O smartphone está aumentando o nosso apetite?

Como as distrações estão nos fazendo comer mais

Todos já sabemos que devemos prestar atenção no que estamos comendo pelo bem da nossa saúde. Volta e meia surge alguma matéria sobre emagrecimento ou obesidade infantil enfatizando a necessidade de desligar a televisão durante as refeições, e a matéria vem normalmente ilustrada com uma foto chocante de algum obeso norte-americano devorando um monte de comida com o controle remoto na mão. A mensagem é clara. “Pare de comer distraído ou você vai acabar obeso”.

A intenção pode até ser boa, mas o argumento não nos convence. A gente sabe que é preciso muito mais do que comer em frente à TV para se tornar um obeso mórbido e, atualmente, estamos mais preocupadas com os nossos smartphones e tablets. Nós não levamos o conselho a sério porque não percebemos como a distração pode influenciar o nosso apetite. Afinal, a maioria de nós não é composta de obesos que comem compulsivamente assistindo um reality show.

Comer Consciente

Eu também demorei a entender a necessidade de comer consciente, por mais que houvessem argumentos tentando me convencer disso. Comer conscientemente é até uma boa ideia na teoria, mas na prática parece ser outra coisa. Sejamos sinceras, não é nada fácil sentar sozinha em um restaurante para almoçar e não pegar nem se quer uma vez o celular para saber das novas. Assim como é difícil não assistir à sua série preferida no momento mais tranquilo do dia - durante o jantar.

Na correria do dia é natural que aproveitemos o momento das refeições para combinarmos múltiplas tarefas. Dedicar um tempo exclusivamente à alimentação parece um tanto irreal, para não dizer uma perda completa de tempo, já que a boca vai continuar mastigando enquanto lemos, assistimos ou pesquisamos algo.

Mas e se você soubesse que o seu paladar muda quando você se alimenta realizando outras atividades? E se você soubesse que precisa de uma quantidade maior de comida para se satisfazer quando come prestando atenção em outras coisas?

Por mais que pareça que o nosso paladar e apetite funcionam no piloto automático, os resultados de um estudo holandês mostram o contrário:

Os participantes do estudo tiveram que provar diferentes alimentos enquanto decoravam uma sequência de sete números (tarefa que exige mais concentração) e apenas um número (tarefa que exige menos concentração). O experimento mostrou que quanto mais os participantes precisavam se concentrar na tarefa paralela ao ato de comer, menos sabor os alimentos pareciam ter. Os alimentos foram considerados menos doce, salgado ou azedo. Os participantes, então, compensaram a falta de sabor consumindo mais alimentos para obter a mesma sensação de satisfação.

Isso indica que o sabor do alimento é definido pelo nível de atenção que dedicamos ao comê-lo.

Quando não nos concentramos ao comer, precisamos aumentar a quantidade de sal, açúcar e a quantidade de comida ingerida para ter a mesma experiência que teríamos sem a distração da tv, smartphone, música alta, revista, jornal ou livro.

Você pode estar pensando que a melhor saída seria apenas controlar o tamanho da porção, independente de comer olhando ou não para o celular. Assim, mesmo que continue faminta após a refeição, você não teria como comer mais. Por mais que essa pareça uma boa alternativa, vai chegar o momento em que a sua fome vai falar mais alto e você vai querer comer sem se encanar com a quantidade ingerida.

Confiar em fatores externos para regular o seu mecanismo de fome e saciedade é se obrigar a passar o resto da vida contando calorias e controlando minuciosamente porções. É terceirizar um serviço fornecido gratuitamente pelo seu corpo.

Estamos tão focadas em “o que comer” e “quanto comer” que acabamos esquecendo de que “como comer” também é relevante. Não tem como ver a nossa alimentação como uma conta matemática em que uma determinada quantidade controlada de nutrientes, minerais e calorias é ingerida para obter o resultado esperado. Simplesmente não funciona assim. Se funcionasse, teríamos que incluir também na conta a saciedade e o prazer, mas ainda não sabemos calcular matematicamente isso.

Ficamos preocupadas em comer apenas três colheres de sopa de arroz e duas de feijão, mas a partir do momento que o nosso corpo não registra a ingestão do alimento, nem mesmo um prato fundo será capaz de matar a nossa vontade. Queremos consumir produtos com menos sal e açúcar, mas quando as nossas papilas gustativas não registram os sabores que deveriam, não há sal nem açúcar suficientes para nos satisfazer.

Comer conscientemente, dedicando toda a sua atenção para o alimento, é uma boa ideia na teoria e também na prática. Mesmo que pareça perda de tempo dedicar uma fração do seu dia para se alimentar, você compensa o tempo e energia que seriam perdidos tentando controlar o que você está ingerindo. 

Se você quer comer menos e saborear mais, comece deixando as distrações de lado durante as refeições. Aproveite cada garfada!

Estudo: Leaving a Flat Taste in Your Mouth : Task Load Reduces Taste Perception