Começar sem pensar no fim

Hoje é segunda-feira, dia 1 de janeiro de 2018. É Ano Novo e não tem como não se contaminar com a energia de recomeço e transformação que o Ano Novo traz.

A gente se sente impulsionada a mudar, a melhorar, a fazer diferente, e é exatamente o que vou fazer este ano. Todo começo de ano eu escrevo uma lista de tudo o que eu quero alcançar, mas desta vez eu fiz de outra forma. Eu decidi não mudar a minha vida drasticamente, não fazer promessas que não conseguirei cumprir, e não viver pensando no dia de amanhã.

É claro que continuo tendo sonhos e metas, mas o meu esforço este ano vai ser no processo e não no resultado.

É o caminho que nos ensina o que precisamos e não o destino.

Esqueça a meta de quantos quilos emagrecer este ano, o foco vai ser nas decisões mínimas tomadas diariamente. São essas decisões consideradas desimportantes que nos aproximam ou distanciam de onde queremos chegar.

Esqueça o sapato de design italiano, o foco é cuidar das minhas finanças com inteligência e diligência, um dia de cada vez. Eu espero trocar o desnecessário pelo relevante.

Esqueça o smartphone, o meu foco é trocar o consumo de mídia por criação. Eu ando assistindo, lendo e vendo tanta coisa online que se você me perguntar o que assisti ontem eu já nem lembro.

Em 2018 a minha meta é dedicar a minha energia ao processo e confiar que o resultado virá quando e se tiver que vir.

Um ótimo 2018 para todos nós.

Pra que isso de Dia da Mulher?

Juntas somos mais fortes brigadeiro de alface

Aos 7 anos eu comecei a entender que eu era gorda e precisava mudar antes de me tornar mulher.

Aos 9 anos eu entendi que poucas coisas eram tão importante quanto ser bonita.

Aos 10 anos eu e minha irmã éramos responsáveis pela limpeza e organização da casa enquanto meus irmãos dedicavam este tempo a outros interesses.

Aos 12 eu perguntei para a minha mãe porque não havia líder mulher na igreja que frequentávamos, a Congregação Cristã do Brasil, e ela não soube responder.

Aos 13 meu pai falou que eu parecia uma cachorra no cio com tantos meninos à minha volta em frente de casa enquanto brincávamos.

Aos 14 eu fui chamada de puta pela primeira vez na vida por ter dado o meu primeiro beijo em um menino da minha rua.

Aos 15 anos eu fui parar na diretoria por conta de uma redação que citava as limitações sexuais que eu tinha por ser mulher.

Dos 12 aos 24 anos fui molestada inúmeras vezes nos ônibus e metrôs de São Paulo a caminho da escola ou trabalho. Na balada, ser tocada involuntariamente em lugares inapropriados era normal.

Aos 21 eu não sabia o que fazer com a minha virgindade por ser algo tão valorizado pela sociedade. Eu não vi outro jeito senão camuflá-la.

Aos 22 eu vivenciei a primeira cena de ciúmes de um namorado que me proibia de usar saia curta e não gostava das minhas amigas.

Aos 25 anos este mesmo namorado me chacoalhou pelos ombros e jurou quebrar os meus dentes da próxima vez que eu o deixasse falando sozinho.

Aos 27 fui chamada de puta pela última vez, até onde sei, quando cheguei ao orgasmo duas vezes.

Aos 31 as minhas colegas mulheres demoraram a me aceitar por que os alguns homens do trabalho me achavam atraente. Elas passaram a gostar de mim quando comecei a engordar.

Aos 34 ouvi de uma colega que era natural a mulher procurar um parceiro com renda maior do que a dela.

Aos 35 contei a uma amiga que talvez não teria filhos e ela me olhou com pena e falou que filhos era a melhor coisa na vida de uma mulher.

É para isso o Dia Internacional da Mulher. Não celebro apenas por mim, mas por todas que passam por algum tipo de opressão sem nem ao menos saber. Celebro este dia até quando o código moral que rege o mundo masculino for o mesmo para o feminino. Até que todas aqui na Holanda, no Irã ou no Rio de Janeiro tenham liberdade de ser e fazer o que quiserem independente de gênero.

