A compulsão como resultado de dieta

Como eu havia prometido, aqui vai mais um relato de mulheres que têm ou tiveram algum problema com a comida - relacionado ou não com um transtorno alimentar. Mulheres que tentaram dietas de emagrecimento, dietas de engorda, medicamentos, chás milagrosos, excesso de exercício físico, vômitos, jejum e tantas outras medidas.

Desta vez, a Alê com uma coragem enorme e ainda em recuperação, resolveu dividir a história emocionante dela na luta contra o espelho e contra a comida.

Muitas vezes a compulsão surge como resultado de uma dieta restritiva, é uma maneira que o nosso corpo encontra para conseguir toda a energia e nutrientes que lhe foram privados. A melhor maneira de evitar a compulsão é adotar uma alimentação balanceada, com muita variedade e espaço para o consumo de alimentos com alta concentração de açúcar, gordura ou carboidrato. O equilíbrio continua sendo o melhor caminho. 

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Com a palavra, a Alê:

Crédito: Sarah.

Eu passei toda a minha infância e parte da adolescência obesa e feliz com o meu corpo. Eu realmente não ligava para isso e me sentia confiante. Até que a adolescência chegou e, aos 15 anos, comecei a sofrer bullying e a ser chamada de gorda. Foi então que eu resolvi seguir os conselhos da nutricionista por um mês, comendo normal. Na época, eu estava com 85,9 quilos. Quando eu cheguei aos 80 quilos, desisti da dieta e voltei a me entupir de comida. Eu descontava tudo nela e no refrigerante (tomava mais de dois litros por dia!).

Quando completei 16 anos, comecei a me incomodar com o meu corpo, que era tão diferente daqueles que eu via na mídia. Agora imagina uma obesa vendo aqueles padrões anoréxicos. Pois é, não deu outra, resolvi emagrecer com dieta e sem refrigerante. Pouco tempo depois, descobri o shake da Herbalife e comecei a perder bastante peso. Então percebi que se eu tomasse só o shake, eu emagrecia muito mais. Eu comecei a me pesar toda hora: fazia xixi e me pesava; fazia 30 polichinelos e me pesava.

Até que eu vi que se eu parasse de comer, eu chegava a perder um quilo por dia. Claro que não aguentava firme todo o mês assim, e daí surgiram as compulsões. A culpa e a fácil tática de enfiar o dedo na garganta me faziam livrar daquilo tudo. No início, como eu não conseguia vomitar, evitava ao máximo as compulsões. Era possível ficar até duas semanas sem comida numa boa. Meus pais trabalham o dia inteiro, então era realmente fácil. 

E assim foi indo, e de 100 quilos eu fui para 70 quilos em pouco tempo. Meus pais começaram a perceber e passaram a me forçar a comer. Eu ganhava e perdia peso. Até que cansei e tentei me recuperar, mas quando cheguei aos 75 quilos me vi infeliz novamente e resolvi voltar ao meu antigo ciclo.

Crédito: Sarah

Aos 17 anos e cansada de ser ''gorda'', eu passei a levar ainda mais sério a tática de NF (no food = sem comida). Eu comia o mínimo possível. Em menos de duas semanas fui de 70 quilos para 61,7 quilos, e meus pais voltaram a me forçar a comer. No início, eu não aceitava e acreditava que merecia sofrer com fome, que eu era uma gorda nojenta porque eu queria. Mas depois eu vi que eles só queriam me ver feliz e confiante novamente.

Eu voltei a frequentar ajuda diariamente para buscar meu equilíbrio mental. E sabe, a mídia passa muito isso de abdômen perfeito, bunda perfeita, corpo perfeito. Em não comer porcarias, em que só magros são bonitos, e não é bem assim. Eu conheci um amigo que me disse que todos têm a sua beleza, mas demorei muito para entender essa frase.

Todos temos a nossa beleza, independente do tamanho do nosso jeans.

Eu tenho 18 anos, 1,57m e 65 quilos. Atualmente, não me vejo curada, mas já estou há meses lutando abertamente contra o meu problema e resolvi não escondê-lo, porque eu sei que muita gente sofre com isso diariamente e se odeia, assim como eu ainda me odeio. Eu me acho a pessoa mais gorda do mundo, a mais feia. E não deveria ser assim.

Em novembro de 2013, teve minha formatura e muitos me disseram ''nossa, como você está linda MAGRA!!''. E sim, isso afeta. Se você se deixar levar por essas coisas, você enlouquece. Eu fico pensando até quando a sociedade vai girar em torno disso. E eu sei que vai levar um bom tempo, mas tento não me importar com isso. Eu realmente percebi que eu preciso me amar, e não agradar aos outros. Nunca vamos agradá-los.

Nas minhas fotos antigas o meu sorriso era sincero. Eu podia ser obesa, mas era saudável e isso era o que importava para mim. Agora, eu já não sou mais a mesma pessoa. Eu me afastei de muita gente que eu realmente amava. Como eu ficava muito mal humorada por falta de comida, eu descontava todo meu ódio nas pessoas. Eu passei a evitar qualquer tipo de contato porque achava que elas só queriam me enfiar comida.

Bom, eu quero falar para você, que está aqui lendo, que você não está sozinha nessa. Que você é perfeita assim como você é! Não desista de lutar pelo seu equilíbrio, e falo isso, não no sentido: NÃO COMA MAIS PORCARIA E FAÇA EXERCÍCIO QUE VOCÊ EMAGRECE! Mas no sentido, tá a fim de comer? Come, mas equilibradamente. Faça pelo menos um pouquinho de atividade física por dia e você vai ver como vai fazer diferença! Procure, assim como eu, o seu equilíbrio. É difícil, mas vale a pena.

Ninguém precisa aceitar os padrões da sociedade para estar bem consigo mesma. O importante é amar e respeitar o seu corpo. E lembre-se: cuide dele, porque é o único corpo que você tem!