Ame-se que o resto vem, até o emagrecimento!

Eu sei que pode parecer difícil combinar amor-próprio com emagrecimento, mas este relato da Leilane veio para mostrar que está na hora de começarmos a abordar a perda de peso de uma outra maneira.

Hoje o relato é uma inspiração contra os pensamentos sabotadores que podem surgir em relação a quem somos. É um grito de libertação dos comentários que nos oprimem e das críticas que não constroem.

Com vocês, a Leilane:

Minha “briga” com o peso começou bem cedo, sempre fui uma criança gordinha e que gostava de comer e comia de tudo numa boa (incluindo muitas frutas e legumes), até que, não sei bem ao certo quando, resolveram “descobrir” o meu peso na escola, e ai começaram os apelidos, as chacotas, as ofensas (e que ofensas!), e à medida que eu crescia só pioravam. Como menstruei cedo, eu criei corpo muito nova, o que era ainda pior. Na família, as críticas eram mais suavizadas (ou não), mas vinham com força, e, sempre tinha um parente, um parente de um parente, pra julgar meu corpo, pra fazer terrorismo, pra dizer que precisava de dieta, que estava enorme e por ai vai.

E, foi assim que, antes mesmo dos dez anos, comecei a odiar o meu corpo, odiar ser como eu era, odiar gostar de comer, odiar a hora do recreio (onde eu iria ouvir que comia lanche de “pobre” (leia-se frutas e biscoito cream cracker) e ainda era gorda, ou, quando, eventualmente, comprava na cantina que era por isso que eu estava gorda, ou ainda que eu iria rasgar a trave com meu chute, ou tapa-la toda caso fosse goleira, ou secar a piscina já que era uma baleia). Eu, que já era uma criança extremamente tímida, me fechei ainda mais, e, sai dessa escola aos onze anos com uma única amiga, também gorda, e, que também sofria o mesmo bullying. Simplesmente não entrava na minha cabeça de criança por que aquelas pessoas estavam falando aquilo pra mim se eu não tinha feito ou dito nada pra elas, e, assistia a tudo aquilo passiva, engolindo o choro, engolindo a dor, e fingindo que não era comigo ou dando um sorriso amarelo, e, aos poucos fui começando achar que merecia ouvir tudo isso por ter o corpo que tinha (hoje eu sei que não, não merecia).

Eis que aos 11 anos me surge “a solução de todos os meus problemas” (not), fiz uma dieta bem restritiva, com uma nutricionista que deixou bem claro pra mim que eu só tinha duas opções na vida: ser gorda ou estar de dieta. Daí, resolvi deixar de ser gorda e entrar de dieta, e virei um general da dieta, não podia sair um grama, não podia deixar um dia de fazer minhas atividades, não podia tomar suco de laranja (mas coca zero podia, sim isso mesmo, era o que dizia a dieta), não podia comer salada de frutas (que, era, inocentemente, minha sobremesa preferida), pois era menos calórico uma fruta só, e, a salada de frutas virou meu prêmio de consolação quando queria comer um bolo de chocolate ou outra delícia do tipo e a dieta não permitia. CALORIAS. Descobri a palavra calorias, que me persegue até hoje. Mas, enfim, após três ou quatro exaustivos meses perdi 18 kg, e atingi um tão sonhando corpo magro, mas na verdade, era só o início de todos os meus problemas. Não me sentia bem com meu corpo, não queria parar a dieta, cheguei até a ficar um pouco abaixo do peso.

Minha adolescência foi toda nessa paranoia de não poder engordar, de não poder comer, de não poder sair da dieta em nenhuma hipótese.

Deixei de comer chocolate, bolo, doces, salgados, pipoca e várias outras coisas que amava e que não. Tinha que ir jantada pra festas pra não cair em tentação, não me permitia um único brigadeiro, um único pãozinho de queijo. E, ai começaram as compulsões, geralmente, perto da época das provas que eu justificava pela ansiedade. E quando passavam entrava em uma dieta de rigor ainda pior, diminuía todas as minhas refeições, deixava de lanchar, comia coisas que não queria e não gostava só porque eram menos calóricas.