Celebre você também.

Vida nova para mim e para o BDA

Sobre os meus dias longe do BDA

Ano passado foi um ano esquisito cheio de altos e um tanto mais baixos do que eu gostaria, mas ele terminou glorioso com a possibilidade de mudança de casa e de um novo contrato onde eu trabalho. Estava difícil conciliar o blog com o ritmo de trabalho que levava, e a vida no meu antigo apartamento não estava muito fácil com o barulho do meu vizinho me enlouquecendo aos poucos.

Comemorando o aniversário em Praga

Comemorando o aniversário em Praga

No meu último post eu havia tocado nos três grandes assuntos que marcaram meu 2016: encontrar um balanço entre emprego e o blog, mudar ou não de casa e decidir se teríamos ou não filhos. Tomar essas três decisões literalmente consumiu o meu ano e eu precisei de um tempo para solucionar isso tudo, ou melhor dizendo, quase tudo. A questão da maternidade ainda está sendo resolvida.

A boa notícia é que o emprego foi resolvido e vou ter mais tempo para fazer o que mais amo que é estar aqui com vocês. A questão da mudança também está encerrada e estamos agora na linda Delft. Olhando da minha sacada eu vejo ruazinhas estreitas com canais povoados por cisnes e patos, interrompidos por pontezinhas brancas. Tem um moinho no meu canto direito ao lado da torre estonteante de uma das muitas igrejas espalhadas pelo centro. Aos meus pés, paralelepípedos vermelhos brigam entre si pelo pouco espaço nas ruas, e acima o dramático céu cinza holandês completa o cenário.

Delft - praça do mercado (markt)

Delft - praça do mercado (markt)

Delft - voldersgracht (uma das ruazinhas mais fofas)

Delft - voldersgracht (uma das ruazinhas mais fofas)

Delft - mercado dos animais (beestenmarkt)

Delft - mercado dos animais (beestenmarkt)

Eu gostaria de ter voltado a escrever logo no comecinho do ano mas a linda São Paulo com a família e os amigos me manteve distraída o mês de janeiro inteiro. Agora de volta das férias no Brasil começa uma nova fase para mim e para o blog.

São paulo - galeria do rock (onde o matt passou dois dias descobrindo músicas brasileiras)

São paulo - galeria do rock (onde o matt passou dois dias descobrindo músicas brasileiras)

ubatuba (meu mar preferido em são Paulo) - praia do bonetinho

ubatuba (meu mar preferido em são Paulo) - praia do bonetinho

A partir de hoje vocês podem esperar dois posts por semana às segundas e quintas. A estrutura das postagens vou decidir mais adiante, assim como a frequência dos vídeos, mas conteúdo vai ter com certeza nesses dois dias, então fiquem ligados. E, eventualmente, posts extras em outros dias. No próxima quinta eu vou contar como ficou a minha alimentação no meio de tanta mudança e tomadas de decisão.

Por que achamos que temos que ser magra para ser feliz?

Ser magra está na moda e há diversas razões para isso que eu vou debatendo no blog. Querer ser magra é muito mais do que um conceito estético, é o desejo de alcançar tudo o que a ideia de magreza tem nos vendido nas últimas décadas. 

A mídia tem um papel fundamental na percepção que temos sobre nós mesmas. Infelizmente, a representação midiática do corpo feminino é distorcida, objetificada e irreal, e todos somos afetados por isso. Mas a explicação é simples:

A mídia sobrevive dos anúncios publicitários e a publicidade sobrevive da nossa procura pela felicidade.

Se a mídia nos convence que é preciso ser de determinada forma para ser feliz, a publicidade tem como usar este espaço para nos oferecer o que falta para que possamos alcançar a tão sonhada felicidade. 

Ao adquirirmos o produto ou serviço que promete nos deixar como as mulheres que vemos na mídia, estamos comprando a ideia de que seremos felizes. 

