A maneira certa de comer

Eu vejo muitas pessoas condenando certas dietas ou filosofias alimentares por eliminarem grupos de alimentos, mas hoje depois de tantos anos escrevendo e lendo sobre comportamento alimentar entendo que não há apenas uma maneira certa de comer.

A gente sabe que o objetivo principal de comer é nos manter vivos, o que parece ser muito simples, mas a comida também tem a função social de conectar pessoas, de alimentar os olhos e outros sentidos, e de proporcionar prazer. Outro ponto é o impacto no meio ambiente causado pelo que escolhemos comer. Mas o principal complicador é o poder da comida de transformar o nosso corpo e saúde. Se comemos certos alimentos temos mais saúde do que quando comemos outros. Se comemos demais engordamos e se comemos de menos emagrecemos.

Quando pensamos em alimentação como calorias, macro e micronutrientes, estamos olhando a comida apenas pela sua função de transformar o corpo e a saúde, mas essa não é toda a história.

Não dá para ignorar todas as outras funções do alimento e da importância que ele tem na nossa vida social.

Você e só você pode decidir o que é certo para você, é claro que isso não elimina a ajuda de um nutricionista, terapeuta, médico ou coach. Encontre toda a ajuda que precisar, mas não esqueça de observar o que dá certo ou não na sua vida.

A única condição que pode alterar a nossa auto-avaliação é quando a nossa saúde física ou mental está comprometida. Para um diabético é melhor não comer açúcar por mais que ele se sinta bem depois do pudim, para quem tem um transtorno alimentar é melhor comer o que o médico sugeriu por mais que o seu corpo e mente digam não.

Mas em linhas gerais eu não acredito que exista uma única maneira certa de se alimentar.

A maneira certa de comer é aquela que satisfaz a sua fome, fortalece o seu corpo, não te deixa ansiosa e não elimina o prazer de comer por comer.

Como é ser gorda no trabalho

No meu escritório eu trabalho com uma mulher que sofre com problemas de saúde relacionados à obesidade como trombose. Ela chega de manhã com croc ou chinelo de dedo mesmo no inverno porque é difícil encontrar sapato fechado que caiba. A temperatura do escritório sempre parece estar alta levando em conta o suor inevitável. Ao levantar da cadeira a testa franzida denuncia a dor e os primeiros passos cambaleantes a levam para a cozinha para pegar um café.

Esta colega é uma figura materna na empresa sempre aberta a ajudar os outros. Apesar disso, o excesso de peso parece ser um incômodo para grande parte das pessoas. O nome dela sempre surge em conversas sobre alimentação ou dietas, e ela é usada como exemplo de quem não devemos nos tornar. Até colegas acima do peso a julgam por ela, de acordo com eles, ter se deixado levar desse jeito.

Se ela se ausenta por gripe todos culpa a gordura, se ela está cansada é a gordura, se está indisposta é a gordura. Se ela não performa bem no trabalho, a obesidade já é citada.

Infelizmente o mundo ainda acredita que o obeso é uma pessoa que não controla o peso e, por conta disso, é incapaz de controlar sua vida ou seu trabalho.

Talvez seja por conta de tudo o que passei, mas não entendo como alguém pode pensar que basta querer para emagrecer. Que emagrecimento é uma questão de comer menos e se exercitar. Bem, não é tão fácil assim.

Ela me conta das tentativas de dieta, do novo médico que encontrou, da trigésima nutricionista, programa, sistema, coach que eu está começando.

O lado cruel da obesidade é que ela está aparente e todos se sentem no direito de apontá-la em nome da saúde. Imagine se todos com dívidas no cartão de crédito fossem considerados ineficientes no trabalho por não conseguirem controlar as suas finanças?

Estamos longe de aceitar pessoas obesas como elas são por medo de aumentar a obesidade no mundo, mas isso está longe de ser verdade. Aceitar as pessoas é um ato de amor e respeito, algo que todos merecemos.

O corpo não é propriedade pública e ninguém tem o direito de te dizer como ele deve ser, nem mesmo em nome da saúde.

Por que é tão importante cuidar de você primeiro?

Um dos grandes desafios na vida é saber o quanto que você pode dar de si para não terminar vazio. Todos queremos ser generosos e cuidar dos outros ao nosso redor, e isso é um dos lados mais bonitos de ser humano, mas e quando a beleza da doação resulta em ressentimento, cobrança, controle e expectativas frustradas? Você come?

Para entender o equilíbrio entre o doar e receber e o papel do amor-próprio em prevenir que você ataque a geladeira para se encher daquilo que você precisa, vou passar um exercício bem fácil que vai te fazer entender de vez porque o amor-próprio é o melhor que você pode fazer por você e pelos outros.

Imagine que cada ato de carinho ou cuidado com você mesmo seja uma maçã.

Agora imagine que você é uma cesta feita para carregar essas maçãs.

