Motivos para continuar sambando

Um viva à diversidade

Este Carnaval no sudeste foi um pouco diferente dos demais e me alegrou de uma maneira que não fazia há tempos. Mesmo não podendo acompanhar de perto toda a movimentação do feriado, eu assisti aqui da Holanda aos avanços democráticos do carnaval brasileiro que fizeram o meu coração bater mais forte.

Eu vi o samba gracioso de uma passista de 118kg mostrando o carnaval que queremos ver - um carnaval mais diversificado, assim como o povo brasileiro. Vi uma atriz negra figurando a “Preta de Neve” na comissão de frente de uma escola que escolheu como enredo questionar o padrão de beleza midiático. Vi um homem obeso sendo destaque como Cleópatra e um carro abre-alas com 8 modelos plus size brilhando na avenida.

Não estou dizendo com isso que o novo padrão deveria ser plus size, até porque isso excluiría as magras e menos curvilíneas. O problema não é o tipo de mulher que está sendo representado na mídia, mas o fato de que apenas um tipo está sendo representado, quando na verdade somos muitos e muitos tipos.

Por mais que muitos acreditem que dar visibilidade ao gordo é fazer apologia à obesidade, eu acredito que o quanto uma pessoa pesa não deveria limitar a sua atuação na sociedade. E, por isso mesmo, há muitas razões para comemorar a aparição de passistas acima do peso em um ambiente non grato para os cheinhos, com exceção do Rei Momo.

Carnaval é isso aí, é a manifestação lúdica da liberdade de um povo. São alguns dias dedicados a ser quem você quiser e a fazer o que tiver vontade. É um momento em que papéis sociais são invertidos e a mulata da favela ganha o mesmo destaque da mocinha branca da novela, onde o patrão e o empregado sambam juntos cantando o mesmo refrão, sem a hierarquia que cala os menos favorecidos no restante do ano. E exatamente por ser a manifestação da liberdade, é no Carnaval que deveríamos ver gordinhas e gordinhos sambando ao lado de sarados e comemorando uma folia que deveria ser para todos.

Mas não é isso o que normalmente vemos. O Carnaval no sudeste é um carnaval onde somente corpos magros e malhados são bem-vindos para desfilar como passistas ou destaques. Os demais tipos de corpos ficam espalhados entre as alas e bateria, disfarçados em uma hierarquia que representa exatamente a sociedade em que vivemos, onde o gordo fica de plano de fundo.

Quando a modelo plus size Josiane Lira desfilou em São Paulo e no Rio, ela não desfilou apenas representando as gordinhas, mas toda mulher com um corpo diferente daquele de uma rainha de bateria. E isso deve ser comemorado. Quando a atriz Cacau Protásio encarnou a “Preta de Neve”, ela representou todas as não-princesas confrontadas diariamente com mensagens que deixam claro que elas deveriam ser alguém que jamais serão. E isso deve ser comemorado.

Este ano, o Carnaval mostrou o que está acontecendo ao nosso redor. Ao poucos estamos vendo a diversidade sendo representada em todas as esferas e mesmo que o avanço seja lento, ele está acontecendo.

Qualquer mulher pode sonhar ser e fazer o que quiser independente do seu corpo.

O fato de que gordinhas sejam destaque em um desfile de carnaval é algo a ser comemorado por todas nós, gordas, magras, negras, asiáticas, altas e baixas. É o reconhecimento de que todas nós existimos para ser destaque naquilo que fazemos e não apenas para ser plano de fundo.