O ideal seria se todos saíssemos satisfeitos ao final do ciclo, mas não é isso que acontece. Não há produto no mercado que deixe toda a população do mundo loira, rica, magra, com a pele dourada, sem manchas, torneada, jovem, alta, sexy, feminina, delicada, sensual, com cabelos longos e volumosos, cheirosa, depilada e perfeita.  Então continuamos consumindo dietas, produtos e tratamentos que nos deixem mais próximas do ideal da felicidade feminina.

A mídia desconsidera que é possível ser feliz sendo como você é.

Você nunca será boa o suficiente ou magra o suficiente se continuar procurando validação nas pessoas que você vê na mídia. 

É que se você estivesse satisfeita com a sua aparência, não haveria razão para consumir muitos dos produtos e serviços que geram bilhões para a indústria do emagrecimento e beleza.

A maneira mais simples de nos libertar disso ou, pelo menos, de sermos menos afetadas por esses ideais é estarmos conscientes de como tudo a nossa volta tenta nos convencer de que ser magra é bom e todas as outras variáveis são ruins. 

Se estiver interessada em saber mais, leia o post sobre a romantização da magreza e o como a mídia trata o corpo feminino.

O bullying transformou a minha relação com a comida e com meu corpo

Vocês sabem bem, o BDA também é um espaço para vocês usarem a sua voz para dividir sua história, pensamentos e para ajudar outras pessoas. Quando a Fernanda me mandou este depoimento logo me vieram as memórias de crescer gordinha

A grande lição que ela expõe aqui é que ser magra não significa que você se ama.

Com vocês, a Fernanda:

Compulsão Alimentar

Esse texto é sobre minha relação com a comida e com a vida no geral. Em primeiro lugar, considerações gerais: isso não é uma tese de mestrado, uma iniciação científica ou coisas do tipo. São constatações do coração e não do cabeção (como diz a terapeuta Gisella Vallin - sou fã- ️). Este texto NÃO é uma indireta ou direta pra quem quer que seja. E ah, minha intenção NÃO é gerar comoção do tipo : " ÓH CÉUS! Coitada da Fernanda.". 

Considerações feitas, gostaria também de dar uma explicadinha no porquê desse texto. 

A minha relação com meu corpo e com a comida nunca foi boa, mas há mais ou menos dois anos venho sofrendo um despertar. Tenho lido blogs incríveis, conversado com minha nutricionista e psicológa, com pessoas queridas e tudo isso realmente me fez PENSAR NO QUE DIABOS EU ESTAVA FAZENDO COM MEU CORPO E , PIOR AINDA, COM A MINHA CABEÇA.

Bom, poderia passar anos luz citando os blogs que me ajudaram nesse despertar, mas gostaria de citar os principais e agradecer a todas as pessoas iluminadas e incríveis que os escrevem : @flaviamelissa, @adrianasouza, @brigadeirodealface, @naosouexposicao, @eimulhermelhore e @giselavallin.

Culpa ao comer

Entre textos e conversas, descobri que os alimentos não são vilões. Eles são, além de uma simples fonte de nutrientes, elementos simbólicos que tem a conotação de união. Sim, união!

Nós comemos como forma de celebração, de confraternização e atribuir CULPA ao ato de comer só estraga todo o significado bonito que a comida tem.

Somos bombardeadxs TODOS os dias por blogueiras fitness com dietas mirabolantes, vidas perfeitas e horas e horas de exercícios físicos. Tudo verdezinho e pseudo saudável. Você está na padaria comendo um pãozinho de queijo quentinho e delicioso quando abre o Instagram e vê corpos socialmente perfeitos, refeições socialmente perfeitas, vidas fingidamente perfeitas. CULPA. Cada mordidinha no pãozinho de queijo é como um tiro. Você se sente mal. Sente que deveria estar comendo uma maça, ou sei lá, batata doce com aveia. 