Fui levando esse ciclo vicioso até mais ou menos os 17 anos, quando chegou a época do vestibular, e, a tensão foi o ano todo, daí comecei a engordar (nem engordei tanto, analisando hoje, apenas saí do mínimo de peso considerado normal pra mim e fui para o máximo), mas as cobranças da família em cima de mim foram enormes, depois que eu passei, eu TINHA que emagrecer de qualquer jeito, agora não teria mais justificativa pra meu peso.

Eu tinha passado no curso que eu queria, pra faculdade que queria, e não conseguia ficar bem por conta do meu corpo, não podia curtir minhas tão sonhadas férias pois estava de dieta, já que precisava voltar para meu menor peso a qualquer custo pra ser digna de estar feliz. Simplesmente não me aceitava daquele jeito.

Ao mesmo tempo em que eu sentia a liberdade de voltar a comer todas aquelas coisas que amava e de comer na hora que eu estivesse com vontade e não na hora que a dieta dizia, eu me punia por ter engordado, por não ter voltado pra disciplina e rigor de antes.  E iniciava dietas toda semana, que acabavam na terça ou na quarta, e eu terminava a semana comendo descontroladamente. Me punia, me culpava, me odiava e começava uma outra dieta, e, o ciclo se repetia. Isso foi me frustrando, me destruindo, acabando com minhas forças.

Chegavam momentos que eu simplesmente desistia e achava que nunca ia conseguir e, por isso, poderia comer como uma descontrolada, já que ia ser gorda mesmo. Aí arranjava uma dieta da sopa, sofria por uma semana, na outra comia o dobro. E foi assim durante toda a faculdade. Cheguei a tomar sibutramina, que controlou minha fome por um mês ou dois, mas no outro a compulsão voltou com o triplo da força. Sem falar nas milhares de atividades físicas e academias que eu odiava, mas iam me fazer secar o mais rápido possível. E o resultado de tudo isso foi que ao final da faculdade eu estava com 40 kg a mais. Fazer essas contas e falar isso abertamente foi muito difícil pra mim.  

Tentava me consolar pensando que como já era adulta não ia sofrer toda aquela enxurrada de agressões gratuitas como na escola. Ledo engano. As agressões vieram, e, vieram piores. Da menina disciplinada e exemplar da família e dos amigos eu passei a ser a gorda desleixada e irresponsável.  E ouvia críticas de todos os lados, de todas as pessoas, próximas, distantes, da família, de fora da família, de amigos, de não amigos, conhecidos, desconhecidos. Enfim, sempre tinha alguém para me dizer (como se isso fosse preciso) que eu estava gorda, que eu não estava bonita, que eu era horrível. E os elogios recebidos sempre eram acompanhados de um “se”, um “apesar”, um “até que”, um “porém”, um “quando”. Simplesmente não era digna de receber um elogio genuíno, sem que ao final, ou no início, a pessoa acrescentasse a palavra gorda/fortinha/cheinha como ressalva.  

Chegou um momento em que a sensação que eu tinha era que as pessoas,  simplesmente, tinham deixado de me enxergar e só viam a minha gordura, o meu peso. Tudo girava em torno do meu peso e do meu emagrecimento, pessoas me interrompiam em conversas que não tinham nada a ver para dizer que eu precisava emagrecer.

Se eu quebrava o pé, de alguma forma parava no meu peso, se eu ia ao médico tratar da unha o problema era por causa do peso, se tinha TPM era por causa do peso, se o cabelo não estava em um dia bom, não tinha outra, o peso.

Sem falar nos olhares e caras de nojo para mim, não foram poucos. E o velho e irritante discurso machista de que “se fosse homem gordo, tudo bem, mas mulher, como pode?” (como se problemas de peso tivesse gênero). E, como eu fazia para suportar todo esse protagonismo do meu peso? Comia escondido. Sim, a comida não me julgava, a comida não falava que eu tinha que fazer o última dieta da moda, a comida simplesmente me dava um conforto rápido e imediato, sem julgamentos, sem repreensões, mas como nem tudo são flores, trazia  uma consequência enorme: eu engordava ainda mais e vinha a culpa, pra me deixar pior. Maldita culpa.

