Comi demais, o que fazer?

Certo dia eu acordei com a ideia de que eu não deveria comer, isso porque eu havia comido compulsivamente no dia anterior. Eu não conseguia aceitar ter colocado todo o esforço da dieta por água abaixo. Mesmo acordando faminta, eu não comi. Eu tinha que compensar, eu tinha que corrigir o que havia feito de errado.

Foi assim, em um dia qualquer que eu comecei a compensar os meus excessos e isso virou rotina. O pior é que não acontecia apenas quando eu comia demais. Às vezes, eu compensava antes mesmo que o mal acontecesse. Se eu tivesse um churrasco, por exemplo, eu já começava o dia tomando um café da manhã minúsculo ou correndo desesperada para queimar as calorias que ainda estariam por vir.

Eu fui por muito tempo vítima da compensação e sempre achei que esta era a melhor maneira de manter o corpo enxuto sem precisar me privar de comer o que eu gostava. Ledo engano! Mal eu sabia que a compensação era o que mais contribuía para o meus episódios de compulsão alimentar e de comilança excessiva.

A compensação passou a fazer parte da minha vida ao ler os depoimentos de famosas saradas sendo entrevistadas por revistas de saúde e emagrecimento. As revistas sempre faziam as mesmas perguntas todos os meses e eu acreditava estar lendo algo novo a cada mês. Incrível a minha ingenuidade! A fórmula milagrosa para a barriga chapada das famosas era, além de seguir determinada dieta, compensar os exageros malhando ou comendo menos no dia seguinte.

Foi baseada na estratégia das famosas, que eu tive a grande ideia de começar a compensar o que eu comia. No começo, eu compensava com dietas detox de dois ou três dias - só de ouvir a palavra detox agora já me arrepio - mas depois eu descobri que compensar malhando também era uma opção. Quando comia demais, eu calculava as calorias que havia ingerido e corria para a academia queimar os meus excessos. Quando eu comia compulsivamente, a minha culpa também era compensada na esteira.

Se isso funciona? Não, não funciona.

 
O que fazer depois da jacada
 

Você pode até ter a ideia de que compensar te deixa mais livre para comer o que quiser, mas a compensação é uma prisão na qual ninguém deseja viver. Compensar cria um ciclo que muitas vezes pode ser vicioso. Um ciclo que leva à compulsão alimentar - quanto menos você tenta comer, mais acaba comendo.

A figura abaixo explica bem como o ciclo da compensação funciona:

  1. Fazer dieta: restrição ou eliminação de alimentos.
  2. Comer demais: a restrição leva a comer em excesso ou compulsivamente.
  3. Sentir culpa: arrependimento por não ter conseguido seguir a dieta e ter comido muito mais do que o recomendado.
  4. Compensar excessos: tentativa de corrigir o erro cometido ao comer demais
  5. Repete.

A minha preocupação constante em ter que compensar o que eu comia demais alterava completamente a meu dia e a maneira que eu reagia aos eventos ao meu redor. Eu viva tensa e negativa planejando o que eu ingeria e o que queimava, com um medo enorme de ganhar peso.

 
Compensação e compulsão alimentar
 

Na minha opinião, o pior inimigo para a saúde física e mental é a dieta, e o segundo pior inimigo é a compensação. Eles caminham lado a lado e um fortalece o outro. Tanto a dieta quanto a compensação nos desconectam das necessidades do corpo, uma vez que tentamos controlar artificialmente como ele funciona. Com isso, deixamos de reconhecer os sinais de fome e saciação que são básicos para equilíbrio da saúde e do peso.

Quando tentamos compensar o que comemos malhando em dobro ou comendo a metade do que precisamos, sujeitamos o nosso corpo a um estresse extremo e o colocamos em estado de alerta. Dessa forma, o nosso metabolismo fica lento para garantir a nossa sobrevivência, daí já viu, né? Se o objetivo era emagrecer ou manter o peso, esqueça. Você vai ter que ser cada vez mais radical ao compensar para obter o mesmo efeito.

A verdade é que não podemos controlar como o nosso corpo trabalha. Se isso fosse possível, não haveria obesidade no mundo e todo mundo conseguiria controlar o quanto pesa sem desenvolver nenhum transtorno alimentar. O nosso corpo é um organismo inteligente que funciona de acordo com suas próprias regras e necessidades, e o único meio de viver em paz com ele é ouví-lo e não forçá-lo a agir como desejamos.

 
o que fazer depois da jacada
 

Se bater o desespero depois da comilança não faça nada. Tente entender o porquê isso aconteceu, aprenda com os seus erros e procure melhorar da próxima vez. Esta é a melhor forma de lidar com os excessos. O que você comeu é passado, foque no presente e não pense no futuro.

O nosso corpo fica cada vez mais saudável e bonito quando começamos a cuidar dele com carinho.  Se você se alimentar de maneira variada e suficiente para as suas necessidades diárias, abrindo espaço para alimentos de todos os tipos, e se acrescentar movimento à sua rotina, vai perceber a diferença enorme que isso acarreta no seu bem-estar. 

Quando entramos no ciclo de dieta e compensação, nem sequer conseguimos mais distinguir o que é fome e quando estamos saciadas. 

Ao sair desse ciclo, o nosso corpo começa a fazer o que ele faz de melhor: regular as nossas funções vitais e, é claro, o nosso peso. Confie no seu corpo.