Como é ser gorda no trabalho

No meu escritório eu trabalho com uma mulher que sofre com problemas de saúde relacionados à obesidade como trombose. Ela chega de manhã com croc ou chinelo de dedo mesmo no inverno porque é difícil encontrar sapato fechado que caiba. A temperatura do escritório sempre parece estar alta levando em conta o suor inevitável. Ao levantar da cadeira a testa franzida denuncia a dor e os primeiros passos cambaleantes a levam para a cozinha para pegar um café.

Esta colega é uma figura materna na empresa sempre aberta a ajudar os outros. Apesar disso, o excesso de peso parece ser um incômodo para grande parte das pessoas. O nome dela sempre surge em conversas sobre alimentação ou dietas, e ela é usada como exemplo de quem não devemos nos tornar. Até colegas acima do peso a julgam por ela, de acordo com eles, ter se deixado levar desse jeito.

Se ela se ausenta por gripe todos culpa a gordura, se ela está cansada é a gordura, se está indisposta é a gordura. Se ela não performa bem no trabalho, a obesidade já é citada.

Infelizmente o mundo ainda acredita que o obeso é uma pessoa que não controla o peso e, por conta disso, é incapaz de controlar sua vida ou seu trabalho.

Talvez seja por conta de tudo o que passei, mas não entendo como alguém pode pensar que basta querer para emagrecer. Que emagrecimento é uma questão de comer menos e se exercitar. Bem, não é tão fácil assim.

Ela me conta das tentativas de dieta, do novo médico que encontrou, da trigésima nutricionista, programa, sistema, coach que eu está começando.

O lado cruel da obesidade é que ela está aparente e todos se sentem no direito de apontá-la em nome da saúde. Imagine se todos com dívidas no cartão de crédito fossem considerados ineficientes no trabalho por não conseguirem controlar as suas finanças?

Estamos longe de aceitar pessoas obesas como elas são por medo de aumentar a obesidade no mundo, mas isso está longe de ser verdade. Aceitar as pessoas é um ato de amor e respeito, algo que todos merecemos.

O corpo não é propriedade pública e ninguém tem o direito de te dizer como ele deve ser, nem mesmo em nome da saúde.

Por que é tão importante cuidar de você primeiro?

Um dos grandes desafios na vida é saber o quanto que você pode dar de si para não terminar vazio. Todos queremos ser generosos e cuidar dos outros ao nosso redor, e isso é um dos lados mais bonitos de ser humano, mas e quando a beleza da doação resulta em ressentimento, cobrança, controle e expectativas frustradas? Você come?

Para entender o equilíbrio entre o doar e receber e o papel do amor-próprio em prevenir que você ataque a geladeira para se encher daquilo que você precisa, vou passar um exercício bem fácil que vai te fazer entender de vez porque o amor-próprio é o melhor que você pode fazer por você e pelos outros.

Imagine que cada ato de carinho ou cuidado com você mesmo seja uma maçã.

Agora imagine que você é uma cesta feita para carregar essas maçãs.

Cada vez que você decide se honrar e se respeitar você ganha uma nova maçã para a sua cesta. Quanto mais maçãs você vai colecionando mais forte você se sente, mais certo do que quer e do que gosta, mais assertivo na comunicação com os outros e mais seguro você se torna. As maçãs são a prova de que você está fazendo e agindo de acordo com os seus valores, princípios e preferências.

Você se sente bem, pleno, completo, cheio.

Mas chega uma hora que a sua cesta já não suporta tantas maçãs e elas começam a cair por onde você caminha. As maçãs ao longo do caminho são as atitudes de grandeza e gentileza que você tem sem ao menos perceber mas que torna o dia do outro melhor. É a energia positiva que emana de alguém que se ama e isso é contagiante.

Outras vezes você vai doar suas maçãs deliberadamente porque já tem o suficiente. Essas são as vezes em que você ajuda alguém, dá o melhor de si em um projeto, sacrifica horas e dias de descanso para ajudar uma instituição, contribui financeiramente com uma causa, se entrega em um relacionamento sem medo de errar porque se tudo der errado ainda haverão maçãs suficiente para te manter cheio.

Quanto mais você cuida de si mesmo mais tem para dar ao outro. Não tem como dar o que não temos então o nossa maior tarefa é garantir que temos o suficiente.