E era mergulhada nessa culpa que eu me punia, que eu (novamente) achava que merecia ouvir tudo aquilo que estavam dizendo pra mim, toda aquela falta de respeito e de sensibilidade, revestidos de ajuda e preocupação com a saúde. Até que no auge dos meus 23 anos e no ápice do meu peso, eu fui em uma endocrinologista para tratar de um suposto problema hormonal (por um segundo tive esperanças que todo esse dilema com a balança não passasse de um problema hormonal e tudo se resolveria em um passe de mágica, mas não foi), enfim, estava eu lá sentada de dedinhos cruzados esperando ela me dizer que eu era uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer segundo,  eis, que ela me surpreende falando o que eu precisava ouvir a vida toda: (pausa dramática) SUA SAÚDE ESTÁ ÓTIMA (pausa dramática) SEUS EXAMES SÃO MELHORES QUE QUALQUER MAGRA QUE ESTEVE AQUI (pausa dramática) e por fim a BOMBA: MESMO QUE VOCÊ NÃO PERCA UM GRAMA, NÃO TEM PORQUE SE PREOCUPAR, PROVAVELMENTE NÃO TERÁ PROBLEMA DE SAÚDE NEM EM DEZ ANOS, TENTE COMER MAIS SAUDÁVEL E FAÇA ATIVIDADES FÍSICAS QUE VAI EMAGRECENDO AOS POUCOS SEM PRESSA, VOCÊ É JOVEM TEM VÁRIAS POSSIBILIDADES DE EMAGRECER ANTES DE COGITAR CIRURGIA (uma tia maluca tinha me sugerido uma bariátrica, sem saber nada da minha saúde, sem ser médica, muito menos especialista, pelo simples fato de que eu estava gorda, ainda me disse que era por causa da minha saúde e não por estética).

E essas palavras da endocrinologista ficaram ecoando na minha cabeça, e, quando eu vi eu tinha tirado um peso enorme das minhas costas, eu não precisava emagrecer pra ontem, eu não ia morrer amanhã se não fizesse uma dieta para emagrecer tudo em dois meses ou menos, eu não era nenhuma aberração por ter aquele peso. E foi ai que eu estabeleci três propósitos na minha vida: me aceitar e me amar do jeito que eu era tentando manter o peso, começar a viver agora e não deixar para quando emagrecesse e, por último, não deixar ninguém me colocar pra baixo ou me fazer sentir mal com o meu corpo. E assim iniciei um processo longo, doloroso e bonito.

Procurei uma nutricionista nessa mesma linha que eu chamo “da paz”, que não viu problema em eu comer um pedacinho de chocolate todos os dias depois do almoço, o que no final das contas “curou” minha compulsão por chocolate, hoje consigo habitar o mesmo cômodo que ele sem correr o risco de devorá-lo em dois segundos, nem sinto vontade mais de comer todos os dias.

Passei a me impor, a não aceitar conselhos fajutos ou supostas preocupações com a minha saúde. Quem sabe do que eu como ou não sou eu, quem tem que gostar do meu corpo sou eu, quem cuida da minha saúde também sou eu.
 

E, finalmente, entendi que não merecia ouvir nada do que ouvi, eu mereço ser tratada com respeito, com cuidado, com dignidade, com sensibilidade não importa o meu peso.

E foi assim, com idas e vindas, com altos e baixos, progressos e retrocessos, que em mais ou menos dois anos e meio eu consegui perder 28 kg. Não foi fácil, mas me trouxe descobertas incríveis, sobretudo, a paixão pelos esportes, hoje pratico atividades que eu gosto, que me dão prazer, que me fazem bem, e, não as que trazem mais gasto calórico.

E o principal disso tudo foi o resgate do meu amor próprio, que havia sido arrancado de mim quando eu ainda era muito nova. Nos últimos meses acabei engordando um pouco e, às vezes, surgem aqueles fantasmas da insegurança, da culpa, da punição e do medo, mas aí eu tento fazer algo que eu goste e me faça bem (além de comer kkkkk) ou corro pro “Brigadeiro de Alface”, pro “Não sou Exposição”, pra página Sophie Deran, e outros blogs do tipo que sempre têm algum textinho pronto pra me fazer sentir bem comigo mesma.

O conselho que eu dou é só um: ame-se, mas ame-se muito, que o resto vem.  

Amor-próprio e emagrecimento

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Leilane, obrigada pelas palavras inspiradoras. A sua história de superação é realmente incrível.

Para quem quiser entrar em contato com a Leilane, pode ser pelo facebook ou enviando um email para lcostamatos@yahoo.com.