Bom, todo esse sentimento passa desapercebido aos olhos de quem nunca flertou/ teve um transtorno alimentar. Se você, assim como eu, já passou por essa situação, então toca aqui e continua lendo, quem sabe a gente não troca umas figurinhas, né? Pretendo, no fim do texto, compartilhar algumas técnicas que me ajudam a lidar com tudo isso.  Pra quem não me conhece a fundo, as informações agora parecem jogadas, então eu vou contar um pouquinho da minha relação com a comida e meu corpo. 

Comida e corpo depois do bullying

Eu sempre fui boa de garfo. Desde que eu me lembre, adoroooooo comer! Minha avó (um ser humano incrível que está pertinho de Deus, nesse momento) era uma cozinheira de mão cheia e , como toda boa vovó italiana ADORAVA me servir as mais maravilhosas receitas: desde o nhoque de domingo - que eu, euzinha, eu mesma ajudava a fazer-, até o churros caseiro de lanche da tarde. Quando eu estava comendo na casa da minha avó, eu não sentia culpa em comer. Na verdade eu não sentia nada além de um sentimento gostoso (que me causa uma nostalgia).

Com o passar do tempo, algumas pessoas que se diziam preocupadas com a minha saúde, começaram a dar pitaco na minha alimentação e no meu corpo. Não quero entrar em detalhes nisso, mas eram comentários bem maldosos pra uma CRIANÇA. Sim, uma criança NORMAL, sem NENHUM problema de saúde. A criança que está na foto aí em cima ouviu: " você não pode comer esfihas porque vai engordar"; "fulana vai ser modelo e você não ! Você é gorda."; " você não vai repetir a sobremesa. Sua irmã vai porque ela é magrinha e você não".

Fora os amiguinhos que me chamavam zoavam usando o termo " gorda". Fora o bullying com a minha orelha de abano - a qual eu não sabia que eu tinha até que uma menina perguntou se eu não ia operar minha orelha de abano- eu era chamada de Dumbo. Sim, adultos e crianças - que aprenderam com adultos/ falavam essas coisas para a criança da foto. E a criança da foto cresceu acreditando que ser gorda era feio, que era feia, , que comida engorda, que comer doce é algo feio e errado, que comer sobremesa era tão feio, mas tão feio que deveria ser feito às escondidas e todos os etc e tal da insegurança nossa de cada dia ( que está sendo desconstruída , assim, passinho por passinho! )

Quando eu tinha 9 anos passei pela cirurgia da correção da orelha de abano e achei que todos os meus problemas seriam resolvidos. Não foram. Eu continuava complexada com quem eu era. Não conseguia mais comer minhas bolachinhas em paz. Eu mesma me cobrava! 

No início da minha pré adolescência fiz minha primeira dieta  por conta própria. Tudo isso porque no fim daquele ano meu colégio ia para o Wet'n Wild e eu simplesmente me RECUSAVA a mostrar meu corpo de biquíni sem que eu emagrecesse uns quilinhos. Eu emagreci e mesmo assim continuava noiada com meu corpo, e eu tinha 12 anos. Sim, 12 anos. 

Nos anos seguintes, eu continuava com vergonha do meu corpo. Eu me achava gordinha e não conseguia mais fazer minhas dietas loucas. Eu tinha picos de restrição alimentar e picos de  compulsão alimentar .

Em 2010 as coisas pioraram bastante.  Eu literalmente flertei com a anorexia. Comia 500 kcal por dia - comia basicamente só kiwi-, com o intuito de ir pra viagem de formatura da escola e estar magrinha. Eu literalmente me torturava psicologicamente caso eu saísse da dieta. Era um chororô, um sofrimento, uma culpa do tamanho do mundo. Cheguei a pesar 50 kg e eu me sentia feia, me sentia gorda e, naquela época, a palavra gorda estava atrelada à outras palavras como incapaz, feia, frustrada.

