Eu só queria comer como uma pessoa normal

Depois de vencer um transtorno alimentar e de engordar e emagrecer inúmeras vezes eu percebo que a alimentação é um ponto da minha vida que sempre precisará de atenção diferenciada, principalmente em momentos de turbulência e incerteza.

Comer como uma pessoa normal

Houve tempos em que me chateei por isso, achando o mundo injusto por ter me dado este presente indesejado para eu carregar para o resto da vida. Eu só queria ser normal, comer como uma pessoa normal, manter o peso como uma pessoa normal. Bem, a história não é bem essa e nem precisa ser. E, afinal, será que uma “pessoa normal” nunca se preocupa com o que come ou o quanto pesa?

A verdade é que muitos desenvolvemos mecanismos de defesa para lidar com a vida real e não aquela que vemos estampada nos perfis do Instagram; e a vida real não é sempre bonita por mais que a encaremos de maneira otimista. Infelizmente coisas ruins acontecem até com pessoas boas e aprender a lidar com isso é o que tem sido um dos grandes aprendizados da minha vida. O meu mecanismo é comer.

Se chego cansada depois de um dia estressante no trabalho sinto a minha boca salivar por algo doce. Se o meu casamento não está na melhor fase umas colheradas no doce de leite parecem amenizar os desentendimentos. Se o domingo dentro de casa fica entediante, o cheiro doce do bolo fresquinho assando no forno torna o dia muito mais interessante. Esta sou eu.

A procura por alimento quando algo está me incomodando vem tão natural quanto o arrepio na pele em resposta a uma corrente de ar frio. Vem quase sem eu perceber. Se não presto atenção me pego comendo Nutella direto do pote em pé na cozinha sem nem saber o porquê, simplesmente porque deu vontade.

Esta sou eu. E de repente pode ser você também, e quer saber? Está tudo bem.

Recorrer ao alimento em busca de conforto, descanso ou calma é um comportamento que aprendemos em determinado momento de nossas vidas e que seguimos repetindo e repetindo até formar um padrão de resposta ao estresse.

O que já sabemos é que esse padrão não é fácil de mudar. É preciso paciência e consciência. O problema é que estar consciente na maior parte do tempo é um exercício em si mesmo que requer esforço e ninguém gosta de se esforçar quando o cansaço bate.

Eu entendo o desejo que querer manter a alimentação nos limites normais sempre, mas nada na vida é constante, muito menos a nossa alimentação, então é natural passarmos dias ou fases em que parece termos voltado para a estaca zero, o que não é verdade. Cada momento é um novo aprendizado.

Está tudo bem se você recorreu ao alimento num momento que não deveria. Está tudo bem.