Compulsão alimentar, anorexia e corrida

Quando comecei este blog, eu não tinha noção de que encontraria tantas mulheres ao longo do caminho que também têm ou tiveram algum problema com a comida - relacionado ou não com um transtorno alimentar. Mulheres que tentaram dietas de emagrecimento, dietas de engorda, medicamentos, chás milagrosos, excesso de exercício físico, vômitos, jejum e tantas outras medidas.

Não se engane pensando que eu me refiro às mulheres gordinhas. Essas mulheres são saradas, cheinhas, magrinhas, violão ou obesas. Quando o assunto é comida, temos muito mais a revelar do que o nosso corpo mostra.

Foi por isso que resolvi abrir um espaço no Brigadeiro de Alface para dar voz a quem quer dividir um pouco da experiência por aqui. Eu espero que este seja um espaço em que possamos expressar abertamente o que sentimos. Um espaço livre de julgamentos e tabus.

Com a palavra, a Dri:

Olá! Eu sou Adriana, carioca, 35 anos, ex-gordinha, ex-anoréxica, ex-compulsiva e me considero curada pela atividade física.

Eu fui um bebê gordo, daqueles que não tem pescoço de tão “fofinho”. Emagreci e fiquei magra até os 9 anos, quando me mudei para longe dos meus amigos e passei a ter uma vida totalmente sedentária. Meu lazer era ler e ver TV, tudo regado a lanchinhos. Comia a toda hora: frutas, sanduíches, biscoitos, além de todas as refeições de praxe. Era capaz de comer uma pizza sozinha, uma travessa de lasanha, ou um pote de sorvete. Eu comia muito e comia sempre. Ultrapassei os 70kg, aos 12 anos, com 1,58m. Usava o mesmo manequim da minha mãe, 30 anos mais velha. Não tinha fôlego para correr e nem para subir uma ladeira. Meus índices estavam péssimos, com colesterol alto e risco de diabetes.

Aos 13, entrei na adolescência e a vaidade começou a surgir, tive amores platônicos, que faziam bullying comigo, enfim, péssimo. Nesta mesma época, minha mãe me levou ao médico preocupada com a minha saúde. Lá ouvi que, se continuasse daquele jeito, teria um enfarte aos 30. Foi quando enfrentei minha primeira dieta: três colheres de sopa de arroz, uma concha de feijão, um filé pequeno, meia laranja, salada à vontade.

Crédito: Adriana Fogel

A primeira vez que montei meu prato assim, ele ficou tão vazio... Fiquei frustrada, sempre gostei de prato cheio. Três colheres de arroz, para mim, soavam como três grãos e, por isso, acabei desistindo de comer tudo que deveria ser consumido em moderação. Detestava salada, mas como era a única coisa que eu podia comer à vontade, aprendi a gostar. No fim, fiquei só com proteína e salada. Se não tinha esta opção, ficava com fome. Tomava um copo de leite de manhã (uma colher de leite em pó e água - receita são duas, mas eu colocava uma só), salada e carne no almoço e, no jantar, se estivesse em casa, repetia isso. Se não, ficava com fome até o dia seguinte.

Fui comendo cada vez menos e me exercitando cada vez mais: subia e descia escadas sem precisar, andava quilômetros sem rumo, só para ficar em movimento.

Em seis meses, cheguei aos 35kg, manequim 34, caindo pelos quadris. Sim, eu estava anoréxica, depressiva e me achava gorda. Fiquei sem menstruar. Minha mãe era parada na rua por curiosos que perguntavam se eu estava doente, com câncer ou AIDS. Anorexia é uma doença bem complicada, capaz de matar. Graças a Deus e ao apoio da minha família, sobrevivi.

Crédito: Adriana Fogel

Percebi que estava magra quando deixei de encontrar roupa nas lojas femininas e passei a usar roupa de criança. Naquela época, roupas de criança eram bem infantis mesmo e eu queria usar as marcas que minhas amigas usavam. Foi então que eu resolvi engordar. Como? Com biscoito, chocolate, pizza e tudo que eu havia me privado de comer. Pelo menos tinha acrescentado duas coisas na minha vida: atividade física e saladas. Ainda assim, engordei 10 quilos em 1 ano. Não sabia comer pouco: era o pacote inteiro, a barra de chocolate toda, a travessa de uma vez só.

O medo de engordar voltou. Foi quando descobri que comer e malhar fazia a conta fechar, contanto que eu controlasse a compulsão. De novo, busquei ajuda da atividade física, mas desta vez eu procurei opções que me davam prazer. Com o tempo, a atividade física diminuiu a minha ansiedade e, como consequência, a frequência das compulsões diminuiu. Eu me apaixonei pela atividade física.

Este ano completei minha primeira meia-maratona. Na linha de chegada, esta história toda passou pela minha cabeça e eu chorei. De emoção, de orgulho de mim mesma, de felicidade por estar viva e saudável.

Agora quero me tornar a melhor versão de mim: parar de contar calorias, deixar de me pesar e finalmente me livrar dos meus “eus” passados. Acreditar que eu posso me controlar. Quero ter orgulho do meu corpo e parar de judiar dele. Esta é minha meta hoje. Estou na terapia e só por isso tenho coragem de contar isto tudo, me expor, mostrar fotos que ficaram escondidas no fundo do baú por anos.

Pratico atividade física por prazer, me alimento bem porque meu corpo merece ser nutrido e vejo que a vida sem contagem de calorias está próxima. Tenho medo de voltar à anorexia e à obesidade ainda. Foram épocas que deixaram marcas e, volta e meia, penso que os gatilhos do descontrole ainda estão comigo. Não posso apagar o passado, tenho excesso de pele na barriga, a pele é a cicatriz que ficou. Quero ocupar esta pele com músculos. Vou conseguir? Não sei, ninguém pode me garantir. Sei que é uma meta ousada, mas eu não quero desistir. É um projeto fútil? Pode ser, mas minha autoestima não tem preço e, enquanto esta busca me deixar feliz e bem comigo mesma, eu continuo.

A dica que eu deixo é: acredite em si mesma, creia que você merece ser feliz. E lute por isso. Se eu conseguir ajudar ou motivar alguém com este texto, nem que seja uma pessoa só, já cumpri minha missão.

E se você quiser saber como é meu dia a dia hoje, tenho um perfil no instagram com o meu marido: instagram.com/a3f2. Vou amar manter contato por lá.

Beijos,

Dri