Sim, eu era extremamente preconceituosa porque me faziam acreditar nisso. Fui pra viagem da formatura e PASMEM: não consegui tirar o shorts NENHUM DIA!! Eu morria de vergonha do meu corpo.  Ah , só pra constar, eu tinha 14 anos nessa viagem de formatura. Depois dessa viagem, as coisas pioraram. Eu parei de ir de biquíni pra praia. Ia de shorts e camisetão. Depois eu evoluí e só ia de shorts, mas sentar na cadeira sem uma camiseta larga? Risos, isso não acontecia. Eu fazia tudo o possível pra esconder meu corpo. Em 2011 , com 15 anos, passei por uns problemas e acabei trocando várias vezes de colégio. Engordei cerca de 8 kg e minha autoestima continuava baixa, tive crises terríveis de compulsão alimentar, aquelas de comer até passar mal MESMO. Bom, mesmo me sentindo feia, aos 15 anos eu comecei a chamar a atenção das pessoas porque , DO NADA , eu tinha me tornado linda aos olhos das pessoas que sempre me zoaram.  De repente, o " dumbo" se tornou a " diva" e minha mente, meu corpo SIMPLESMENTE NÃO ACOMPANHARAM. Eu não via isso. 

Foi a época em que os meninos mais me paqueraram na vida e eu morria de vergonha. Não me sentia nem um pouco bonita e/ou atraente. 

Em 2012, troquei novamente de escola e encontrei pessoas maravilhosas. Fiz amigos maravilhosos . Eu tinha um grupo especial de amigos que repetiam incansavelmente que eu era bonita ,boa o suficiente e etc ( se vcs estiverem lendo isso, fogueteros, saibam que eu amo vcs e tô morrendo de saudade.) Mas eu continuava não acreditando.  

Continuava num ciclo interminável de dietas restritivas seguidas de culpa e compulsão alimentar. Cada doce que eu comia me machucava de verdade. Era como se eu fosse ficando cada vez mais feia. Era como se minha beleza e meu valor estivessem medidos numa balança.

Em 2013 eu decidi que iria emagrecer de vez. Fechei a boca. Eu literalmente comia só frango no almoço. Só frango. E a lei da atração que rege esse universo trouxe pra minha vida uma pessoa tão complexada quanto eu nesse quesito. E ah, a culpa de nada disso relacionado a corpo/ insegurança é dessa pessoa, só pra deixar BEM CLARO!

Em 2014 foi meu ano de cursinho e eu simplesmente surtava a cada 15 dias. Na época eu namorava, e a cada briga eu ficava sem comer porque simplesmente me sentia triste demais pra comer. Mas isso intercalava com períodos em que eu estava tão exausta da rotina do cursinho que eu saia comendo tudo o que eu via pela frente. Mesmo pesando 64 quilos eu me sentia HORRÍVEL. Sério. (E , modéstia a parte, eu estava MARAVILHOSA- hoje eu vejo isso). 

Em 2015 eu entrei na faculdade de medicina , e não preciso nem comentar que minha rotina começou a ficar DOIDA , né? Engordei pra caramba, e , pra variar, continuei me sentindo um lixo. No fim de 2015 , mil coisas conturbadas aconteceram, eu me sentia pior ainda, olhar para o me corpo me dava NOJO. Eu realmente era, mais uma vez, a " doida" que se olha no espelho e não gosta do que vê. Bom, em 2014 eu comecei a ler os blogs que citei lá em cima no meu texto , e me arrisquei a ir sem shorts pra praia. Foi libertador ! Mesmo eu me sentindo esquisita, eu estava indo com as roupas que as pessoas costumam ir à praia. Eu estava de biquíni. Sem shorts. Sentada na cadeira de praia sem camiseta. 

E nas últimas férias de verão, decidi começar a tentar colocar em prática tudo o que tinha lido: resumindo, tentei esquecer a minha aparência externa e ir curtir as férias, a praia e o mar com as minhas amigas. Essa foi minha primeira meta de libertação corporal concluída com sucesso. Essas férias foram especialmente boas porque eu não tive crises de compulsão alimentar, eu não briguei com o que eu estava comendo. Realmente achei uma evolução! E foi! 

Recaídas

Bom, há duas semanas tomei algumas decisões na minha vida e , pra que uma delas seja realizada eu " preciso" emagrecer 5 kg. 

