A romantização da magreza

Para muitas de nós, o grande sonho é ser magra. Mas o que é que realmente queremos?

Não sei se é porque eu sou fissurada com tudo o que envolve comida e mulher, mas eu tenho a impressão de que grande parte das mulheres tem lá seus problemas com a comida ou com a autoimagem. Isso quando não há uma combinação dos dois fatores. Talvez seja o resultado de anos tentando entender os meus próprios dilemas que me fez começar a ver a mulherada com outros olhos, ou talvez seja por eu ser uma delas e saber exatamente o que é temer o prato e o espelho, não sei. Só sei que se começarmos a prestar atenção em como nos expressamos, não é difícil ver situações em que nos sentimos inadequadas em ser quem somos e em existir em um corpo que nos envergonha.  

Crédito: Abril Canto

Envoltas em tanto descontentamento, adequamos a nossa existência à ideia de que deveríamos ser diferentes e adotamos o estilo de vida da mulher infeliz. Não sei ao certo quando isto começou, mas virou rotina conversarmos sobre como estamos infelizes com o nosso corpo. Fica até difícil pensar em mulheres que eu conheço que não toquem no assunto de querer emagrecer, ganhar músculos, ou de precisar melhorar isto e aquilo. Para ser sincera, a minha pauta principal do dia durante um bom tempo também era ficar debatendo sobre nutrição e os novos métodos de emagrecimento, enrijecimento e rejuvenescimento. Hoje me delicio ouvindo e tentando entender o que é que nós, na verdade, queremos.

E a resposta é: nós queremos ser magras e lindas!

Até aí não há nada de errado com isso. Eu não estou aqui tentando convencer ninguém a esquecer as promessas de ano novo e se acomodar do jeito que está, mesmo estando infeliz ou com a saúde comprometida. Veja bem que eu nem usei a palavra aceitação, porque eu acredito que devemos sim nos aceitar do jeitinho que somos (aceitar não significa não querer mudar). Mas eu me pergunto porque será que queremos tanto ser magras? Na verdade, estamos fixadas com a ideia de magreza não apenas porque consideramos bonito e saudável, mas porque acreditamos que quando estivermos magras teremos aprovação para ser quem realmente somos.

Nós vemos a magreza como um passe para a liberdade, criatividade e sucesso. Nós relacionamos um corpo esbelto com a celebração da feminilidade e com o fim das incertezas.

Querer emagrecer é um desejo legítimo para muitas de nós, mas uma vez realizado não vai assegurar que sejamos felizes e seguras para sempre. Estar magra não significa estar realizada profissionalmente, não é ter mais tempo para você, não é garantia de relacionamentos duradouros, não é passar a entender o porquê da vida, não é prosperidade, nem amor, nem certeza.

 
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Ser magra não é condição prévia para a realização dos seus sonhos. E se o seu sonho não é ser modelo, você certamente conseguirá realizá-lo com outro tipo de esforço, e não controlando o que você põe na boca. Quantas vezes você já não pensou que se um dia conseguisse emagrecer os "x" quilos que tanto te incomodam, você teria força de vontade para conseguir todo o resto? Eu sei bem o que é viver assim esperando por um futuro magro distante para começar a fazer o que eu queria; eu também sofri do quando-eu-emagrecer-ite, e quer saber o que acontecia? Quanto mais eu vivia no futuro, mais eu comia no presente para compensar uma vida sem ambições maiores do que a de ser magra.

Se ser magra é o seu sonho, corra atrás e faça tudo para realizar. Mas entenda que a magreza não é caminho para a felicidade. Gordas e magras lidam com problemas, inseguranças, solidão e baixa autoestima. Não acredite que tudo estará resolvido a partir do momento que você passar a se sentir bem consigo mesma. Infelizmente, a vida não funciona assim, e não há razão para continuar adiando seus planos.

Sonhe mais alto, você pode ser muito mais do que apenas ser magra.