Concentre sua energia em pessoas que te façam sentir bem

Sobre amizade, anjos e demônios

No final da minha viagem, eu finalmente comecei a ler o tão aclamado livro Comer, Rezar, Amar, da Elizabeth Gilbert. É, eu sei que estou um tanto atrasada para fazer alguma avaliação sobre um livro que todo mundo já leu, mas a minha intenção aqui é outra. A minha conversa hoje é sobre amizade.

Em 2010, eu recebi o livro Comprometida da mesma autora como presente de Natal do Matt, o que nos ajudou demais a dar forma ao casamento que temos hoje, com muita comunicação e respeito à liberdade do outro. Desde então, sempre nos referimos à Elizabeth Gilbert com o maior carinho e respeito aqui em casa, mas por alguma razão desconhecida, eu ainda não havia lido o livro mais famoso dela, o que felizmente foi corrigido na nossa lua de mel.

Engraçado como encontramos respostas aos nossos dilemas nos lugares mais incomuns. No meu dilema sobre uma amizade em particular, eu encontrei a resposta no livro Comer, Rezar, Amar - um livro para pessoas que procuram respostas a outros tipos de dilemas - mas tudo bem, o importante foi que eu encontrei e estou me sentindo muito menos culpada pela decisão tomada.

Eu decidi ser mais seletiva com as pessoas a quem eu dedico o meu tempo e a minha atenção, e esta foi uma das decisões mais difíceis que eu já tomei. Por alguns meses, eu tenho me sentido uma egoísta pretenciosa por me achar boa demais para selecionar as minhas amizades. Afinal, eu sempre acreditei que temos que estar de coração aberto a todos e amar ao próximo como amamos a nós mesmos e, de repente, aqui estou trancando o meu coração e decidida a entregar a chave apenas aos merecedores.

Há alguns anos, tenho sido amiga de alguém com quem divido boa parte das minhas experiências e sonhos, mas já faz dois anos que eu comecei a duvidar dos benefícios dessa amizade para o meu bem-estar mental, e só agora estou tomando coragem de por um fim nisso para o bem de todos e, principalmente, para o meu próprio bem. E por "fim" não entenda como um fim oficial. Melhor salvar as energias de um final dramático para fazer algo mais produtivo. Eu só estou abrindo mão dos esforços necessários para manter uma amizade viva e estou decidida a fazer isso sem nenhum remorso.

O problema até então era que eu não conseguia arrumar as palavras certas para explicar o porquê do afastamento de alguém que já foi tão querida na minha vida. E, como resultado, eu continuei levando a relação adiante para não me sentir tão ruim comigo mesma.

Depois de meses lidando com o dilema de uma amizade sem sucesso, eu li um trecho no livro que, finalmente, de uma maneira simplista, tirou o peso dos meus ombros e me fez ver as relações a partir de uma nova perspectiva. A autora cita a experiência de Santo Antônio em seu retiro no deserto, quando foi acometido por visões de anjos e demônios. Nas suas visões, alguns demônios se pareciam com anjos e alguns anjos se pareciam com demônios. É claro que todos, inclusive eu, ficaram intrigados em saber como é que ele conseguia diferenciar um do outro.

Minha amiga é sempre tão gentil e educada, tão admirável em sua elegância e bom gosto, que nenhum motivo parecia suficiente para me afastar de tanto encantamento. Ela era um anjo.

Santo Antônio então respondeu que só se pode saber quem é quem com base na sensação que fica depois que ele foi embora. Se você ficar arrasado, então foi um demônio que veio visitá-lo, se você se sentir mais leve, foi um anjo.

E assim, sem pensar demais nos meus porquês, eu simplesmente lembrei da sensação estranha que fica depois que nos encontramos, do mal estar provocado pelos comentários ácidos dela pronunciados com um sorriso anestesiante, e do meu sentimento de inadequação quando eu me empolgo sendo eu mesma. Ela não me faz bem. E a maior prova disso é que quando ela vai embora, eu fico arrasada.

Amizades vêm e vão, e se você tiver muita sorte terá um ou alguns poucos amigos que ficarão para sempre. Por mais que pareça cruel, a verdade é que não podemos manter cada amigo que já fizemos ao longo da vida. Ninguém tem o tempo e energia para isso. Se você não escolher conscientemente em quais relações se focar, terá muito menos a oferecer a quem mais merece: aos anjos.