Não dá para dar maçãs de uma cesta vazia, é daí que vem o ressentimento, a expectativa de receber outra maçã de volta e a necessidade de comer para preencher esse vazio.  

Cuide de você primeiro.

Vai malandra, você tem bumbum você pode

Como assim eu ainda não havia assistido ao novo clipe da Anitta? Mesmo estando isolada aqui na Holanda, o Spotify me levou de volta ao Brasil malandro quando adicionou o hit da Anitta às minhas sugestões do dia. Só então me dei conta da repercussão do “Vai Malandra”.

A batida da música é contagiante e fiquei feliz de ver um artista brasileiro representado no cenário mundial independente de gostos musicais. Foi só quando parei para assistir ao clipe e prestar atenção na letra que o batidão mudou.

A Anitta tem celulite

O clipe é um exemplo do empoderamento feminino através das nádegas, essa maneira distorcida de colocar a mulher no papel central como se ter poder fosse andar rodeada de homens enlouquecidos pelo seu bumbum, com ou sem celulite.

É a velha narrativa da mulher sendo o objeto admirado pelo homem, o sujeito admirador. E a ideia falsa de que a mulher tem poder ao ter homens atraídos por ela.

Ao assistir ao clipe não pude evitar de relembrar o começo da minha adolescência, com 13 ou 14 anos, quando eu me trancava no quarto, ligava o som e dançava axé me imaginando em situações em que eu era a mais admirada da festa. Na minha imaginação eu tinha o corpo da Carla Perez, usava aqueles shortinhos e tops provocantes e dançava enquanto todos me olhavam. Aquele sonho acordado era a representação que eu tinha do que era ser uma mulher poderosa.

Ainda hoje, 20 anos mais tarde, continuamos com a mesma referência do poder feminino da bunda.

Vai malandra e a celulite da Anitta

É claro que achei lindo ver a celulite da Anitta sem retoque, é claro que achei lindo ter uma mulher gorda sendo representada, e travestis, e negros, e uma parcela da realidade da favela que é onde o funk nasceu.

Eu poderia falar aqui sobre apropriação cultural, sobre o “enegrecimento” da cantora, o uso do diretor Terry Richardson com várias acusações de abuso sexual, mas vou me ater a um ponto. Estamos sim evoluindo, mas o que incomoda é a ironia de ver como empoderamento mulheres hipersexualizadas na mídia de um lado, enquanto de outro lado essas mesmas mulheres são censuradas ao expressar sua sexualidade na vida real. Onde está o poder então?

Enquanto estamos aqui preocupados com a celulite da Anitta, olha o que o mundo está cantando:

 

“Vai malandra
Me mostre algo
Gata brasileira, você sabe que te quero
Bunda grande, dá pra equilibrar um copo em cima
Olha pro meu zíper, vem botar essa bunda aqui
Tô hipnotizado pelo jeito que você se mexe
Não posso negar que quero te ver pelada
Anitta, gata, estou tentando dar uns tapas
Eu posso dar isso para você, será que você aguenta?”

 

A favela é mais do que funk e bunda. A Anitta é mais do que celulite. E nós somos mais do que corpos.

Vai malandra, você pode.

A nossa necessidade de agradar os outros

Ontem durante o almoço com algumas colegas comentei o quanto havia gostado da minha adolescência. A maioria franziu a testa. Era óbvio que nem todos ali tinham vivido o paraíso que vivi, mas todos haviam sentido o que eu senti, aquela certeza adolescente de que tudo é possível e a excitação de ter um futuro pela frente que seria escrito pela pessoa mais especial do mundo, eu.

Quando revisito a minha adolescência como um paraíso não é com a ilusão de que tudo era perfeito porque a realidade foi longe disso. Os meus pais, como muitos outros pais, tentaram me manter em casa e na igreja de todas as maneiras, mas eu queria ver o mundo. Eu passei a adolescência estudando em duas escolas e viajando 4,5 horas por dia em ônibus e metrôs para ter acesso à educação que eu queria. Eu desobedeci meus pais e os entristeci profundamente ao parar de frequentar a igreja e foi a custo de muitas brigas, discussões e choros que eu consegui ser eu.

Cada rosto de desapontamento da minha família valeu a pena. Era o preço que eu tinha que pagar para ser quem eu sou. Aquela fase com todas as dificuldades foi o meu paraíso porque eu aproveitei cada dia, mesmo os dias ruins.

