Que os seios balancem

Como o mundo fitness é cruel com as mulheres

Vergonha de entrar na academia. Vergonha de correr na rua sem saber direito o que fazer com os seios balançando. Vergonha de dançar com a roupa que revela tudo o que achamos que deve ser escondido.

Vergonha.

Vergonha por estar gorda demais, magra demais, flácida demais, branca demais, negra demais, baixa demais ou crespa demais para se movimentar.

Melhor exercício para emagrecer

Eu até quero me exercitar, mas ah, se você soubesse o que se passa na minha cabeça antes de entrar no vestiário de uma academia. Se você soubesse o quanto preciso dialogar comigo para me convencer a sair de casa com uma legging que deixa aparente a celulite que ninguém jamais veria se eu ficasse aqui, sentada no meu canto. Se você soubesse a ansiedade que me bate ao sentir aquele cheiro de cloro da piscina enquanto eu visto o meu maiô.

Este é o sentimento que muitas mulheres sentem ao se engajar em alguma atividade física - vergonha. Vergonha de se expressar num ambiente em que não nos sentimos bem-vindas ou aceitas. Vergonha por sermos menos que perfeitas e por não termos corpos considerados adequados aos esportes. Pelo menos, é essa a mensagem que recebemos todos os dias.

crédito: Campanha "This girl can"

crédito: Campanha "This girl can"

Desde o flyer da academia até as fotos de inspiração no Instagram, passando pelas matérias de revistas e artigos em sites e blogs, tudo nos faz lembrar de que somos como um acessório no esporte, um acessório que precisa ser belo para fazer sentido em todo este conceito de saúde.

Se de um lado somos motivadas a adotar um estilo de vida mais ativo, de outro somos relembradas de que apenas corpos malhados são aceitos na dança, corrida, esportes em grupo ou artes marciais.

O corpo feminino em movimento é visto como espetáculo, algo a ser admirado por homens e por outras mulheres.

O nosso receio em praticar esportes não está relacionado à capacidade física ou habilidade motora, e sim à intimidação que o ambiente oferece. Enquanto alguns homens se reúnem para a pelada de quarta-feira regada à cerveja, muitas mulheres dedicam tempo e energia planejando como malhar sem destruir a escova no cabelo e avaliando qual a maquiagem ideal para se exercitar. Tudo isso porque queremos participar e, para participar, temos que estar conforme.

CRÉDITO: CAMPANHA "THIS GIRL CAN"

CRÉDITO: CAMPANHA "THIS GIRL CAN"

Mesmo adultas é como se ainda estivéssemos nas aulas de educação física, quando o mundo se dividia brutalmente entre os que jogavam e os que ficavam sentados, olhando. E nessa lógica, somos as que ficam sentadas, torcendo para ser escolhida na próxima partida e nos sentindo como a minoria excluída.

Por mais que pareça que somos minoria, somos muitas. Somos milhões de mulheres que não se sentem motivadas a se exercitar por não se sentirem bonitas o suficiente para isso. Estamos sentadas olhando a vida ativa dos outros pela tela do celular e imaginando como seria a nossa se também o fizéssemos.

O único argumento capaz de nos fazer movimentar apesar de todos esses desafios é a promessa de que um dia teremos um corpo digno do mundo fitness. Afinal, qual é o sentido do exercício se não for para emagrecer, enrijecer ou moldar? Qual o sentido do suor e do cansaço se não for por um corpo fit?

O sentido de movimentar o corpo é dar a ele a chance de se expressar no mundo e de existir como ele é, e não necessariamente de transformá-lo.

Está na hora de desmistificarmos a ideia de que o exercício físico é só para alguns e este vídeo da campanha #thisgirlcan é um exemplo disso.

Exercício físico é para todas, independente do tipo físico, limitações ou objetivos. Quer saber? Que os seios balancem, que as coxas tremam e os cabelos se rebelem. 

Pela democratização do esporte.