Comecei a ir na nutricionista, lá no CIS da Anhembi e comecei a emagrecer. Ok, tudo lindo e maravilhoso, só que não. 

Hoje eu estou completamente consciente. Estou com a cabeça contaminada com os transtornos novamente. Tudo o que eu comi na última semana foi regado de culpa e quase choro. Tenho quase 20 anos, fiz e faço muitas terapias (amo), estou indo na nutricionista e mesmo assim continuo com os sentimentos da menininha que ouviu palavras indesejadas lá no passado.

Eu decidi que NÃO quero mais nenhum transtorno alimentar na minha vida.

Não quero mais dividir os alimentos em " bons" ou "maus". Não quero mais sentir culpa por COMER. Eu amo comer. Pra mim, comer tem significado! Eu amo sair pra comer com as pessoas que eu amo. E isso não tem a ver com meu peso ou com o que eu acho do meu corpo. Nunca teve nada haver com peso!

Quando eu descobri isso, foi simplesmente CHOCANTE. E sabe como eu descobri isso? No último Dia das Mães fui fuçar meus álbuns da infância pra postar fotos com a mamis  ( FAÇO ISSO TODOOO ANO!) e me deparei com as minhas fotos de infância. As fotos que eu sempre olhava, mas nunca via. Na verdade, até ano passado eu olhava para as mesmas fotos e me sentia um ETzinho. Mas esse ano foi diferente. Eu olhei pra criança que eu era e , pela primeira vez, fiquei apaixonada pelo que eu era/ fui/ sou. Sério, chegou a ser emocionante. Eu me vi linda , fofa e nada estranha! Sou eternamente grata por essa sensação. 

A lição

A conclusão de tudo isso é que todo mundo sofre por alguma coisa/ alguém em algum momento da vida. A sociedade em si é extremamente cruel e padronizada, nos fazendo sentir o cocô do cavalo do bandido. Mas apesar disso tudo, apesar de todo esse chorume ambulante que as pessoas falam, postam e fazem, há amor. Há muito amor. O nosso amor por nós mesmxs.  Claro que lidar com toda essa insegurança estrutural e do passado não vai sumir de uma hora pra outra!

Mas é hora de arregaçar as mangas e literalmente começar uma revolução lenta e dolorosa: a do amor-próprio em todos os aspectos! Principalmente com a comida.

Estou bem no meio desse processo todo e confesso que está difícil! Mas eu não vou desistir. Não agora. Aprendi que temos que mover as mini peças pra formar o quebra-cabeça e é isso que eu estou fazendo. A cada semana tenho uma nova meta com ajuda da minha psicóloga e a meta dessa semana é tentar praticar o mindful eating, que sucintamente é comer prestando atenção naquilo que está comendo. Tem uma nutricionista de São  José dos Campos que é aliada da Ana Perdigão, se eu não me engano o nome dela é Nathália Petry e ela tem vídeos no Youtube falando sobre alimentação consciente e intuitiva - o último vídeo dela fala sobre o mindful eating . Eu sou apaixonada pelos vídeos, mesmo! Descobri há pouco tempo, mas o conteúdo dos vídeos já tem mudado minha vida. 

Outra diquinha da minha querida psicóloga pra lidar com essa corda bamba da insegurança + transtornos alimentares é : cuidar de mim nos pequenos detalhes. Isso inclui usar os melhores pratos e talheres comigo mesma, usar a toalha de mesa mais bonita quando eu mesma for almoçar, e não esperar visita pra usarmos nossos melhores itens. A gente merece carinho e cuidado.

Vamos todxs juntxs! 

Lembrando que gorda, gordo, magro, magra, baixo, alto são só adjetivos e NÃO determinam valor de ninguém. Se teve algo precioso que aprendi, foi isso. 

Instagram : @fernandaoreb ou @penteadeiraterapia

Facebook: \penteadeiraterapia

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Fernanda, acho tão pertinente você ter tocado na sua última recaída. Esses hábitos alimentares conturbados ficam um bom tempo cochichando ao pé do ouvido para voltarmos a restringir o alimento. Muita gente desiste de ter equilíbrio na alimentação porque acredita que nunca mais terá recaídas e quando isso acontece não sabem o que fazer.

