Comer ou não comer pão?

Com ou sem glúten

A discussão sobre o pão é um tema que divide nações em dois, os que defendem e os que abominam o consumo dele. Há alguns anos atrás o problema do pão era ter muito carboidrato, mas agora parece ser esse tal de glúten. Se você der uma olhada nas gôndolas do supermercado dá para ver que aquela área dedicada aos produtos sem glúten só tem aumentado.

Não conter glúten virou sinônimo de ser saudável, o que abriu mercado para um monte de empresas lançando produtos altamente industrializados, cheios de aditivos químicos e açúcar, mas sem glúten. E acreditem, eles são comercializados como saudáveis.

Eu, como comedora de pão assumida, comecei a ficar intrigada em saber se o glúten é mesmo este vilão que estão pregando ou se é apenas mais uma onda que vai passar, assim como a ração humana também passou. Eu preciso saber se o meu pão de cada dia está acabando com com a minha saúde como andam dizendo.

O glúten ganhou fama de mal especialmente depois do sucesso do livro “Barriga de Trigo” do William Davis. Se você não leu, com certeza já deve ter ouvido falar desse livro. Nele, o cardiologista defende que o glúten é um veneno que causa artrites, asma, esclerose múltipla e esquizofrenia, sem falar na bendita barriga. Foi pensando em se livrar dela que muita gente decidiu cortar o pão e outros produtos com glúten. Tudo em nome de um corpo esguio.

 
Comer pão é saudável?
 

O glúten é uma proteína presente naturalmente em diversos cereais como trigo, aveia, centeio e cevada, e em seus derivados. Ele funciona como uma cola que une todos os ingredientes da massa e dá aquela textura caracterísca do pão e do bolo. É graças a ele que as massas fermentam e crescem.

A gente já consome o glúten há pelo menos 10 mil anos, mas apenas recentemente começamos a nos preocupar com os possíveis riscos dele à saúde. Para quem tem Doença Celíaca - cerca de 1% da população - o glúten pode provocar danos sérios ao intestino delgado. Para os celíacos, eliminar o glúten não é uma questão de escolha mas de necessidade. E tem um outro grupo crescente de pessoas que são sensíveis ao glúten, mas não são celíacas.

Muitas pessoas estão embarcando na ideia de que comer sem glúten é saudável e emagrece, mas será?

 
Comer glúten engorda
 

A verdade é que até agora não há estudos científicos conclusivos de que o glúten não é saudável. Para complicar ainda mais, eles encontraram resultados que começam a indicar que talvez não seja o glúten que cause sensibilidade ou intolerância em algumas pessoas, mas uma série de carboidratos fermentáveis chamada FODMAPs.

 
Glúten faz mal
 

Eliminar o consumo de glúten significa eliminar todos os produtos preparados com trigo, aveia, centeio, cevada e malte. Então aí você exclui pão, bolo, torta, pizza, salgadinhos de festa, massa, cerveja, vodka, achocolatado, bolacha e muitos dos produtos industrializados encontrados no supermercado. Fica fácil entender que eliminando produtos com glúten é uma forma de eliminar produtos com alto teor calórico. Abracadabra!!! O segredo da dieta mágica “sem glúten” foi revelado.

Sem falar que quando alguém decide comer sem glúten mesmo não sendo celíaco, normalmente já está procurando adotar um estilo de vida mais saudável, com mais frutas e verduras. Daí emagrecer é uma consequência lógica.

Mas, por outro lado, é fácil cair na armadilha de que podemos comer mais porque é sem glúten. A gente acaba esquecendo que o bolo sem glúten continua sendo bolo.

 
Comer pão engorda
 

Não há razões científicas para ter medo do glúten.

Todos queremos saber o que é saudável comer, mas eu percebo que às vezes levamos isso muito ao pé da letra e esquecemos de que comer não é apenas ingerir nutrientes.

A sensibilidade ao glúten ou aos FODMAPs é real, mas ela não se encaixa a todas as pessoas. Para quem não é sensível ou intolerante, não há razão para eliminar o glúten da dieta, nem mesmo para perder uns quilinhos. 

As vantagens da onda sem glúten foi a valorização de muitos ingredientes brasileiros que andavam esquecidos, como a tapioca, o milho e a mandioca. A gente também acabou descobrindo como assar usando farinha de coco, de amêndoas, de amaranto e de quinoa - o que foi ótimo -, mas não há motivos para eliminar o pãozinho nosso de cada dia feito com o velho e conhecido trigo.

Comer de maneira variada ainda continua sendo a melhor opção para o nosso corpo e para a nossa mente.