Carta de amor na geladeira

Sabe aquela hora que você não está com fome, mas sente uma necessidade I-NEX-PLI-CÁ-VEL de comer o que quer que seja? A boa notícia para essas horas é que há sempre maneiras de fazer você parar antes de atacar a geladeira.

Eu não sei se você é do tipo que se afunda na batatinha frita ou no pote de sorvete. Talvez você tenha o paladar mais aguçado e goste de atacar com classe, variando entre doce e salgado. Para mim, um bom ataque sempre pede açúcar. Não importa o que seja - só precisa conter açúcar, muito açúcar.

Uma estratégia bem simples que me ajudou muito a controlar meus episódios de compulsão alimentar (carinhosamente definidos por mim como “ataques”) foi uma carta de amor.

Cartadeamor.JPG

Quando eu escrevi essa carta eu já havia estudado e refletido bastante para saber que os meus ataques estavam diretamente relacionados às minhas emoções, e ao fato de eu não ter a mínima ideia de como lidar com elas. A questão é que mesmo tendo informação sobre as possíveis causas que levam ao comer emocional, é preciso tempo e artimanhas para mudar este hábito, e muita, mas muita paciência durante o processo.

O problema é que cada episódio de ataque nos joga um pouquinho mais para baixo, e acabamos acreditando que não somos capazes de controlar o que colocamos na boca. Mas isto não é verdade. Algumas simples estratégias podem sim te ajudar a parar segundos antes do ataque ou até mesmo durante, até que você esteja completamente livre desse impulso. Por isso, eu vou dividir uma das estratégias que eu usei quando estava no auge dos meus episódios de compulsão alimentar.

Aquela foi uma semana pesada de ataques quase diários à geladeira e eu já estava quase sem esperança. Todos os dias eu acordava prometendo que aquele seria um novo dia, mas de alguma forma eu acabava me deixando levar e, quando me dava conta, estava sentada olhando para a televisão rodeada de embalagens e me sentindo completamente vazia por dentro.

Mesmo estando quase no final das minhas forças e a ponto de desistir de tentar ter uma relação normal com a comida, eu me sentei à mesa e tentei escutar todas as conversas que estavam acontecendo na minha cabeça.

Depois de um pouco de esforço o que eu consegui ouvir foi um padrão de conversa como se duas versões de mim estivessem discutindo. Aquelas duas vozes tinham opiniões bem fortes e argumentos convincentes, e por alguma razão eu havia escutado apenas uma delas na última semana - a voz que me dizia que eu merecia comer, que aquele era um momento só meu no dia, que depois de tanto estresse um chocolate não iria me fazer mal e que restringir a comida só iria me frustrar.

Eu não sabia direito como nomear aquela voz, mas sabia que ela estava me impedindo de viver uma vida saudável e prazerosa com a comida e com o meu corpo. Eu sabia que aquela não era a melhor versão de mim. Eu a chamei de "Resistência".

Sentada à mesa, peguei o meu caderninho de anotações e decidi que escreveria uma carta de amor para mim mesma. Eu traduziria em palavras tudo o que eu precisava mas não conseguia ouvir quando a compulsão aparecia. E este foi o resultado:

Carta(2).jpg