Os meus pensamentos sobre a comercialização de inibidores de apetite

Anfepramona, femproporex, mazindol e sibutramina

Em setembro, ficou decidido pelo Senado que a produção e a venda de inibidores de apetite com anfetaminas volta a ser liberada. Isso significa que logo mais poderemos comprar legalmente medicamentos e fórmulas manipuladas com anfepramona, femproporex e mazindol. Em 2011, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a produção e comercialização de anfetaminas por trazerem mais riscos do que benefícios à saúde. A agência também decidiu adotar medidas mais rígidas para controlar a prescrição e distribuição de medicamentos que contenham a famosa sibutramina.

Pois é, devido à pressão da classe médica, da indústria farmacêutica e de alguns especialistas, o Senado optou por cancelar a proibição da Anvisa e agora está tudo liberado. É claro que todo mundo se comprometeu a fiscalizar a venda dos produtos para evitar abusos, mas não encontrei nenhuma informação que citava a fiscalização também dos médicos. Mas uma vez, temos que confiar que a palavra do médico é o melhor conselho que podemos receber.

Remédio para emagrecer

Eu li essa notícia com um gosto amargo na boca, e depois de receber uma mensagem de uma leitora perguntando sobre o meu posicionamento, decidi escrever um post.

Estes foram os argumentos que eu encontrei defendendo a liberação da produção e venda dos medicamentos anorexígenos, acompanhados com alguns pensamentos meus sobre o tema.

1. Anfetaminas e sibutramina são ótimos auxiliares no emagrecimento

Eu li uma porção de depoimentos de médicos afirmando que o medicamento funciona muito bem quando combinado com alimentação equilibrada e atividade física. Ora, se você come bem, é ativo fisicamente e tem acompanhamento médico, o resultado esperado realmente é o emagrecimento. Não entendo a função do medicamento nessa equação.

A Anvisa ainda apresentou, em 2011, um dado para a proibição que esclarecia que apenas 30% dos pacientes perdiam peso com sibutramina e que a perda era mínima, mas isso foi defendido pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) com uma comparação um tanto infeliz: “Claro que o medicamento não funciona para todos, da mesma forma que nem todas as pessoas que têm câncer respondem à quimioterapia.” Por falta de dados estatísticos, encontramos esse tipo de argumento por aí. Uma pena.

 
anfepramona, femproporex, mazindol e subitramina medicamentos para perda de peso
 

2. Não podemos deixar a população sem ferramentas para o tratamento da obesidade

A questão aqui é saber se as anfetaminas e a sibutramina realmente são ferramentas para o combate à obesidade. As anfetaminas já estão no mercado há cerca de 30 anos e a sibutramina desde 1999, mas continuamos engordando cada vez mais. Mesmo quando o Brasil era um dos maiores consumidores de anfetaminas no mundo, a obesidade aqui só aumentava. Eu me pergunto se as anfetaminas e a sibutramina realmente têm ajudado a combater o excesso de peso. Não encontrei nada também que comprove que a perda de peso é mantida.

 
 

3. A proibição do uso da sibutramina é uma opção a menos para o tratamento de transtorno alimentar

Eu estou lendo isso mesmo? Tem algum médico em sã consciência tratando Bulimia, Anorexia ou Transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) com anfetamina ou sibutramina? Gente, o mundo está perdido mesmo. Esses médicos precisam, no mínimo, de alguma especialização em tratamento de transtornos alimentares para entenderem como atuar profissionalmente.

A Anvisa ainda tinha deixado claro na resolução de 2011 que a sibutramina não é recomendada para paciente com histórico ou presença de transtornos alimentares, agora vem algum doutor usando esse argumento?

Então vamos lá, se a pessoa tem compulsão alimentar e toma sibutramina durante o tratamento, o que acontece quando ela parar de tomar o remédio, a compulsão desaparece?

 
 

4. A proibição aumenta o contrabando de remédio para emagrecer

Bem, se isso é argumento para liberar as anfetaminas, acho válido dizer o mesmo sobre as drogas ilícitas. Vamos liberar tudo?

 
anfepramona, femproporex, mazindol e subitramina
 

5. Não cabe à Anvisa proibir a comercialização de medicamentos anorexígenos.

A Anvisa é uma agência que atua na regulação sanitária de produtos e serviços que possam afetar a nossa saúde. Ela funciona ou deveria funcionar para garantir que os produtos e serviços comercializados não representem grandes riscos à saúde dos brasileiros. A agência pode ter suas falhas, mas se não for ela prezar pela nossa segurança, quem o fará? Desde quando os senadores têm condições técnicas de decidir qual medicamento é seguro ou não, como o que acabou de ser feito? Quem é que deve então nos proteger dos interesses da indústria farmacêutica e de boa parte da classe médica?

