque.

Há pouco tempo aconteceu algo que já deve ter acontecido com várias mulheres e, assim como eu, talvez elas também não souberam lidar. Estava em pé no metrô, conversando e abraçada ao meu namorado, quando um senhor sentado na minha frente perguntou se eu estava GRÁVIDA e queria o seu lugar para sentar. Gelei. Sorri totalmente sem graça e respondi que não, obrigada. Foi constrangedor.

Queria morrer, sair correndo, ir pra casa chorar e, claro, não comer nunca mais. Segurei o boy e enfiei minha cara no ombro/pescoço/axila dele. Caçei qualquer buraco pra esconder minha cara de tanta vergonha enquanto repetia mentalmente "não chore. Não Chore. NÃO CHORE". Me xinguei, me culpei e me torturei mentalmente. Culpei a natureza também, porque não ser magra até podia ser "minha culpa", mas ter seios desproporcionais era muita sacanagem do destino.

Aquilo acabou com meu dia e me esforcei mesmo pra não acabar com a semana ou o mês. Não tive raiva do senhor. Ele quis ser gentil e tratar uma gestante como todos deveriam. O problema era EU, que não sou gestante! Meu namorado foi compreensivo e carinhoso, me encheu de beijos e elogios, tentou mudar de assunto e me fazer rir, mas a verdade é que acontecer tudo isso na frente dele só me deixou ainda pior. Não via a hora de chegar sua estação. Não conseguia olhá-lo nos olhos. Por mais que a gente tenha questões de autoestima, sempre fazemos o pavão perto de quem gostamos. A tal da arte da conquista, inclusive acho saudável. Mas eu me xingava tão alto mentalmente que tinha certeza que todo mundo ali ouvia e concordava.

Assim que o boy saiu eu corri pro Whatsapp (abençoada seja Ada Lovelace!) atrás de uma minha amiga e da minha terapeuta. Ambas desconstruíram várias coisas na minha cabeça, me empoderaram e me ajudaram muito. Então comecei a me culpar porque, como feminista, eu havia mal julgado mulheres gordas e/ou grávidas.

Syl

Primeiro culpei meu corpo, depois minha mente. Eu não podia me sentir da forma que me senti, mas ao mesmo tempo não conseguia evitá-la. Um acúmulo de frustrações. Agora, passado o turbilhão, percebo que a culpa por eu me ofender ao ser chamada de gorda, grávida ou qualquer outra coisa não é minha, e sim do que me fizeram acreditar a vida inteira. Estar grávida não é uma ofensa. Ser gorda muito menos! E logo eu, feminista desde criancinha, caí nessa pegadinha da vida a qual todas estamos sujeitas.

Mas não é uma escala de preto ou branco, né?

Dia após dia precisamos desconstruir essas questões. O amor-próprio é como qualquer amor, não nasce de uma hora pra outra. É preciso mais que plantar a semente. Pra fazê-lo florescer, precisa de suprimentos, carinho e atenção sempre.

Mas, além disso, percebi a sorte que tenho. Estou numa relação com compreensão e carinho (todas PODEMOS e MERECEMOS estar um relacionamento positivo! O que não soma deve sumir). Tenho amigas maravilhosas (amigos também, mas aqui me refiro ao Girl Power) que não me julgam.

Tenho condições financeiras me consultar com uma terapeuta incrível, que me liga sem cobrar nada pra me confortar e botar de volta nos trilhos. Mas e quem não tem tudo isso, ou mesmo nada disso? "Tem a Brigadeiro!", eu pensei. Sei que você já fez um post sobre a crueldade que fizeram com a Fernanda Gentil, mas imagino que essa situação (chamar alguém de gorda quando está grávida ou de grávida quando não está magérrima) seja normal e não necessariamente mal intencionada, como foi o meu caso. Compartilho minha história pra te dar mais material ou inspiração ao escrever sobre a angústia que sofremos com nossos corpos, que não merecem nada além de amor, carinho e atenção. Obrigada por estar aqui. Você faz muita gente se sentir querida e nada solitária!

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Marina, obrigada por tanto carinho e pela confiança. Como eu já citei, passei duas vezes por situações semelhantes e prometo descrever o acontecido em um outro post, mas hoje o espaço tinha que ser só seu. 

Sentir-se envergonhada por acharem que você está grávida quando você não está é a reação mais lógica e esperada e não há motivo nenhum para se sentir culpada disso. Não é uma questão de desmerecer as grávidas nem tampouco as gordinhas. Fico feliz em ver que você está no caminho certo, mas como em qualquer percurso na vida, sempre haverão tropeços e até quedas. O importante é levantar e continuar caminhando.

Obrigada por nos mostrar que isso é possível.