Comer escondido na casa dos outros

Este mês foi aniversário do homem mais importante da minha vida, o Matt.

Como o grande dia dele calhou com a Páscoa, fomos comemorar na casa dos meus sogros em uma festinha íntima no jardim, bem do jeito que ele gosta. Para a comemoração tão importante, resolvi fazer a tão famosa torta holandesa que todos no Brasil conhecem, mas que ninguém aqui na Holanda nunca ouviu falar. Sim, a torta holandesa não é holandesa, mas de Campinas! Eu só dei uma incrementada colocando framboesas por cima e ficou maravilhosa.

Sempre que podemos, nos refugiamos nos meus sogros durante o fim de semana, e por dois dias nos desligamos de tudo e voltamos a ser crianças, mimadas e cuidadas pela mamãe e pelo papai. Como lá não precisamos nos preocupar com nada, voltamos para casa com as energias recarregadas para começar uma nova semana, mas isso nem sempre foi assim.

Quando eu cheguei na Holanda, a excitação e o estresse de uma nova vida me faziam comer como louca. Eu simplesmente não conseguia parar de comer: era o dia inteiro mastigando ou pensando no que eu poderia mastigar. A casa dos meus sogros era um dos momentos mais felizes que eu tinha, porque lá eu me sentia acolhida e parte de uma família. Mas ao mesmo tempo que era maravilhoso, era também estressante estar em volta de tantas novidades alimentícias, culturais e linguísticas.

Se estou em casa, a minha alimentação consiste em três refeições principais e dois ou três lanchinhos, mas quando estamos nos meus sogros, o café da manhã e o almoço são combinados em um brunch reforçado, e no lugar do almoço sempre é servido um pedaço de bolo ou torta com chantilly de acompanhamento. E daí seguimos o dia beliscando queijos, pães e embutidos até a hora do jantar.

A minha sogra é super hospitaleira e carinhosa, então sempre há flores espalhadas pela casa, velas, vinhos e comida, muita comida. A bomboniere fica na sala de estar recheada com bombons ou marshmallows gritando para serem deliciados.

Com o tempo, percebi que isso de ficar beliscando o dia inteiro me afetava bastante. Eu já citei aqui que meu estilo de alimentação é tipo servente de pedreiro, com refeições reforçadas e de sustância. Por isso, quando eu não sento para comer uma refeição propriamente, é como se eu não tivesse comido. Eu meio que passo o dia no limbo - sem sentir fome e sem me sentir satisfeita.

No começo, eu não sabia muito bem como lidar com a falta de refeições definidas e com tantos doces sendo oferecidos. Eu não entendia isso de comer só um pouquinho e me sentia péssima por querer comer tanto, já que todo mundo se dava por satisfeito com apenas uma porção, enquanto eu ficava salivando para devorar um segundo ou terceiro pedaço. E ainda tinham aqueles bombons que ficavam ali olhando o dia inteiro para mim. Era muita, mas muita força de vontade para resistir à tantas delícias com o estômago meio que vazio, meio que cheio.

Quando eu finalmente ia para cama depois de um dia cansativo em torno da comida, eu tinha madrugadas mal dormidas. É importante esclarecer que eu não tenho insônia, não acordo para comer de madrugada, e não acordo nem ao menos para ir ao banheiro. Com isso dito, e com muito constrangimento eu vou dividir algo que ninguém sabe, nem ao menos o Matt.

Pois bem, a verdade é que quando todos estavam dormindo eu levantava, descia as escadas na ponta dos pés, abria a geladeira e comia o segundo pedaço de torta que eu havia tanto desejado, ou eu comia os bombons expostos na sala, ou biscoitos guardados no armário, ou restos de sobremesas guardados em potinhos. Eu comia tudo bem rápido, com vergonha e morrendo de medo de ser pega, e depois voltava para cama me sentindo péssima por ter feito aquilo.

O sentimento de comer escondido na nossa casa já é ruim, mas quando fazemos isso na casa de outra pessoa é pior ainda. Para mim, era como se eu tivesse traindo a confiança dos meus sogros por fazer isso. Eu me sentia uma mentira, uma farsa. Morria de medo que alguém descobrisse e, principalmente, morria de vergonha e arrependimento.

Este final de semana foi especial não apenas por comemorar o aniversário do Matt, mas também por perceber o quanto eu mudei nos últimos anos. Hoje, já me conheço o suficiente para saber que passar o dia beliscando não é para mim, então sempre tento fazer um sanduíche reforçado no almoço para sentir o estômago completamente cheio. Além disso, eu também consigo dizer não aos doces fora de hora (da minha hora!), e tenho coragem para comer o quanto eu quero e de repetir se me der vontade, sem me preocupar com julgamentos alheios ou com julgamentos da minha própria cabeça.

Ao conhecer mais o meu corpo e os meus limites, eu fui criando o meu próprio ritmo e aprendendo a respeitar as minhas vontades.

Quando nos respeitamos não temos motivo para comer escondido e paramos de focar na comida.