Mesmo que a Anvisa não seja a agência sanitária ideal, ela tomou a decisão de proibir as anfetaminas baseada em estudos internacionais que alertavam para o risco desses medicamentos. A Organização das Nações Unidas (ONU) já havia alertado o Brasil sobre o consumo excessivo de anfetaminas, além do que muitas substâncias já estão banidas nos EUA e na Europa.

 
Sibutramina anfetamínicos
 

6. O Brasil tem que agir por si mesmo e não seguir definições da Europa e dos EUA

A Anvisa decidiu proibir as anfetaminas e limitar o uso da sibutramina no Brasil depois de reunião com as agências reguladoras dos EUA e da Europa, que já proíbiam algumas das substâncias discutidas. Foram também apresentados estudos internacionais que constataram baixa eficácia de medicamentos, além de riscos à segurança do paciente.

Não é novidade que a gente se espelha nos países mais desenvolvidos em várias áreas, mas pelo que entendi não é permitido fazer isso quando o assunto for proibição de substâncias anorexígenas anfetamínicas altamente lucrativas.

 
Sibutramina Femproporex
 

7. Tem é que aumentar a fiscalização da venda e não proibir

Concordo que é preciso aumentar a fiscalização da venda, mas quem fica responsável por fiscalizar o médico que prescreve anfetamina e sibutramina a alguém que só precisa perder sete quilos?

Já é de conhecimento geral que os médicos recebem “favores” e “gentilezas” dos representantes comerciais das indústrias, mas muita gente não sabe que há todo um marketing envolvido em convencer o médico a receitar um remédio emagrecedor aos seus pacientes. Eles recebem presentes, convites, viagens, treinamentos e regalias proporcionadas pela indústria farmacêutica.

Já que não é permitido fazer propaganda de anfetamina, as indústrias têm que encontrar maneiras de aumentar a venda do medicamento e manter o lucro dos negócios. Eles compram pauta em revistas e jornais e agradam médicos. Se você ficou interessada em como isso funciona, dá uma lida neste artigo.

 
 

8. Proibir as anfetaminas vai contra a democracia. O cidadão tem o direito de se tratar com medicamentos

Esse argumento é o melhor de todos. Ele até parece bem convincente com esta proposta de dar ao cidadão o poder de escolha e não ao Estado, mas a realidade é bem diferente.

Quando o médico nos diz que um medicamento vai ajudar a emagrecer, nós acreditamos nele. Se ele fizer tudo pela lei e prescrever um remédio aprovado pela Anvisa, não há porque desconfiar dos riscos. O médico tem um compromisso ético selado depois de seis anos estudando medicina e se eu não confiarmos a nossa saúde a ele, a quem poderemos confiar?

Se o médico recomenda um determinado tratamento, não há nada que me faça acreditar que eu estou consumindo algo que poderá me trazer muito mais riscos do que resultados. Não só o médico, mas o Estado, o farmacêutico e a mídia afirmaram que o uso do medicamento é legal, então eu consumo. Não foi uma escolha minha, mas do meu médico. Eu só decidi tentar emagrecer levando em conta a palavra do profissional a quem devo confiar a minha saúde.

Se não houver ninguém acima do médico regulando e fiscalizando, nós estaremos à mercê da classe médica e da indústria farmacêutica. Você chamaria isso de democracia? E o nosso direito à integridade física defendido pela constituição, não vale?

Se tomarmos esse argumento como certo, seria justo então dizer que os EUA e a Europa são menos democráticos do que o Brasil em proibir substâncias que trazem poucos benefícios e muitos riscos.

Pelo que eu entendi, na democracia brasileira todo mundo vai ter que virar pesquisador científico para decidir por si mesmo quais substâncias são seguras ou não, já que aqui cada um é por si e, se tivermos sorte, Deus será por todos.

Como emagrecer rápido

Resumindo, não há estudos clínicos que comprovem a eficácia da sibutramina, anfepramona, femproporex e mazindol. Eles são indicados para pessoas com IMC acima de 30, mas muitos médicos o recomendam a qualquer pessoa que queira emagrecer.

A relatora do projeto que libera a comercialização das substâncias, senadora Lúcia Vânia do PSDB-GO, ainda ponderou que “não é uma questão que pode ser resolvida com dietas, com academia”. Concordo senadora, que tal um projeto de lei então que garanta o acompanhamento psicológico e nutricional para o cidadão obeso? Com uma medida dessas, nenhuma indústria aumentaria os lucros vendendo remédio, mas o lucro para a população seria imensurável.

Eu nunca fiquei sabendo de alguém que tenha emagrecido e mantido o peso após parar de tomar o medicamento, mas se vocês conhecerem, por favor me avisem. Estou curiosa para saber.