Compensar ou Engordar?

Eu só tenho a agradecer os comentários, emails e mensagens que recebo de vocês dividindo as suas histórias, dúvidas e anseios ou dando aquele apoio moral que eu tanto adoro. Meu muito obrigada de coração.

Como recebo muitas perguntas, resolvi responder as mais frequentes em formato de post. Então a partir de agora teremos o "Erika responde" no BdA. Para começar, eu vou responder a uma pergunta das perguntas mais frequentes:

Medo de engordar

Erika responde: Você engordou durante o período de tratamento da compulsão?

Eu sempre fui gordinha desde quando me entendo por gente. Eu não era extremamente grande, mas os pediatras sempre me pediam para emagrecer e o meu peso era uma das pautas do dia nas reuniões familiares.

Como eu não gostava de ser maior do que todo mundo, eu tentei inúmeras vezes emagrecer e obtive bons resultados em algumas das tentativas. Eu emagrecia alguns quilos mas voltava a ganhar o que eu tinha perdido mais alguns quilos extras. A cada ano eu ficava mais e mais pesada.

Quando me mudei para a Holanda estava com 86kg e completamente descontente com a minha aparência. Foi daí que resolvi começar uma dieta restritiva de cerca de 1000 kcal que me fez secar rapidamente.  

Eu fiquei com 66 kg, e foi nesse processo de emagrecimento que os episódios de compulsão começaram a surgir. Como eu compensava os excessos na academia, o meu diagnóstico foi de Bulimia nervosa não purgativa, que é diferente da compulsão alimentar, ou melhor dizendo, do Transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP). Quem tem episódios de compulsão alimentar e não tenta se livrar das calorias ingeridas pode ser diagnosticado com TCAP. No meu caso, eu me esforçava e muito para queimar tudo o que eu tinha comido. Eu já cheguei a explicar o que é exatamente a compulsão alimentar e a diferença entre um episódio de compulsão e o transtorno alimentar. Se você quiser saber mais dê uma olhada aqui.

Quando fui procurar tratamento, o meu maior medo era o de engordar. No centro em que me tratei, haviam reuniões de grupo semanais em que todo mundo tinha que passar pela balança. O momento da balança era motivo para desespero e ansiedade, mas ninguém escapava. Eu me lembro que eles até ofereciam a possibilidade de pesagem cega, quando a terapeuta ia com você para anotar o seu peso sem que você soubesse. Eu nunca cheguei a passar pela pesagem cega, mas o meu coração batia mais forte quanto eu subia na balança.

No tratamento que eu fiz, eu tinha que seguir um cardápio básico alimentar desenvolvido pelo Centro de Nutrição Holandês, que define o que é considerado culturalmente e nutricionalmente como “comer normal”. Nesse cardápio, eu tinha que comer muito mais do que eu estava acostumada na minha dieta.

Eu tinha certeza que ficar mais pesada era um preço que eu teria que pagar para acabar com as minhas compulsões. 

Depois de algumas semanas participando dos encontros semanais eu comecei a ficar tão exausta de comer demais e depois correr para queimar, que a ideia de ficar acima do peso para o resto da vida me pareceu melhor do que uma vida com transtorno alimentar.

Para a minha grande surpresa e aprendizado, eu não engordei um quilo sequer durante o tratamento. Eu comia o suficiente todos os dias, sempre com sobremesa depois do jantar e não engordava.

Durante o tratamento eu entendi que é melhor comer do que se restringir, mesmo para quem quer perder peso. Eu sei que pode parecer loucura, mas é pura matemática.

Quando nos restringimos demais durante alguns dias, acabamos comendo muito mais naqueles momentos em que a nossa guarda está baixa. E acredite, esses dias chegarão.

Funciona mais ou menos assim: é melhor consumir 2000 calorias todos os dias durante uma semana do que 1200 calorias durante 5 dias mais 2 dias com compulsão alimentar.

  • Alimentação equilibrada: 7 dias x 2.000 calorias = 14.000 calorias
  • Restrição + Compulsão: (5 dias x 1200 calorias) + (2  dias x 5000 calorias) = 16.000 calorias

É claro que a necessidade calórica de cada um é diferente e que caloria é uma maneira questionável de avaliarmos o que comemos, mas este foi só um exemplo de como a restrição alimentar pode ser um grande desfavor. 

É verdade que pode haver ganho de peso durante o tratamento, principalmente para quem está abaixo do peso normal ou para quem restringe extremamente o que come, mas isso jamais deve impedir ninguém de tentar melhorar. Para quem tem sobrepeso acontece normalmente o contrário. Assim que as compulsões diminuem, a pessoa emagrece.

Não adianta, o corpo é uma máquina incrível mesmo. O que ele quer é que fiquemos saudáveis estando mais leve ou mais pesada. 

Se tratar a compulsão vale a pena? Sim, vale. Nem que para isso venham os tão temidos quilos a mais. Não há nada mais desconfortável do que ser escrava da comida e da balança.

Para quem quiser saber mais sobre a minha trajetória é só clicar aqui.