Por que as mulheres têm dificuldade em se amar?

Nós meninas crescemos sabendo que somos diferentes dos meninos. Os nossos corpos são diferentes, as roupas são outras e parece que até nossas preferências diferem, pelo menos é o que dizem.  Há quem acredite que essas diferenças são biológicas, mas na minha opinião elas são mais culturais do que "naturais". Nós aprendemos a ser mulher e os homens aprendem a ser homens.

Não há nada de errado em sermos diferentes uns dos outros, o difícil é nascer diferente do sexo considerado padrão, e o sexo padrão continua sendo o sexo masculino.

Só para ilustrar como as mulheres são diferentes do padrão, aqui vão alguns exemplos:

Nós ainda vemos a menstruação como algo estranho e sujo, mas consideramos a ejaculação masculina extremamente desejável. Agora tente imaginar como as coisas seriam diferentes se vangloriássemos o ciclo menstrual e o poder que ele nos dá de gerar uma vida da mesma forma que vangloriamos o esperma?

Nós comparamos o cheiro da vagina com peixe e até rimos das piadas criadas em torno disso, mas não fazemos nenhum comentário sobre o cheiro das partes íntimas masculinas.

Enquanto a oscilação hormonal feminina é vista com terror por todos, a agressividade masculina é algo que parecemos aceitar com muito mais naturalidade. E assim seguem mais e mais exemplos de que nascer mulher é nascer diferente do que deveria ser o padrão.

Até Sigmund Freud tocou nisso ao formular a teoria controversa da inveja do pênis, como se as mulheres invejassem os homens por ter um falo e também almejassem ter um. Se as mulheres invejam algo, não é o pênis, e sim  o poder que ele representa. E este poder é cultural e não um presente dado por Deus aos homens.

É claro que vivemos hoje em uma era muito mais gentil com as mulheres. Jamais na história tivemos tanta liberdade. Hoje podemos ter ambições maiores do que a de casar e ser mãe e isso é incrível, mas há certos aspectos que não podemos ignorar, o machismo existe e ele é parte da equação que resulta na nossa baixa autoestima. De forma alguma estou afirmando que os homens não enfrentam problemas com amor-próprio e autoestima, mas de maneira geral, as mulheres continuam ser as maiores vítimas de um sistema que desfavorece a todos.

Como mulher, você já nasce entendendo que a vida é mais fácil para as belas. Que ser amável é melhor do que ser ambiciosa. Mesmo conquistando o mundo, nada muda o fato de que todos esperam que você case e tenha filhos para ser uma mulher de sucesso.

Toda essa pressão em torno de ser e agir de determinada forma destrói o nosso valor como indivíduos e faz com que nos amemos menos. Quando o valor de alguém é reduzido a sua aparência e estado civil, todas as possibilidades de autenticidade são eliminadas.

Mulher não é tudo igual e se começássemos a valorizar diferentes formas de expressão, daríamos espaço àquelas que se sentem inadequadas ao padrão feminino de ser. Não deveria haver um padrão para ser ou para se sentir mulher.

O resultado é uma nação de mulheres que não são estimuladas a praticar nenhuma atividade física ou intelectual que seja competitiva; mulheres que crescem menos confiantes em escolher estudos e carreiras desafiadoras, e que em sua grande maioria terão uma renda menor do que a dos seus parceiros ou colegas homens.

E somado a isso temos a representação do papel social da mulher na mídia que limita ainda mais as nossas escolhas e deixa claro que todas que fogem da norma são menos valorizadas.

O caminho rumo ao amor-próprio pode ser mais complicado para as mulheres levando em conta o quanto somos influenciadas a não nos amar pelo que somos. A realidade é que a grande maioria jamais terá uma vida e um corpo extraordinário como as modelos e celebridades parecem ter, mas nem por isso precisamos nos amar menos.

O tempo que gastamos tentando atingir um padrão é o mesmo tempo que poderíamos investir melhorando as nossas vidas e a vida de outras pessoas, e isso sim faz com que nos amemos mais. Quando percebemos que temos algo a acrescentar ao mundo descobrimos então o melhor remédio para aumentar a autoestima

Envolva-se em atividades que te deixem orgulhosa de ser você.