O seu texto é um bom alerta a isso - não tem como melhorar 100% da noite para o dia. É um processo que leva tempo e vem acompanhado de altos e baixos. 

Obrigada pela citação de pessoas incríveis na internet que compartilham valores parecidos aos meus. Eu já conhecia o NSE, Ei Mulher Melhore, a Nathália Petry e a Ana Perdigão, mas foi ótimo ver que somos muitas. Obrigada.

Quando o problema é não comer

Às vezes eu recebo uns depoimentos de vocês que me emocionam de verdade, e este da Blanka é um exemplo disso. Tudo que ela já passou e o aprendizado que tirou disso está sendo fundamental para enfrentar um dos maiores desafios que ela terá na vida - o câncer.

Com vocês, a Blanka: 

Anorexia

Pensei diversas vezes em te mandar essa mensagem, e a timidez sem vencia. Eu não sei nem seu nome, mas sei que a "brigadeiro de alface" me ajudou a sair da anorexia e depressão.

Ano passado neste mesmo mês eu estava com 33kg, e hoje tenho 50. Com a onda "fitness" por volta de 2012 eu fui aos poucos cortando os alimentos e, em 2015, só me permitia comer frango, salada e eventualmente fruta ou um iogurte desnatado.

Eu tomava café preto entupido de canela o dia inteiro pra emagrecer, enquanto me preparava pro vestibular no final do ano. O resultado foi o pior ano da minha vida com depressão, anorexia, dependência da minha mãe e sem amigos.

Por volta de setembro comecei a ler o BDA e adotar muitas das dicas. Eu ia em uma ótima psicóloga e um psiquiatra desde abril, mas só a partir de setembro comecei a me empenhar de verdade em melhorar.

Parecia antes que nada mais tinha graça, que ninguém era interessante. 

Meu psiquiatra avisou minha mãe que se emagrecesse mais um quilo ele iria me internar. Mas ela teve toda paciência do mundo pra esperar o meu tempo de melhorar.

Hoje estou outra pessoa, rodeada de amigos e com uma alegria que nada me abala.

Em janeiro minha mãe descobriu um câncer de pulmão. Tenho certeza que se não fosse essa pessoa forte que aprendi a ser depois que comecei a ler seu blog, teria me abalado muito. Mas tenho certeza que ela vai melhorar assim como eu melhorei. Continue sempre com esse trabalho lindo de inspirar pessoas a apreciarem a vida acima de qualquer corpo que tenham!

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Blanka, obrigada pelas suas palavras e muita, mas muita força para você e para a sua família durante o tratamento da sua mãe. 

Para quem quiser dar um alô para a Blanka é só mandar um email para finokettiblanka@gmail.com.

Se você tem ou acha que tem um transtorno alimentar, não tenha medo ou vergonha de conversar com um familiar ou amigo. Tem muita gente passando por isso em silêncio. Procure ajuda de um profissional porque a cura é possível.

Ser gorda não é defeito

Gordofobia

Tá, acho que todos já entendemos que a obesidade é uma epidemia que vem crescendo e que faz parte da nossa realidade. É evidente que precisamos fazer algo a respeito, principalmente relacionado às regulamentações da indústria alimentícia, aos espaços públicos que não temos para nos exercitar,  à educação nutricional de crianças e outras medidas que deveriam ser tomadas pelo governo.

Tá, muitos estão preocupados com a medida das nossas cinturas expandindo rapidamente, mas a preocupação com a saúde não pode ser usada como desculpa para sermos preconceituosos.

Discriminar alguém por ser gordo não é uma opção para diminuir a obesidade.

Tá, vamos considerar que uma pessoa esteja com a saúde comprometida por conta do excesso de peso. Qual o direito que isso nos dá de emitirmos a nossa opinião sobre a gordura que aquela pessoa carrega? 

Chega de usar a gordofobia em nome da saúde.