Até onde a Nutrição nos ajuda?

Quando sentei pela primeira vez na terapia de grupo que fazia parte do meu tratamento contra Bulimia eu esperava ver um nutricionista ali. A intenção da primeira fase do tratamento era normalizar a alimentação, então a presença do nutricionista me pareceu lógica, mas não era.

Eu estava ali sentada com a minha Bulimia frente a uma terapeuta e uma especialista por experiência em Transtornos Alimentares. Aquelas duas mulheres é que iriam me ajudar a construir uma relação saudável com o alimento.

Naquele ponto do meu TA o meu conhecimento de Nutrição era bem avançado. Eu entendia sobre enzimas e reações químicas que aconteciam no cérebro quando comemos um pedaço de bolo, eu sabia os males do excesso de açúcar, o perigo de consumir conservantes, espessantes e estabilizantes encontrados nos produtos industrializados. Eu sabia da oxidação dos óleos sujeitos a altas temperaturas, as calorias, os macros e micronutrientes, as combinações ideais de alimentos. Eu não compreendia o que a terapeuta tinha a me ensinar já que a minha dieta era super saudável e “limpa” como eles costumam dizer.

Foi durante o tratamento que eu descobri que eu precisava desaprender tudo o que sabia sobre Nutrição para curar o meu transtorno. Todos os meus conceitos de saudável precisavam ser abandonados.

O açúcar voltou a fazer parte da minha rotina, alimentos processados foram lentamente reintroduzidos, e frituras passaram a ser consideradas parte de um estilo saudável de vida sem transtorno alimentar.

Agora tente me imaginar ali reaprendendo a comer tudo o que sabia que não era considerado saudável. Tente imaginar a confusão na minha cabeça em aceitar que para ficar saudável eu tinha que aprender a comer alimentos não saudáveis. Que era esta divisão entre alimentos bons e ruins ajudava a manter o meu transtorno alimentar.

Eu queria me curar mais do que tudo, mas demorou meses para eu entender porque a terapeuta ignorava todos os meus argumentos nutricionais para evitar um determinado alimento. Ela ignorava aumento do risco de câncer, excesso de calorias, doenças cardíacas e aditivos químicos porque eu tinha algo mais urgente para ser tratado.

A Nutrição é uma ciência maravilhosa, novinha, que vem nos ensinando a todos profissionais ou não. Estamos juntos neste barco de incerteza do que comer ou deixar de comer, mas uma das lições mais importantes que aprendi na minha recuperação foi que esta confusão também nos adoece.

Eu sei, tem obesidade de um lado e tem doenças nascendo por conta do que comemos, mas também há outras nascendo por conta do que deixamos de comer, como alguns transtornos alimentares.

Se você tem algum transtorno alimentar leve isso em consideração. Feche a porta para os burburinhos nutricionais do que é bom ou ruim até que você se sinta mais forte. Nada é mais importante do que a sua saúde física e mental.