Mas a fase adulta chegou e como ela veio o medo. O medo de desapontar pessoas que conhecemos e até desconhecidos, medo de ser criticada, medo de não ser aceita e acabar sozinha, medo de falar o que pensamos, medo de errar.

Este medo chega porque de repente nos damos conta de que tudo o que fazemos ou falamos tem consequência, e para nos proteger do pior paramos. Paramos de tentar, de arriscar, de nos expressar, de errar.

Mas o conforto de ser aceita por todos também vem com um preço. Imagine se a sua própria opinião tivesse mais importância para você do que a opinião dos demais? O que você seria, quem você seria?

Autoconfiança é algo que vamos construindo aos poucos, todos os dias. A cada medo que ignoramos e seguimos em frente é um passo mais perto de nos tornamos a nossa melhor versão.

É impossível silenciar tantas vozes te dizendo quem você deve ser. Mas é possível aumentar o volume da sua voz interior para que ela fale mais alto.

Viva o seu paraíso. Com dias bons e ruins, mas um paraíso.

O que as redes socias fazem com o amor-próprio

Quando eu era pequena a minha alegria era comprar a revista Boa Forma do mês com a minha irmã para saber as últimas novidades da nutrição, as novas dietas, os tratamentos estéticos e cremes, e para ver fotos inspiradoras das famosas. Tinha até uma sessão no fim da revista contando a história de superação de uma leitora que havia emagrecido.

Aquilo era uma dose de motivação extra, um lembrete mensal de que eu precisava para dar jeito na minha vida e cuidar do meu corpo. A revista me dava a esperança de poder emagrecer e ser feliz como aquela leitora.

Redes Sociais e o amor-próprio

Hoje eu não preciso esperar pela Boa Forma uma vez por mês para me motivar, eu abro o Instagram e tenho acesso ao dia-a-dia de milhares de mulheres com corpos incríveis e definidos. Elas dividem dicas, alimentação, exercícios, rotinas, acontecimentos, tudo para estarmos por dentro de como é a vida de alguém com o corpo assim.

Eu até compreendo a nossa fascinação por acompanhar a vida do outro, não é por nada o sucesso dos realities shows e vlogs, mas porque será que continuamos seguindo pessoas ou perfis que nos fazem sentir mal em ter o corpo que temos ou viver da forma como vivemos?

Com a revista eu não aprendia apenas novas dietas. Havia dicas de como deixar os pés macios durante o verão, como clarear as axilas e virilhas, como manter as cutículas hidratadas. Enfim, dicas de como resolver imperfeições que eu nem sabia que eram imperfeições até ler a matéria.

Eu aprendia a procurar defeitos para consertar em mim.

Com as redes sociais é a mesma coisa. Intencionalmente ou não muitos muitos perfis estão aí para te relembrar os seus defeitos que precisam ser consertados.

Nós continuamos a aprender diariamente como viver insatisfeitas com o que somos e temos

O que sentimos é resultado do que pensamos, e o que pensamos é resultado das informações que consumimos diariamente. Como é que podemos nos sentir bem se o que estamos consumindo nos faz sentir mal?

Precisamos literalmente olhar criticamente para a informação que consumimos. Isso é tão importante quanto o alimento que consumimos.

Pare para avaliar se aquele perfil, site, blog, canal tem te ajudado ou te atrapalhado. Faça isso por você.

Mas eu quero o corpo perfeito!

Com tantas receitas, tratamentos estéticos, dietas, cremes e maquiagem, ter um corpo perfeito é algo que parece estar ao alcance de todos, basta um pouco de esforço, dedicação, investimento e disciplina. É como se o corpo perfeito fosse uma escolha, basta a gente querer.

Eu quero um corpo bonito

Para toda imperfeição tem um remédio à venda, é só procurar. Manchas na pele, rugas, sardas, estrias, celulite, acne, vermelhidão, vasinhos, flacidez ou pelo encravado; dá para tratar tudo. Gordura, peito caído, peito pequeno, peito separado, pés grossos, nariz projetado, papada. Para tudo tem um tratamento, cirurgia ou creme específico.

Se por um lado o corpo perfeito é vendido como uma opção, por outro o corpo imperfeito é considerado um desvio de conduta, um erro que pode ser corrigido se quisermos.

