Como a mídia trata o corpo feminino

E como isso te afeta

Eu acordo todas as manhãs e me olho no espelho enquanto escovo os dentes. Ao entrar na sala para montar o café da manhã também fico de frente ao espelho. Após o banho é mais uma oportunidade de me checar novamente. Daí eu me maquio e dou uma última olhadinha antes de sair de casa, só para verificar se está tudo conforme. Tem dias que eu simplesmente me olho, tem dias que eu me admiro e tem dias que paro e avalio cada parte do meu corpo com a frieza e o cuidado necessários para selecionar a melhor maçã da feira.

Esta semana houve a polêmica do portal R7 divulgando fotos da jornalista Fernanda Gentil numa praia do Rio de Janeiro. A legenda da matéria era “Expectativa x Realidade: Veja o que acontece quando a Fernanda Gentil tira a roupa”.

Pela primeira vez este ano, uma matéria desta natureza foi motivo de comoção entre os internautas. Todo mundo entendeu o conteúdo denegrindo a carismática Fernanda Gentil como um verdadeiro apedrejamento público e o portal retirou as ofensas do ar e enviou um pedido de desculpas à jornalista.

A matéria continha um monte de fotos da jornalista de biquíni com legendas explicando que ela tinha mais curvas que do as roupas revelavam, além de celulites; que o bumbum era meio reto e que as gordurinhas faziam dela uma mulher como qualquer outra. Ainda encerraram os comentários elogiando o figurinista dela por ter sido capaz de disfarçar tão bem as imperfeições.

Muitos publicaram sua aversão ao portal, muitos mostraram revolta. Aproveitando a deixa, o portal Ego da Globo publicou as mesmas fotos informando que Fernanda estaria grávida e que a barriguinha dela estava pequena para os dois meses de gestação. O portal Ego, para quem não lembra, é o mesmo portal que publica semanalmente foto de celulites, barrigas e corpos flácidos de mulheres conhecidas. 

Para completar, o R7, depois de humilhar o corpo da Fernanda no site e deletar a matéria, ainda teve a audácia de lançar a hashtag #somostodasgentil pelo fim da “patrulha do belo”.

Deu para perceber a ironia?

O que importa mesmo é a polêmica e onde houver polêmica tem notícia.

Histórias como essa vemos todos os dias, quem é que não lembra da Betty Faria, com mais de 70 anos sendo hostilizada por usar biquíni na praia? E das celulites da Juliana Paes?

Grande parte da mídia que cobre a vida de figuras públicas tem como importante fonte de renda os corpos dessas mulheres, que são usados em um perverso jogo midiático.

Primeiro eles promovem alguém à musa, sarada, gostosa e sexy, até que ela se transforme em uma deusa idealizada. Depois rebaixam essa deusa à mera mortal exibindo partes de seu corpo que fazem dela humana.

Pode parecer muito normal ver famosas sendo apedrejadas por terem corpos considerados imperfeitos, mas esse tipo de insulto também nos ofende.

Cada vez que paramos em frente ao espelho para analisar partes do nosso corpo que não estão como gostaríamos, fazemos exatamente o que a mídia faz com as famosas. Nós reproduzimos em casa um comportamento que consideramos normal: fatiar o nosso corpo e avaliar essas partes separadamente.

Investigar o corpo de famosas como se fossem propriedade pública é transformá-las em objetos.

Quando você transforma o corpo de alguém em objeto, você perde qualquer identificação ou empatia com aquele alguém. Isso faz com que nós, homens e mulheres, passemos a analisar o corpo feminino com o distanciamento de quem analisa um móvel com arranhões que pode ser substituído a qualquer momento. Nós passamos a desconsiderar o fato de que somos seres humanos avaliando um outro ser humano.

Essa é mais uma forma de reduzir a mulher à soma de partes de um corpo, de torná-la um objeto impessoal, e é isso que estamos fazendo em casa com nós mesmas.

De tanto ver esse tipo de avaliação na mídia, começamos a reproduzí-la em casa. Nós nos vemos e vemos nossas familiares, amigas, professoras, colegas de trabalho e até transeuntes como se fossem a soma de partes imperfeitas de corpos.

Estamos perpetuando um comportamento que nos diminui como ser humano e não há autoestima que resista à essa loucura. Todas estamos envolvidas nisso, todas somos vítimas, mas não #somostodasgentil. Somos muito mais inteligente que isso.

Pelo seu bem-estar, comece a questionar cada foto de corpo feminino que surgir na sua timeline promovendo alguém à musa ou reduzindo alguém à humana. O seu espelho só tem a agradecer e a humanidade também.