Como aceitar o que odiamos

Eu sempre fiquei intrigada com este negócio de que a aceitação é o primeiro passo para promover a mudança que você deseja. Afinal, se o desejo de mudar geralmente implica que há algo indesejável na situação atual, como é que aceitando essa situação me faria mudar? Não seria então mais condizente dizer que a rejeição leva à mudança?

Se levarmos apenas a semântica da palavra em consideração, não faz nenhum sentido associar mudança com algo que aprovamos, validamos e concordamos. Mas depois de muito tempo batendo a cabeça, eu entendi que a aceitação pode ser vista como negativa (raiva, frustração e aversão que sentimos à situação atual), ou como positiva (entendimento da situação, conhecimento e planejamento do futuro que almejamos).

Neste post, eu vou abordar o contexto positivo da aceitação. E, para começar, que tal tirarmos da cabeça a ideia de que aceitação = estar de acordo? Afinal, eu nunca estive de acordo em passar anos comendo compulsivamente, ingerindo açúcar por duas ou três pessoas, e me sentindo um lixo por fazer tudo isso. A aceitação que proponho não tem nada a ver com resignação, e sim com o reconhecimento e entendimento da situação que você quer mudar.

Para todas nós que almejamos algo diferente para o futuro, o caminho é o mesmo: é preciso conhecer e entender o que queremos mudar. Somente entendendo a situação é que conseguimos mudá-la. É como o psicólogo alemão Kurt Lewin lindamente afirmou:

"Se você quiser verdadeiramente compreender algo, tente mudá-lo."

No meu caso, eu estava cansada de não ter controle nenhum sobre o que eu comia, e de ainda ter que lidar com o resultado da comilança estampado no meu corpo. Era frustrante fracassar toda vez que eu tentava uma dieta. Naquela época, eu acreditava que eu não tinha força de vontade ou determinação, e que tudo estaria resolvido quando eu conseguisse me controlar. Eu entenderia, anos mais tarde, que controlar ou lutar contra si mesma pode funcionar por algum tempo, mas chega o momento em que a vida acontece, os problemas aparecem, e acabamos desistindo.

O meu erro era pensar que o meu comportamento me definia. Hoje eu sei que posso me comportar de mil maneiras diferentes, mas que isso não muda o fato de eu continuar sendo quem eu sou.

 
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Todas nós temos comportamentos bons e ruins, e devemos sim mudar aqueles que estão nos prejudicando, mas jamais podemos cometer o erro de achar que um comportamento ruim nos faz uma pessoa ruim. Ao separar uma coisa da outra, fica bem mais fácil aceitar a situação que você quer que mude.

Tenha em mente que o seu ataque de geladeira noturno (comportamento) pode ser uma procura por relaxamento (intenção). Mesmo que o comportamento seja ruim, a sua intenção é boa - você só está tentando suprir a necessidade legítima do descanso, o que é ótimo. Você está sendo amável e atenciosa, mas escolheu o comportamento errado.

Ao distinguir a pessoa do comportamento, abrimos espaço para a escolha. Se eu sei que há outras maneiras de conseguir o que quero (relaxamento neste caso), eu posso escolher, por exemplo, cancelar alguns compromissos para relaxar em casa, ou me dar uma massagem de presente. Quando reconhecemos as nossas necessidades, a maneira como as suprimos fica à nossa escolha.

É por meio da aceitação do nosso comportamento ruim e do reconhecimento das nossas necessidades que a mudança pessoal é provocada .

Que tenhamos força para aceitar o que podemos mudar!