Nos sentimos em dívida com nós mesmas e com os outros quando olhamos para as partes imperfeitas do nosso corpo. É como se estivéssemos erradas em ter a barriga maior do que o esperado. Nos sentimos descuidadas, indisciplinadas, feias e menos do que poderíamos ser.

Colocando em perspectiva:

Vamos comparar isso a ser rica, já que a riqueza também é vendida como uma possibilidade ao alcance de todos.

Eu tenho certeza que as minhas leitoras não são todas ricas, assim como eu também não. A minha pergunta é: você se sente errada ou culpada por não ser rica da mesma maneira que se sente por não ter um corpo perfeito?

Provavelmente não.

A indústria da beleza é uma das mais cruéis neste sentido, porque nos leva a desacreditar de nós. O conceito do belo nos seduz das maneiras menos óbvias através daquela blogueira gente finíssima que seguimos e que já era linda e mesmo assim quis emagrecer 6 kg. É por meio da atriz que divide seus segredos de beleza na capa da revista. São as dicas de como se livrar dos pontos “indesejáveis” no nosso corpo.

Eu sou uma defensora de que devemos cuidar bem do nosso próprio corpo, mas a busca pela perfeição não é a maneira certa de fazer isso.

Querer alcançar a perfeição é um caminho sem fim, cheio de frustrações que vai nos deixando mais e mais inseguras sendo que o que mais queremos é nos sentirmos bem.

Ter o corpo perfeito não é uma escolha porque ter o corpo perfeito não é possível.

É uma ideia vendida para nos manter consumistas. Recuse essa ideia.

Vergonha de voltar a engordar

Este final de semana eu encontrei um texto que havia escrito em 2013 e não sei por que nunca havia publicado. É um post aberto e não editado sobre uma fase cercada de vergonha, de autoconhecimento e de autoaceitação. Li e lembrei daquela Erika com o maior carinho e compreensão pelo que ela estava passando.

Den Haag, 2013

Eu fui convidada para um chá de bebê onde um grupo de amigas que eu não vejo há mais de um ano estará presente. Só de pensar em ir já me dá dor no estômago e enjoo. Eu não faço ideia de como explicar o fato de ter engordado 19 kg em 9 meses enquanto a minha amiga grávida só havia engordado 13 kg.

Eu estou aterrorizada em mostrar um corpo que eu não reconheço como meu, de fingir estar feliz mesmo tendo me entupido de comida nos últimos meses. Sinto que a minha única saída é inventar alguma desculpa convincente para não aparecer no evento, algo urgente sei lá; o que eu não posso é dizer a verdade:

“Eu não vou porque estou me sentindo gorda e não sei como explicar o fato de ter engordado 19kg em meses.”

“Eu estou como medo que as suas amigas não vão me reconhecer.”

“Eu não quero ouvir comentários desagradáveis sobre o meu tamanho.”

Andando pela sala ansiosa com a ideia de aparecer em público eu paro frente ao espelho, levanto a blusa e começo a chacoalhar a minha barriga para cima e para baixo. A cada chacoalhada eu uso um adjetivo mais ofensivo que o outro para me descrever. Como é que eu me permiti chegar a este ponto?

Um dia antes do chá de bebê eu decido ir, independente do quão deprimida ou desconsolada eu me sinto. Eu decido que não importa o que as pessoas irão pensar ou dizer, eu não preciso e não vou justificar o fato de ter engordado.

Eu sei que todos verão a diferença já que não dá para disfarçar quase 20 kg extra, mas também sei que há algo em mim que não mudou.

Eu ainda sou eu mesma com todas as qualidades que me pertencem, e mereço ser tão feliz agora quanto era antes. Eu vou viver o meu dia da melhor forma possível.

E assim foi. E ninguém me perguntou o que havia acontecido comigo e eu não me expliquei. Eu cheguei à festa como eu chegaria se estivesse magra, eu falei com todo mundo que eu tive oportunidade de conversar e percebi que ninguém estava preocupada com o meu corpo como eu estava. Elas estavam simplesmente felizes em me ver.

Se tem algo que eu aprendi é que não devemos esperar sermos magros para viver, a vida é muito curta para isso. Vai desconfortável, mas vai.

Foi graças àquela coragem que eu cresci e comecei o Brigadeiro de Alface, para que ninguém precise passar por isso sozinha.