Cada vez que você decide se honrar e se respeitar você ganha uma nova maçã para a sua cesta. Quanto mais maçãs você vai colecionando mais forte você se sente, mais certo do que quer e do que gosta, mais assertivo na comunicação com os outros e mais seguro você se torna. As maçãs são a prova de que você está fazendo e agindo de acordo com os seus valores, princípios e preferências.

Você se sente bem, pleno, completo, cheio.

Mas chega uma hora que a sua cesta já não suporta tantas maçãs e elas começam a cair por onde você caminha. As maçãs ao longo do caminho são as atitudes de grandeza e gentileza que você tem sem ao menos perceber mas que torna o dia do outro melhor. É a energia positiva que emana de alguém que se ama e isso é contagiante.

Outras vezes você vai doar suas maçãs deliberadamente porque já tem o suficiente. Essas são as vezes em que você ajuda alguém, dá o melhor de si em um projeto, sacrifica horas e dias de descanso para ajudar uma instituição, contribui financeiramente com uma causa, se entrega em um relacionamento sem medo de errar porque se tudo der errado ainda haverão maçãs suficiente para te manter cheio.

Quanto mais você cuida de si mesmo mais tem para dar ao outro. Não tem como dar o que não temos então o nossa maior tarefa é garantir que temos o suficiente.

Não dá para dar maçãs de uma cesta vazia, é daí que vem o ressentimento, a expectativa de receber outra maçã de volta e a necessidade de comer para preencher esse vazio.  

Cuide de você primeiro.

Comer demais é um caminho para se conhecer melhor

Se você está por aqui lendo este post provavelmente a alimentação é uma área da sua vida que você gostaria de melhorar. Talvez você queira emagrecer, talvez só queira parar de comer tanto em determinadas situações ou talvez você sonhe com o dia em que não passe horas pensando em comida. Qualquer que seja o seu desejo, hoje tenho algo muito positivo para dividir.

Ter uma relação problemática com a comida não é fácil, você se sente fraco, desmotivado, sem autoconfiança depois de cair e levantar e voltar a cair de novo. Eu sei. Por outro lado, é essa relaçãozinha complicada que nos ensina diariamente quem somos, o que queremos e quem almejamos ser.

É aquela comilança tarde da noite que te indica que você está cansado e precisa dormir. É o final de semana em casa recheado de delícias em acesso que te mostra a necessidade de incluir mais atividades que tragam prazer à sua vida. É a caixa de bombons no escritório que te relembra de fazer aquela ligação que você anda ignorando. São as idas à cozinha escondida que sinalizam que você precisa conversar com o seu marido sobre a última briga.

A gente não apenas come por comer quando não está com fome, nós estamos em busca de algo.

Na maioria das vezes tem um sentimento que nos levou ao chocolate, uma necessidade de algo que nos fará sentir melhor. E é aí que está o caminho para o autoconhecimento.

Quando começamos a entender o porquê comemos, começamos a entender quem somos, do que gostamos, do que precisamos. Começamos a entender quais são os nossos limites, as nossas necessidades, e assim crescemos.

Hoje sei que se não tiver um evento social no final de semana vou assar um bolo e comer a metade dele porque estou em busca de prazer. O excesso de doces me ensinou a dizer não para eventos ou pessoas que eu não quero encontrar, para coisas que eu não quero fazer. Os episódios de compulsão alimentar me ensinaram que preciso me amar e me aceitar como sou para não me punir com comida.

Use essa relação que você tem com o alimento para começar a se entender melhor. Preste atenção nisso, mantenha um diário alimentar onde você escreve o que comeu e o que estava sentindo ou pensando.

No começo do meu diário eu nem sabia o que estava sentindo, foi só com o passar das semanas e meses que comecei a identificar as minhas emoções e o meu padrão alimentar em resposta a essas emoções.

Dê-se essa chance de se conhecer melhor usando o que muitas vezes você quer eliminar completamente da sua vida - os excessos alimentares.

Eu como quando tenho fome ou tenho horários?

A leitora Paloma Delfino me perguntou no Instagram se como quando tenho fome ou se tenho horários fixos e resolvi escrever este post para explicar desde o começo.

A maior parte da minha vida eu passei comendo quando estava com fome sem prestar atenção no horário. Eu sempre tive as três refeições principais, mas era nos lanchinhos que eu não tinha nenhum tipo de estrutura.

Comer no horário certo

Quando passei a ter muitos episódios de compulsão alimentar, a equipe de tratamento que me ajudou criou um plano de alimentar com refeições principais e os lanches bem estruturados em horários definidos. Era café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar com sobremesa e depois ceia todos os dias da semana. Sobre isso eu já gravei um vídeo.

O plano alimentar era para que eu voltasse a entrar em contato com a sensação de fome e saciedade que havia perdido por conta da compulsão.

Quando você tem compulsão, transtorno alimentar ou qualquer comportamento alimentar transtornado fica difícil simplesmente seguir o conselho “ouça o seu corpo”, “coma quando e o que quiser”. Esse são conselhos ótimos e super válidos quando você já consegue reconhecer fome e saciedade, mas se a cabeça está enferma, ouvir o corpo é uma tarefa quase impossível.

Ao reduzir os episódios de compulsão voltei aos poucos a comer quando tenho fome, mas o engraçado é que a minha fome sempre bate nos mesmos horários por conta da minha rotina. Às vezes não como nada entre o café da manhã e o almoço se não tenho fome, mas nas refeições principais são raros os dias que tenho menos apetite.

Então Paloma, a minha resposta é que como quando tenho fome porque consigo identificar quando estou com fome e quando já comi o suficiente, mas tive que chegar até aqui passando pelos horários de comer e foi a melhor coisa que fiz. Isso não significa que é o melhor caminho para todos porque cada um tem um começo.

O que é comer emocional?

No último post eu falei sobre uma das razões por que continuamos engordando, e hoje quero compartilhar a visão de uma pesquisadora maravilhosa holandesa que dedica a sua carreira a estudar o comportamento alimentar. O nome dela é Tatjana van Strien e alguns dos artigos que ela publica é sobre o comer emocional. Eu já havia publicado alguns posts com estudos sobre comer emocionalmente, se você perdeu dá uma olhada aqui.

Mesmo acreditando que ninguém precisa ter um determinado peso para ser saudável não ignoro o fato de que a obesidade pode trazer consigo complicações à saúde. Parece que por mais que tentemos emagrecer sempre vai ter algo nos tentando fazer engordar. Para a Tatjana, ao invés de focar em tratamentos e dietas contra o sintoma (ser gordo) deveríamos prestar atenção na causa, na razão pela qual alguém ficou gordo.

Levando isso em consideração, o comer emocional parece ser uma causa importante de excesso e aumento de peso. Os comedores emocionais comem demais como uma reação aos sentimentos desagradáveis. De acordo com a pesquisadora

isso é porque os comedores emocionais confundem os estímulos fisiológicos provenientes de emoções negativas com estímulos de fome. Uma dieta é contraproducente para comedores emocionais: o inevitável fracasso de uma dieta só os ajuda a se afundar ainda mais.

Para por aqui e volta a ler o que ela disse acima.

Será que precisamos de mais razões para entender que dieta não é a resposta?

Mas isso não é tudo, a Tatjana van Strien também cita que o aumento da obesidade ocorreu junto ao aumento da ansiedade, e que isso não é pura coincidência. O comer emocional seria o que conecta a ansiedade à obesidade.

A nova realidade de divórcios e pais que precisam passar o dia trabalhando teria resultado em apego inseguro, isso é, o vínculo que a criança tem com os pais que quando instável pode resultar em ansiedade. Sem contar com o medo de perder o emprego, a pressão em ter e alcançar sempre mais, o consumo de informações e de bens que nos deixam mais ansiosos, e tudo isso nos fazendo comer emocionalmente.

Já deu para ver que tudo isso faz sentido, mas há ainda muitas perguntas em aberto que esperam serem respondidas logo. Eu continuarei na busca.

Por que continuamos engordando?

Se que já sabemos o que comer, quando comer e como comer, por que continuamos engordando? Com todas as centenas de dietas pelo mundo afora por que ainda não achamos a resposta? Será que é falta de informação ou falta de vontade que está fazendo as nossas cinturas expandirem?

Eu não paro de engordar

Se você é como eu provavelmente já se viu envolvido na matemática de comer menos e se exercitar mais para emagrecer só para depois voltar a engordar. É dolorido, eu sei.

Quem passa por períodos de emagrecimento seguidos por períodos de engorda vai deixando um pouco da sua autoconfiança e autoestima ao longo do caminho. É preciso uma força de vontade gigantesca para sair da cama, chacoalhar a poeira e recomeçar o processo. Por isso, quem diz que excesso de peso ou obesidade é falta de vontade ou disciplina não tem noção do que está dizendo.

Se o excesso de peso não é solucionado com a fórmula de comer menos + exercitar-se mais, achamos que deve ter algo errado com o nosso corpo como uma disfunção hormonal ou outro problema de saúde, o que pode ser verdade, mas uma causa muito frequente para a fórmula não dar certo é quando comemos para lidar com as suas emoções

Eu mesma fui de excessos a restrições, de obesidade a bulimia, mas algo que sempre esteve presente foi o comer emocional. Um tópico que poucos citam mas que muitos de nós sentimos.

Alguns profissionais negam a existência de tal comportamento - o comer emocional, por ser uma área ainda pouco estudada, mas quem passa por isso sente a sua presença. É aquela vontade enorme de comer quando estamos estressados, cansados, ansiosos. E não há dieta que acalme essa fome, mas há sim estratégias e terapias para lidar com ela.

No próximo post eu vou falar mais sobre o que é o comer emocional.